A nova velha Veronica Mars

Quando 2013 começou, “Veronica Mars” era uma memória. Vocês costumavam ser amigos um bom tempo atrás, mas ultimamente você nem pensava muito nisso. Você estava pronto para continuar conhecendo pessoas novas (e se decepcionando um pouco) e esquecer Sarah Marshall. E Veronica.

Até que chegou o mês de março.

No dia 13 de março, uma quarta-feira como outra qualquer1, o criador Rob Thomas pediu 2 milhões de dólares para os fãs para finalmente produzir o filme de “Veronica Mars”. Em meras 11 horas, o valor foi atingido. Em menos de um ano, teremos um novo final para a história.

A internet, é claro, reagiu. Uma parte era uma festa de marshmallows, já pensando nos próximos seriados que poderiam ser ressuscitados. A outra parte questionava essa história de dar dinheiro para um grande estúdio de cinema fazer um filme. Em meras 11 horas, o futuro chegava com novas regras para o jogo.

Talvez.

O que mudou?
Era 2007 quando Veronica Mars deu as costas para a câmera e caminhou para fora de nossa televisão. Rob Thomas tentou vender uma nova temporada em que Veronica seria novata no FBI. E, quando isso não funcionou, ele tentou fazer um filme. Mas isso também não funcionou.

De lá pra cá, Rob Thomas criou “Party Down” e foi cancelado – claro. Kristen Bell fez algumas comédias até voltar para a televisão. Enrico Colantoni fez aquela série policial canadense que você não assiste. Jason Dohring tentou nos convencer a assistir “Moonlight” (fácil) e “Ringer” (olha…), até ser cancelado nas duas vezes. E eu realmente nunca mais vi Percy Daggs III e Teddy Dunn (mas ele não vai voltar… ou vai?).

Nada nesses currículos poderia mudar o interesse do estúdio, dono da história e dos personagens. Mas é bem provável que, seis anos depois, “Veronica Mars” simplesmente não fosse uma grande preocupação para a Warner Bros. – seria bem diferente, por exemplo, pedir para fazer o mesmo com uma franquia ainda extremamente lucrativa, como “Harry Potter”. Desse ponto de vista, “Veronica Mars” seria um ótimo teste: pouco risco para o estúdio, criador e elenco engajados e fãs prontinhos para se provarem.

Ah, sim: os fãs.

Quando a série foi cancelada, em 2007, fãs enviaram 2040 barras de chocolate Mars (além de chocolates Snickers e marshmallows) para os executivos do canal CW. Foi em vão.

Existem duas coisas que impressionam estúdios e canais: gente assistindo a TV – ao vivo, e não no DVR – e anunciantes bancando o horário2. Barras de chocolate, amendoins, molhos de Tabasco, anúncios na Variety não colam. Com muita sorte, pode render mais uma temporada. Provavelmente na sexta-feira à noite.

Uma campanha no Kickstarter serviu para que os fãs demonstrassem seu interesse de uma forma bem mais clara do que com doces: com dinheiro.

Ao final da campanha, US$ 5.702.153 foram sido arrecadados por 91.585 fãs. A média simples é de menos de 62 dólares por pessoa. Olhando com um pouco mais de atenção, 46.224 dos apoiadores – cerca de metade do total – ofereceram 35 ou 50 dólares para a campanha3.

O que é especial nesses valores? Simples: 35 dólares é o menor pagamento para obter o download do filme, e 50 dólares é o menor para obter o filme em DVD. Na prática, a campanha do filme de “Veronica Mars” é uma pré-venda extrema, realizada antes mesmo da produção do filme4.

Mas mudou alguma coisa mesmo?
A campanha de “Veronica Mars” atingiu sua meta com rapidez por vários motivos.

Em primeiro lugar, a meta não era exorbitante porque o tipo de produção é relativamente modesto. O filme “Serenity” (2005), produzido após o cancelamento do seriado “Firefly”, custou US$ 39 milhões aos estúdios Universal – e as bilheterias norte-americanas renderam US$ 25,5 milhões, o que reduz o interesse em ressuscitar seriados que não fizeram muito sucesso. Mesmo com o sucesso da campanha de “Veronica Mars”, Bryan Fuller vê dificuldades em produzir um filme para “Pushing Daisies” porque precisaria de ao menos US$ 10 milhões de dólares, já que os cenários teriam que reconstruídos.

Outro fator é a oportunidade de ter um pouquinho do poder de decisão dos estúdios, após tantos anos de trauma. Falando em tantos anos, a nostalgia também é um ótimo incentivo para colocar a mão no bolso. Pode não ser racional, mas é como se você pudesse trazer 2004 de volta por meros 35 dólares! E as cores do passado são sempre mais bonitas, como provou o sucesso do Instagram.

E não podemos desconsiderar o valor da novidade5. Claro que “Veronica Mars” não é o primeiro filme a ser bancado com uma campanha no Kickstarter, mas nenhuma campanha anterior pediu tanto dinheiro ou teve Kristen Bell no vídeo de apresentação. Será que, passada a empolgação inicial, os fãs continuarão felizes pagando a mais por um DVD e produzindo um filme que continua pertencendo a um grande estúdio?

Todos estão olhando com atenção para o que vai acontecer com o filme “Veronica Mars”, mas só vai dar para saber se alguma coisa mudou mesmo depois de fevereiro do ano que vem, quando está previsto o lançamento. Talvez os 91.585 apoiadores sejam os únicos interessados.

Mas poderia mudar para melhor?
Com a meta atingida em menos de um dia e US$ 5,7 milhões arrecadados no total, além da expectativa por mais LoVe e da participação ativa dos fãs, sobrou otimismo durante a campanha. Não somos mais reféns!6 Nunca mais perderemos aquele seriado fantástico sumariamente cancelado depois de quatro episódios!7 Nathan Fillion e Joss Whedon estão com as agendas vazias e poderão gravar “Serenity 2”!8

O saldo positivo dessa história (fora da conta bancária criada para a campanha) é uma experimentação envolvendo um grande estúdio. Talvez a pré-venda super antecipada seja a melhor forma de expressar seu amor fanático por seriados de TV e filmes. Imaginem as possibilidades na hora de escolher quais pilotos serão transformados em série na próxima temporada!

E poderia piorar tudo?
Claro.

É só pensar nos dez filmes de maior arrecadação em bilheterias no mundo todo em 2012:

  1. “Os Vingadores”
  2. “007: Operação Skyfall”
  3. “Batman: o Cavaleiro das Trevas ressurge”
  4. “O Hobbit: uma jornada inesperada”
  5. “A Era do Gelo 4”
  6. “Crepúsculo: Amanhecer – parte 2”
  7. “O Espetacular Homem-Aranha”
  8. “Madagascar 3: os procurados”
  9. “Jogos Vorazes”
  10. “MIB³ – Homens de Preto 3”

Sabe o que todos eles têm em comum? Todos esses dez filmes fazem parte de uma franquia. Para um estúdio, afinal, é mais seguro apostar o orçamento em produções que já têm um público à espera.9

Em 2013, “Veronica Mars” já tem um público pronto, ainda que menor do que “Os Vingadores”. Mas esse público não existia em 2004, quando Rob Thomas, Kristen Bell e LoVe ainda não eram conhecidos.

Se a moda pega, talvez venham mais “Pushing Daisies”, “Jericho”, “The Middleman” por aí. Mas, se a moda pega, novos Neds e novas Wendy Watsons poderão ficar cada vez mais raros. Então vamos aguardar a velha Veronica com ansiedade. Só que vamos continuar procurando novas Veronicas. Não podemos ficar em Neptune para sempre.

  1. Fora a escolha do novo papa. []
  2. Talvez por isso a campanha de “Chuck”), direcionada a um anunciante, tenha funcionado melhor. Na época daquela campanha, os anúncios do Subway em programas como “Chuck”, “The Biggest Loser”, “Late Night with Jimmy Fallon” e “Sunday Night Football” eram pelo menos dez vezes maiores do que a meta do Kickstarter do filme “Veronica Mars”. []
  3. O valor arrecadado por 50,47% dos apoiadores até este momento corresponde a 34,48% do total. []
  4. “Veronica Mars” não é uma exceção: grande parte das campanhas do Kickstarter configuram situações de pré-venda para viabilizar a produção em quantidade. O bem-sucedido Pebble, que arrecadou mais de US$ 10 milhões em 2012, teve como valor médio cerca de 149 dólares – muito próximo dos 150 dólares que correspondem ao preço do relógio.
    80% dos participantes compraram recompensas que incluíam um relógio, e outros 14% dois ou mais relógios. []
  5. O feliz comprador do único papel com falas colocado entre as recompensas pagou 10 mil dólares admitiu que até gostava da série, mas não era dos mais fanáticos. []
  6. Exagero. []
  7. Mentira. []
  8. Talvez em 2058. []
  9. Tanto que Joss Whedon voltará a trabalhar com televisão – em “S.H.I.E.L.D.” []
Edição: Vol. 2 Nº 18 (mai/2013)
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Publicado em 27/05/2013, às 14:37.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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