A história que o cancelamento de “Dollhouse” contou

Spoilers: Este artigo traz muitas informações sobre a história de “Dollhouse”, o melhor seriado que você nunca viu.

Existe uma regra para quem conta histórias e outras mentiras: as coisas devem fazer (pelo menos um pouco de) sentido. É por meio da narrativa que nos relacionamos com mundo reais e fantasiosos, e isso só funciona se houver um mínimo de coerência nos mecanismos de causa e efeito.

Considerando uma narrativa como um encadeamento de fatos em uma ordem lógica de causas e efeitos, nos habituamos a fazer inferências sobre qual será o próximo passo, e o próximo, e o próximo – até chegarmos ao final. O estado final da sequência é o que mais desperta o nosso interesse, e sua ausência é motivo de desconforto para o consumidor.

Só que isso nem sempre é problema para o produtor, que costumeiramente nos deixa na mão – ou no abismo. Quem Angela Chase escolheu? Quem matou Samantha Carlton? O detetive Ezekiel Stone conseguiu sua redenção? Quem era o homem sem passado? As crianças de “A caverna do dragão” conseguiram voltar para casa?

Mas se o grande vilão das séries de TV é o urso do cancelamento, roteiristas precisam pegar seus escudos e espadas encantados1. A morte é inevitável, mas pode ser heróica.

O caso de Dollhouse
Era uma vez um seriado de TV criado por Joss Whedon. Os whedonites deste mundo podem inferir corretamente que o estado final desta história é o cancelamento, mas vamos falar um pouco sobre a sequência de eventos intermediários. E o desenvolvimento da narrativa de “Dollhouse” não pode ser separado da narrativa real que acontecia nos bastidores da série.

A premissa sobre a casa de bonecas era ambiciosa, e esforços foram tomados para que o telespectador não se perdesse. Assim, um piloto em ritmo acelerado foi substituído por um início mais lento, com cinco episódios mostrando serviços rotineiros executados pelos actives2. Essas escolha narrativa teve como consequência a falta de empatia dos telespectadores com personagens centrais. Os actives eram, a princípio, meros corpos vazios.

Pelos olhos de Boyd Langton, contratado para cuidar da active Echo, passamos cinco semamas apenas molhando os dedos dos pés nas águas desse mundo novo e clandestino. As coisas só começaram a mudar a partir de “Man on the Street” (1–6), o episódio que começou o mergulho no primeiro arco narrativo da série.

A partir daí, o desenvolvimento de Echo ficou cada vez mais evidente, e os outros actives começaram a ganhar recheio (como a crescente conexão entre Sierra e Victor). Os episódios foram coroados com a chegada de Alpha, o primeiro vilão de “Dollhouse”.

A curta primeira temporada crescia em termos de história, mas continuava devendo em termos de audiência. Assim, esse arco narrativo foi resolvido em “Omega” (1–12), episódio que encerrou a exibição da primeira temporada no canal norte-americano Fox3: Echo e Alpha se enfrentaram, e o agente Paul Ballard passou a fazer parte da Dollhouse.

Mas “Dollhouse” era muito mais do que esse arco. A história dessa tecnologia era complexa, e não chegou perto de ser realizada nesses doze episódios. A solução veio na forma de “Epitaph One” (1–13), o décimo-terceiro episódio que sequer foi exibido nos EUA4.

Se “Ghost” (1–1) convidava o telespectador ao mundo da casa de bonecas, “Epitaph One” o convidava a esquecer aquele mundo como o conhecíamos. A ação, com cara de filme de zumbis, era dominada por personagens que nunca haviam aparecido na série, enquanto os personagens centrais de “Dollhouse” foram transformados em memórias. Era uma nova realidade, com um novo vocabulário – e, desta vez, sem um guia novato como Boyd.

Com “Epitaph One”, o “próximo passo” da história chegou uma década no futuro. O produtor Tim Minear confessou que o episódio foi feito pensando que o seriado seria cancelado e “nada importava”, mas isso acabou não acontecendo: de forma surpreendente, “Dollhouse” voltaria para mais treze episódios.

Na segunda temporada, os roteiristas e atores teriam que fazer o presente ter sentido com aquele futuro. Seria uma preocupação constante na sala dos roteiristas, mas seria também uma direção concreta para a série. Em “Epitaph One” estava a planta para toda a segunda temporada. A tecnologia da casa de bonecas teria que ser desenvolvida até virar uma ameaça à humanidade, e os personagens passaram a ser vistos de forma diferente por nós, telespectadores. Tínhamos o estado final, e era hora de conhecer como havíamos chegado lá.

Quando a segunda temporada começou, foram incorporados aos serviços rotineiros dos actives ações de desenvolvimento de suas personalidades. Já em “Vows” (2–1), Echo navegou entre as personalidades previamente implantadas, dando uma pista da heroína que vimos em “Epitaph One”.

O ritmo foi acelerado com a ameaça cada vez mais concreta de cancelamento, desta vez sem milagres de última hora. Se o início da série foi alterado para dar mais tempo para o telespectador entender a história, a segunda temporada foi orientada para telespectadores que já sabiam mais do que os próprios personagens.

A partir de “The Public Eye” (2–5), os episódios passaram a carregar cada vez mais mitologia, respondendo a novos “qual é o próximo passo?” a cada semana.

Em circunstâncias normais, o arco do senador Daniel Perrin poderia ter durado uma temporada inteira. Sob a vigilância do urso do cancelamento, essa história foi contada em apenas dois episódios, voltados a apresentar ao público o alcance dos tentáculos da corporação Rossum.

Nesse ponto, Echo foge da casa de bonecas e a personagem pôde finalmente ser desenvolvida com mais rapidez, longe de seus controladores (e sob a orientação de Paul Ballard). Em vez de pequenas descobertas a cada serviço, avançamos três meses no tempo.

Topher Brink precisou ir além dos limites da genialidade e desenvolve em velocidade improvável (talvez impossível) as ferramentas que levaram ao Thoughtpocalypse5. A tecnologia criada por Topher em apenas alguns meses inclui uma arma que emite um pulso que desabilita os actives nas proximidades, um dispositivo portátil capaz de apagar, sem o uso da cadeira, as memórias implantadas nos actives e uma forma de implantar memórias sem antes criar a arquitetura cerebral dos actives. O trabalho de Topher não atendia apenas às necessidades da corporação Rossum, mas também àquelas da própria história que estava sendo contada.

Claro que, na disputa entre pressa e perfeição, alguns feridos são inevitáveis. Perderam-se detalhes no desenvolvimento dos personagens, e recursos forçados para dar conta da narrativa6. Mas foi essa pressa, causada pela corrida contra o urso do cancelamento, que ajudou a agrupar os parágrafos da história de “Dollhouse”.

Fechando-se cada vez mais o cerco à corporação Rossum – para os personagens e para os telespectadores –, a segunda temporada afundou mais o pé no acelerador e nos levou a seu grande vilão definitivo: uma tecnologia que não mais poderia ser controlada. Ao final do décimo segundo episódio, “Dollhouse” venceu Rossum e mostrou que, com a luz de alerta acesa no painel, uma série cancelada pode tirar nosso fôlego e amarrar seus nós.

O caso de “Dollhouse” é particularmente interessante porque transformou a ameaça de cancelamento da primeira temporada e o cancelamento definitivo após a segunda como oportunidades para criar dois episódios que foram além dos arcos originais: “Epitaph One” e “Epitaph Two” levaram ao telespectador uma história que levaria muitas temporadas para se desenvolverem.

Ao escrever seu próprio epitáfio, “Dollhouse” foi além de um assassino psicótico e de uma corporação sem escrúpulos, descobrindo e combatendo um vilão thoughtpocalíptico que representava toda a humanidade.

E, de alguma forma, tudo fez sentido.

Este texto é uma adaptação do artigo How Cancellation Told the Story of the Dollhouse, publicado no livro Inside Joss’ Dollhouse (2010).
  1. Nenhum animal foi ferido durante a digitação deste artigo. []
  2. Pessoas contratadas pela Dollhouse para terem suas memórias apagadas e substituídas temporariamente por personalidades criadas sob encomenda de seus clientes. []
  3. Em entrevista, Joss Whedon disse ter planejado o final do primeiro ano de “Dollhouse” da mesma forma que tratava as temporadas de “Buffy, a caça-vampiros”, encerrando “cada temporada sabendo que, se aquele fosse o último episódio, teríamos a sensação de conclusão”. []
  4. Treze é o número mágico para o lançamento do DVD da temporada, mas o canal havia encomendado apenas doze. []
  5. Expressão inventada futuramente pelo próprio Topher Brink para definir o momento em que a humanidade seria afetada pela tecnologia de apagar e implantar memórias. []
  6. “The Hollow Men” (2–12), o episódio que concluiu o arco da segunda temporada, exigiu longas explicações na forma de diálogos artificiais. []
Edição: Vol. 2 Nº 16 (fev/2013)
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Publicado em 18/02/2013, às 20:34.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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