O que aprendemos com histórias sobre histórias

Spoilers: Esse texto contém spoilers de edições ainda não publicadas no Brasil da série O Inescrito (The Unwritten).

As histórias estão em todo lugar. O ato de narrar acontece toda vez que alguém nos conta sobre alguma coisa: uma notícia de jornal, um amigo ao telefone, um estranho na cadeira ao lado no ônibus ou o narrador do recordatório de um quadrinho. Quando você se vê no espelho, não é apenas sua imagem que está refletida no vidro, mas todos os percalços, desvios e cliffhangers que o levaram até ali. Somos uma história contada por nossas mães, outra por nosso chefe, e mais uma diferente por nosso vizinho.

É por meio das histórias que aprendemos sobre o mundo e nos relacionamos com ele e até com nós mesmos – literalmente. Nosso cérebro é desenhado de maneira a apreender a realidade na forma de narrativas, metáforas e alegorias. Lutando contra todas as chances, nossa mente teima em tentar organizar nosso pequeno caos diário em uma cadeia de eventos interligados que, superando uma série de adversidades e contando com uma ajudinha do acaso, nos leva ao presente estado das coisas, com a esperança de ainda algumas surpresas e plot twists pelo caminho.

Os limites entre realidade e fantasia não são naturais, mas construídos durante séculos de avanço cultural. Grande parte dos mitos de origem nos conta do nascimento das espécies em terras fantásticas, e o tempo nada mais é que todos nós nos afastando da magia. Os mitos se tornaram literatura e os contadores de histórias, profissionais com a estranha ocupação de inventar coisas. De repente as pessoas esqueceram que as histórias estão por aí, soltas no ar, e decidiram que apenas aquelas presas em livrarias e telas de cinema eram Histórias1.

E isso sempre me deixou meio encasquetado. Nós temos a capacidade de distinguir ficção e realidade (ao menos eu espero que você tenha), mas não podemos negar que, às vezes, a única diferença é dizer que a vida real é narrada por Deus. Por que, então, não temos tantas histórias sobre histórias? Não falo de filmes sobre escritores, ou livros sobre personagens de outros livros que se tornam carne e osso. Nada de metalinguagem barata. Nada de Coração de Tinta ou a Rosa Púrpura do Cairo, mas sobre como as histórias funcionam em seu cerne e como afetam nossas vidas.

De cabeça, lembro de Terry Pratchett. Nos livros da série Discworld, o escritor inglês explora as possibilidades da inevitabilidade da narrativa. Destino ou convenção de gênero? Tanto faz, o mundo se adapta aos formatos designados e o herói, trágico por natureza, tem que enfrentar o inexorável. Não importa se ele é um jovem aprendiz de Morte lidando com desvios nas regras do Universo, um casal de atores que já não sabem se são pessoas ou personagens, um policial que viaja no tempo e revisita uma história da qual já conhece o final ou três bruxas que se veem atraídas para o centro de uma velha tragédia que se repete através dos tempos.

Ao escancarar a lógica da estrutura, Pratchett deixa clara a diferença entre ficção e vida real. Como heróis gregos, a ficção nos arrasta pelos labirintos do plot, brincando com o destino dos homens. O autor se posta como o inimigo de seus personagens e os ocasionais vilões malévolos e impiedosos são ferramentas de narrativa. As histórias, no mundo do disco, são uma força poderosa e invencível

“não se importam com quem participa delas. Tudo o que importa é que ela se desenrole e se repita. Ou, se você prefere pensar de outra maneira: histórias são uma forma de vida parasitária, sugando vidas em serviço apenas da história mesma. É necessário um certo tipo de pessoa para contra-atacar e se tornar o bicarbonato da História.”2

Para defender seu livre-arbítrio, os personagens do Discworld não lutam contra o destino, mas contra a própria estrutura literária. Eles precisam passar muito literalmente3 por três atos e um punhado de revelações e incidentes incitantes se quiserem chegar vivos à última página. E a vida em si é uma história, mas imperfeita, imprevisível e familiar. Ou, como coloca Pratchett, “A vida inteira é como assistir a um filme. Só que você sempre chega dez minutos depois que o filme começa e ninguém te conta o plot, então só resta ir tentando entender por si mesmo enquanto o filme roda”4. Ainda assim, as mazelas da vida real são infinitamente preferíveis aos pontos de virada de qualquer autor porque nós mesmos as escrevemos5.

Pode parecer confuso falar sobre esse tipo de coisa. Ficção sobre pessoas jogadas em histórias improváveis ainda é ficção, com personagens inventados e regras literárias definidas. Ainda assim, expor a estrutura literária como fato, sem poética, me faz pensar um monte sobre nossos próprios contos. O que você acredita molda quem você é.

Se o Universo é infinito, tudo aconteceu

Recentemente, a Panini Brasil lançou o primeiro volume da série O Inescrito (The Unwritten)6, que foi mais ou menos o que me fez escrever esse texto. O quadrinho narra as desventuras de Tom Taylor e sua contraparte ficcional, Tommy. E é aqui que eu começo os spoilers, estejam avisados.

Tom é filho de Wilson Taylor, autor da série de livros mais bem-sucedida da história e que desapareceu no auge do sucesso. O protagonista dos livros, uma mistura de Harry Potter e Christopher Robin, é obviamente baseado no próprio Tom, o que o torna alvo da atenção de fãs do mundo inteiro que querem conhecer o “verdadeiro Tommy Taylor”.

Na primeira edição de O Inescrito, Tom está vivendo às custas do sucesso de seu pai, participando de convenções e sessões de autógrafos. Porém, a situação muda quando uma garota desconhecida revela incongruências e lacunas nos registros da vida de Tom, levantando questões sobre adoção e fraude de identidade. O escândalo tem repercussão imediata, com fãs revoltados e estranhos cultos se formando ao redor da crença de que Tom é, na verdade, Tommy Taylor encarnado. A publicidade atrai atenções indesejadas e Tom é sequestrado por um esquizofrênico que acredita ser Conde Ambrosio, o grande vilão dos livros. Ele é resgatado por Lizzie Hexam, a mesma garota que vaza os segredos de sua origem para o público e que tem uma estranha conexão com o desaparecimento de seu pai. A partir daí, Tom passa a ser perseguido por uma sociedade secreta que controla o mundo há seculos manipulando histórias e, enquanto os limites entre realidade e ficção começam a enfraquecer, ele precisa descobrir a verdade sobre seu pai e seu nascimento.

O Inescrito se torna, ao longo de suas edições, um estudo sobre histórias e o impacto que elas têm sobre o mundo. A criação do Império Britânico, a colonização americana, o Nazismo… todos são eventos calcados em histórias, muitas vezes distantes da realidade. Em algum momento, como Tom aprende, a crença das pessoas nessa ficção supera a factualidade do mundo real. Não faz diferença o que houve, mas o que todos acreditam que aconteceu. Por isso, nos quadrinhos, alguns lugares são afetados pelas histórias que acontecem ali, como o campo de batalha de Carlos Magno que, apesar de nunca ter sido historicamente comprovado, existe na memória coletiva por ter sido registrado na “Canção de Rolando”, uma espécie de meme medieval.

À medida que Tom se aprofunda em suas descobertas, ele aprende que as histórias têm mundos próprios, versões de lugares reais onde os acontecimentos se repetem enquanto acreditamos neles, e que esses mundos têm conexões com seus correspondentes físicos e entre si. Aproveitando-se dessa “porosidade das histórias”, Wilson escreveu seus livros para dar a Tom o poder de seu personagem, pois, enquanto as pessoas acreditarem que Tom é Tommy, assim ele será.

A ideia de que a ficção tem uma vida própria baseada na fé humana não é exatamente nova. Afinal, cada vez que uma criança diz que não acredita em fadas, uma delas cai morta. Não são apenas as palmas que mantêm as fadas e os deuses existindo, mas a crença humana. Uma das mais belas cenas de O Inescrito é o painel no qual a consciência coletiva é caracterizada como uma enorme baleia – o Leviatã de Hobbes. Uma consciência coletiva que conecta todos nós num lugar de origem Jungiano habitado por parábolas, fábulas, romances, filmes e lendas.

É dentro da grande baleia que vivem as histórias, crescendo quando são semeadas nas mentes humanas e envelhecendo quando são esquecidas, até morrerem no olvido dos mitos. Quando uma história é manipulada contra seu propósito aos olhos do mundo, ela se torna um Cancro. Assim acontece com “Jud Suss”, um romance judeu sobre arrependimento e redenção por meio da religião, adaptado para o cinema pelos nazistas e transformado (torturado) num libelo anti-semita. A Cabala, sociedade secreta que persegue Tom, busca fazer a mesma coisa com a lenda de Tommy Taylor, sujando seu nome com acusações de fraude e assassinato e mesmo publicando um falso 14º volume da série repleto de clichês e plágios baratos. Afinal, nada é mais rápido que a informação no século XXI e, enquanto a história se espalha pelos grandes meios de comunicação, a fé dos leitores no legado de Taylor é abalada.

Influenciando autores, manipulando mídias e promovendo ou avançando o entretenimento de massa, a Cabala por anos controla o mundo por meio de suas histórias. Sejam quadrinhos durante a Depressão, seja religião, todas são narrativas espalhadas e assimiladas por populações. Não é fácil aceitar sem descrença uma entidade tão simples e exagerada, mas também não é difícil. Segundo os quadrinhos, o escritor Rudyard Kipling, por exemplo, foi amplamente apoiado enquanto escrevia histórias sobre a luta do Império Britânico para civilizar o Oriente. Em seus poemas, enaltecia a nação inglesa, glorificando os bravos soldados e nobres. Mais tarde, quando decide se rebelar contra o controle criativo de seus mecenas, Kipling usa como arma as palavras, escrevendo livros infantis sobre os pequenos derrotando os grandes, sobre respeito, tolerância e altruísmo.

Ele trava uma batalha nas mentes dos leitores, onde ficção e realidade também se misturam em nosso mundo, com O Inescrito mesclando ficção e fatos biográficos de Kipling em seu enredo. Hoje, seu maior legado são os livros para crianças, entre eles o “Livro das Selvas”, mas ainda perdura a controvérsia sobre as contradições temáticas em sua obra.

Batalhando, ideia contra ideia, a série atesta o valor da narrativa. “Apenas uma história?”, diz o Conde Ambrosio em determinado momento, “Diga isso aos gregos que lutaram em Tróia. Diga às mulheres queimadas como bruxas. Os Rosenbergs. Sacco e Vanzetti. Diga aos mártires de todas as religiões e aos milhões que pereceram em todas as guerras desde o início dos tempos!”

Não à toa, Carey e Gross, autores do quadrinho, escrevem em texto publicado na contracapa da primeira edição americana: “Todos querem ter a visão do todo e todos suspeitam que existe um todo ainda maior por trás do que ninguém percebe – uma história por trás da história, uma face por trás do véu”. No fundo, sabemos que é tudo verdade. Nós conhecemos aqueles personagens, choramos por seu sofrimento, nos alegramos com seu sucesso e perdemos o fôlego a cada fim de capítulo. Eles são como nós e isso é real o bastante. Ou, melhor ainda, eles são nós mesmos e não se pode ser mais real do que isso. Brincando com as regras da narrativa e a crença dos leitores, O Inescrito vai fundo na origem das histórias, mostrando que só estão vivas porque acreditamos nelas e só estamos vivos porque elas existem. E elas existem.

  1. Sim, com H maiúsculo, mas não confundir com a História que ensinam na escola, um monte de contos que tentam se disfarçar de fatos e acham que ninguém vai perceber o bigode falso meio soltando do lado esquerdo. []
  2. Witches Abroad (1991), publicado no Brasil como Quando as Bruxas Viajam. Tradução nossa. []
  3. Ou não tão literalmente assim, dependendo do Universo em que você está lendo isso. []
  4. Moving Pictures (1990), publicado no Brasil como A Magia de Holy Wood. Tradução nossa. []
  5. Não foi à toa que a primeira Matrix não funcionou. []
  6. The Unwritten, de Mike Carey e Peter Gross, publicado originalmente em 2009 pelo selo Vertigo da DC Comics. []
Edição: Vol. 2 Nº 15 (fev/2013)
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Publicado em 4/02/2013, às 12:24.


Sobre Márcio Moreira

Márcio Moreira está quase graduando em Comunicação Social e passa quase todo o seu tempo quase terminando o TCC. No tempo que sobra, assiste séries de tv, bebe café e escreve sobre cultura pop. Algum dia, pretende viver de roteiros pra tv e cinema e ajudar a manter o mundo um lugar estranho.

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