Joey McIntyre e a fábula (ao vivo) dos ex-boybanders

O ano era 2002. Os Backstreet Boys já raspavam o que conseguiam com sua primeira (e até agora única1 ) compilação oficial. O *NSYNC entrava no que seria uma pausa temporária (mas que agora pode ser considerada definitiva – por enquanto, pelo menos) para que Justin Timberlake se arriscasse em carreira solo. E, em um bar de Nova Iorque2, Joey McIntyre gravava um álbum ao vivo.

Para quem gostava de Backstreet Boys e *NSYNC, New Kids on the Block era uma fábula sobre os perigos do fim da fama. Para quem não gostava, New Kids on the Block era uma piada que um dia cantou e dançou nos degraus de uma escada.

“One too many” (2002), o tal álbum ao vivo de McIntyre, foi lançado de forma independente. A produção é simples, e McIntyre divide o palco com seu principal colaborador – o músico e compositor Emanuel Kiriakou – no que ele chama de “one man show with two people”. É uma mistura de coletânea de (quase-)sucessos com tentativa de continuar trabalhando com música. Ouvir “One too many” é como estar naquele fim de festa e aí dois amigos pegam o violão sem muita preocupação de impressionar ou agradar quem está por perto.

Mas talvez “One too many” também possa ser aquela fábula representando os estágios do ex-boybanderismo. Por via das dúvidas, separem uma cópia para o Liam Payne.

O ex-boybander
Não poderia faltar no repertório do show o primeiro e mais conhecido single solo de McIntyre. “Stay the same” é o mais próximo do que se espera de um boybander e a primeira música do show. A mensagem da baladinha tem o mesmo apelo que o One Direction usou em “What makes you beautiful”: assegurar suas fãs de que elas são bonitas e não precisam mudar.

Outra canção esperada para um boybander é “I don’t know why I love you” (2001), um pop inofensivo sobre ser grato por ter alguém que o ama, mesmo que ele não mereça. No lado mais (ou quase) dançante do espectro boybander, “NYC Girls” é uma ode às garotas de Nova Iorque. E a todas as outras, na verdade. “Todas essas garotas de Nova Iorque vêm de todas as partes”, tranquiliza ele às fãs.

O comediante stand-up
“I love you came too late” tem outro tema típico de para boybanders: lamentar a perda de uma namorada. O problema não foi a falta de amor, mas a falta de coragem de dizer que a amava. Claro. “É o truque mais velho no manual”, admite McIntyre. Mais tarde, o cantor diz que não está sendo cínico e que realmente não é de dizer “eu te amo” porque tem uma coisa pior do que dizer as tais três palavras tarde demais: dizer as três palavras cedo demais. “O amor é uma droga, às vezes”.

Em “We don’t wanna come down”, McIntyre pula a letra de toda a primeira estrofe e promete “usar as palavras certas, alguma hora”. Sem romance, a música co-escrita por McIntyre fala sobre estar no espaço, olhar o planeta de longe e só querer voltar se o mundo tomar jeito. Isso inspira McIntyre a falar sobre racionamento de água (Nova Iorque passava por uma seca) e sugerir certas medidas de economia – “tomar banho com um amigo” e “urinar na pia”.

A tirada continua em “Falling” (música que seria gravada no álbum seguinte, “8:09”, de 2004). O verso “Eu sou hétero, você é gay”, cantado por Kiriakou, rende uma interrupção e todas as piadas infames que McIntyre consegue pensar naquele momento. “E se eu fosse gay?”, pergunta o cantor? . “Estaria tudo bem”, responde seu colega de palco, “eu provavelmente trocaria de time também”. McIntyre não quer saber do politicamente correto. Naquele bar, naquele noite, ele era o rei.

Mesmo quando parece que está sendo sério, depois da balada “Easier”, McIntyre lembra que está em um bar: “Acho que é hora de um drink”. Todos precisamos daquele drink, Joey. Não é fácil ser um ex-boybander, e muitas das piadas carregam como fundo a própria carreira do cantor.

O ídolo decadente
Depois daquela conversa de “Falling”, McIntyre finalizou: “Valeu, cara, isso vai estar na internet toda amanhã”. Não estava. Nunca estaria. Todos os súditos do rei McIntyre estavam naquele bar, e o resto da internet não ligou.

Depois do fim dos NKOTB, McIntyre teve dificuldades para dar continuidade a sua carreira. Gravou “Stay the same” (1999) de forma independente, apostando no sucesso que ídolos teens como Backstreet Boys e Britney Spears conquistavam naquele final de década de 1990. Conseguiu emplacar a faixa-título e garantiu um contrato para distribuição daquele álbum e para a gravação do segundo, “Meet Joe Mac” (2001). Em 2001, chegou a fazer um show para menos de 50 pessoas, em Rochester. Em 2002, já não tinha mais contrato com gravadora.

No início do show gravado em “One too many”, McIntyre foi o primeiro a admitir:

Vejo alguns rostos familiares… só alguns. As pessoas acham que eu tenho muitos fãs – que nada, eles apenas me seguem por todos os lugares. São os bravehearts! Não f– conosco!”

“Rain”, composição McIntyre/Kiriakou, rende o comentário: “Eu provavelmente deveria levar esta canção a sério, é uma canção muito séria”. É uma música meio deprimente, na verdade. McIntyre canta que seu melhor papel é o de tolo, diz que já perdeu aquilo que um dia teve e promete superar esse momento.

O cantor de covers
Ao final de “I don’t know why I love you”, McIntyre emenda “Wild Night” (1971), de Van Morrison3. “Alguém sabe esse verso? Ok, eu também não sei, então estamos juntos nessa”. Esse parece ser o único momento realmente descontraído entre os covers incluídos no repertório do show.

Em um deles, McIntyre apela para U24. Nada diz “sou um artista sério” como cantar U2, certo?

Talvez Fleetwood Mac. “Precisamos de silêncio de verdade, então calem a boca, seus tagarelas”, reclama Kiriakou antes de “Landslide” (1975). “Time after time” (1984), de Cyndi Lauper, também passa sem piadas, soluços ou tropeços. “All the way” (1957), famosa com Frank Sinatra, começa tão sóbria que é dedicada ao pai do cantor5.

O velho new kid on the block
Mas pode ser chamado de cover quando McIntyre canta uma música de sua antiga boyband? Provavelmente seja assim que ele veja, considerando o quanto ele leva a sério esse momento.

“Cover girl” (1989), uma música escrita pelo produtor Maurice Starr para os New Kids on the Block, era uma daquelas músicas alegrinhas, com Donnie Wahlberg cantando seus oh-oh-oh. Aqui, virou uma balada acústica que faz a música parecer quase madura, e um tanto melancólica. Alguns versos modificados fazem referência clara ao NKOTB:

Acordei nesta manhã, tinha 15 anos de novo. Estávamos segurando a barra, você se lembra?

É interessante que ele não tenha escolhido “Step by step”, talvez a música-símbolo dos NKOTB, ou “Please don’t go girl”, possivelmente o maior sucesso NKOTBeano cantado por ele. “Cover girl”, nesta versão, simultaneamente aproxima e afasta Joey McIntyre e sua boyband.

O cantor sério
McIntyre encerra o show e o álbum com a nova “Endlessly”. “Esta música é dedicada à maior cidade do mundo”, diz ele na Nova Iorque pós-11-de-setembro. A canção indica, junto com “Falling”, o rumo que seria tomado no álbum “8:09” (2004), que tem o Joey McIntyre menos ídolo pop e mais reflexivo.

Somente Joe Mac pode fazer piada com Joe Mac.

  1. A não ser que você considere “NKOTBSB”, uma seleção de sucessos das duas boybands lançada em 2011 para aproveitar a turnê conjunta. []
  2. O clima de estou-no-bar fica por conta da edição, que não cortou uma introdução cancelada (porque o músico Emanuel Kiriakou derrubou a palheta) e várias conversas que não fazem sentido sem ver o que acontecia no palco. []
  3. Eu conhecia apenas na versão de John Mellencamp, de 1994. []
  4. Nessa hora, minha irmã aparece e pergunta: “Mas você gosta de U2?”. Não, eu não gosto. Só estou ouvindo um ex-NKOTB. []
  5. McIntyre voltaria a cantar standards no álbum “Talk to me” (2006). []
Edição: Vol. 2 Nº 17 (mar/2013)
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Publicado em 5/03/2013, às 13:43.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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