O mistério do desaparecimento da classe média

“Uma cidade sem classe média” – é assim que Veronica Mars descreve sua Neptune, Califórnia. Na cidade fictícia criada por Rob Thomas, a separação definitiva de classes aconteceu graças à empresa Kane Software, que revolucionou a transmissão e exibição de vídeos na internet. Jake Kane se tornou um bilionário, e essa boa fortuna se estendeu a seus funcionários e investidores. Não é difícil imaginar a outra metade de Neptune: ao lado de qualquer bairro nobre, orbitam vizinhanças carentes que trabalham nas mansões.

Mas, para pensar o mundo sem classe média, precisamos primeiro ter uma ideia sobre o que é a classe média. E não existe uma fórmula definitiva, nem mesmo para os economistas.

No que depender da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República brasileira, ser da classe média é ter renda per capita entre R$ 441 e R$ 1019. Essa modéstia não fica só no governo: há alguns anos, editores dos jornais gratuitos de São Paulo me diziam sem constrangimento que seus impressos eram consumidos pela classe A tanto visada pelos publicitários, e essa classe A não exigia muito mais do que R$ 2000 por capita.

Para os economistas1, existem duas formas mais comuns de se desenhar a classe média. Na primeira, chama-se “classe média” os 60% da população que ficam no meio – entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos. Nessa classificação, a classe média sempre representa ? de uma população.

O segundo cálculo opta por determinar as fronteiras da classe média, fazendo com seu tamanho não seja fixo. Para isso, é feito o cálculo da mediana2 da renda per capita. Pertencem à classe média todos os que estiverem compreendidos no intervalo entre 75% e 125% desse valor3.

Mas classe, diriam os economistas, é uma preocupação dos sociólogos. E nem a mera informação da renda, nem o que poderia ser escrito neste texto seriam suficientes para determinar quem pertence a esse grupo. Podemos falar em termos do número de aparelhos de televisão e de geladeiras em uma casa, podemos falar em grau de escolaridade, podemos falar no tipo de profissão, podemos falar no grau de prestígio que todas essas características representam – a definição de uma classe é mais complexa.

O senso comum, no entanto, diz que a classe média é aquela que não tem grandes fortunas, mas tampouco tem grandes dívidas. A classe média só conquista seus sonhos de consumo com um financiamento ou com as parcelas do cartão de crédito, mas evita (na maior parte das vezes) a inadimplência.

Em qualquer uma dessas definições, Neptune teria uma classe média – e os próprios Mars seriam bons candidatos para esse grupo. Mas vamos ficar com uma definição dos economistas – porque elas são mais objetivas – e, entre elas, com a segunda – porque ela define a classe média por quem ela é, e não por quem ela não é.

Pensando a classe média como pessoas que têm renda um tanto abaixo ou um tanto acima do ponto médio da população, uma análise simples pode ser feita: quanto maior a quantidade de pessoas dentro desse intervalo, mais igualitária é uma sociedade4.

É isso o que Veronica diz quando fala nessa estreita e quase inexistente fatia de classe média. Não se trata da quantidade de novos-ricos dos CEPs terminados em 09 ou do quanto é necessário ser pobre para aceitar um emprego na mansão dos Echolls – Neptune é uma cidade de diferenças e abismos.

Para Rob Thomas e sua equipe de roteiristas, a Neptune sem classe média tem vantagens narrativas para o tom noir da série.

Os milionários – no plural – garantem um número razoável de suspeitos e de culpados para tantas conspirações. Os milhões de dólares transmitem para os personagens e telespectadores aquela ideia de acima-da-lei, justificando as transgressões legais de Veronica em sua busca por verdades e – por que não dizer? – justiça. Do outro lado da cidade, existe espaço para uma máfia irlandesa e uma gangue de motoqueiros. Existem suspeitos que são suspeitos apenas porque a polícia do xerife Lamb prefere prender alguém sem qualquer influência política ou econômica.

Mas não existe nada de branco e preto em “Veronica Mars”. PCHers podem ser melhores que 09ers, mas Duncan Kane também pode ser melhor que Wanda Varner. O que existe em Neptune e, por consequência, em “Veronica Mars” é uma diferença tão grande que tramas impensáveis para a minha cidade e para a sua cidade se tornam verossímeis.

Esse retrato de Neptune torna-se mais interessante porque o encolhimento da classe média é um fenômeno real. Citando dados do censo norte-americano, o jornal Washington Post destacou que a classe média formada por 60% da população detinha em 2011 46,6% da renda nacional – contra 50% da renda total em 19905.

Em Neptune, o encolhimento da classe média resultou do enriquecimento rápido da antiga classe média da cidade; nos EUA de 2010, a situação foi intensificada pela crise econômica. A recuperação das classes mais altas vem sendo mais rápida do que a da população média, e muitos empregos desapareceram aparentemente para sempre. Qualquer que seja o motivo, a falta da classe média tem o mesmo efeito: o isolamento quase segregacionista e cada vez mais aprofundado das classes.

Bem-vindos a Neptune, 2014.

  1. Uma explicação mais elaborada e que não abusa do seu tempo livre pode ser encontrada em Atkinson, A.B., Brandolini, A. On the identification of the ‘middle class’. In: Working Papers 217, ECINEQ, Society for the Study of Economic Inequality, 2011. []
  2. Em estatística, a mediana não é a média. Ela é o ponto médio da amostra ou da população, de modo que metade dos valores seja maior que a mediana e a outra metade seja inferior. []
  3. Há divergências sobre qual deve ser esse intervalo – alguns colocam o limite superior em 150% ou até 200% da mediana. []
  4. Utilizando a outra definição da classe média, a desigualdade fica evidente se o total da renda pertencente aos 60% que ficam entre os pobres e ricos encolhe em relação ao total de renda da população. []
  5. Outra análise indicando essa tendência pode ser encontrada em Foster, J. E.; Wolfson, M. C. Polarization and the decline of the middle class: Canada and the U.S. In: The Journal of Economic Inequality, 2010. []
Edição: Vol. 2 Nº 18 (mai/2013)
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Publicado em 27/05/2013, às 14:26.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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