Algumas coincidências, dois Justins e uma dica

O sol se põe e, em meio a carros caprichados, Justin dança com seus amigos e confidencia no ouvido da garota que ela deveria ser sua namorada. Ou talvez que ele devesse ser o namorado dela – depende de qual Justin estamos falando.

Em 2002, Justin Timberlake se despedida do *NSYNC com o single mais “maduro” da boyband. Dividindo o vocal principal com JC Chasez, repetia no refrão:

Por que você não é minha namorada?
Eu a trataria bem.
Eu sei que você ouve seus amigos quando eles dizem que você deveria.
Porque se você fosse minha namorada
Eu seria sua estrela brilhante,
A que mostra onde você está.
(Garota, você deveria ser minha namorada.)

Em 2012, Justin Bieber começou a promover seu segundo álbum cantando:

Se eu fosse seu namorado,
Nunca a deixaria partir.
Manteria você nos meus braços.
Garota, você nunca ficaria sozinha.
Eu posso ser um cavalheiro,
Tudo o que você quiser.
Se eu fosse seu namorado,
Nunca a deixaria partir, nunca a deixaria partir.

Pode falar: #mashup

As comparações começam pelo “Girlfriend”/“Boyfriend”, seguem pela temática no mesmo mid-tempo, e se amontoam no videoclipe. Quando Justin – o Bieber – começa o hook sobre um violão acústico, um cérebro danificado por anos de exposição a boybands reconstrói o mesmo verso na voz de outro Justin – o Timberlake de “Gone” ou “Like I love you”.

Mas isso não quer dizer nada. Estamos todos cantando sobre o amor. Gostamos de jovens e carros desde quando Keanu Reeves fazia ponta em videoclipes – aliás, carros e jovens são um clichê que atravessa décadas.

Um dos problemas do caso “Girlfriend”/“Boyfriend” é que o mesmo álbum de Justin Bieber tinha um single chamado “As long as you love me”. Que não tem absolutamente nada a ver com “As long as you love me” que os Backstreet Boys cantaram em 1997. Nada a ver exceto juras de amor seja lá qual for a situação – não importa de onde ela é ou o que ela fez, não importa se vocês estão passando fome. Vale um medley, mas não muito mais do que isso.

É claro que o primeiro sucesso do One Direction, em 2011, se chamava “What makes you beautiful”, e os Backstreet Boys tinham uma música chamada “What makes you different (makes you beautiful)” lá em 2000. Ninguém saiu apontando o dedo para os meninos britânicos porque a música dos BSB era um lado-B pós-“Millennium”.

O outro problema do caso “Girlfriend”/“Boyfriend” foi que Justin Bieber comentou a história dizendo que nem conhecia o tal sucesso do *NSYNC. Há dez anos, Justin Bieber morava no Canadá – é praticamente outro planeta! (não) – e tinha 8 anos de idade. E, considerando que “As long as you love me” também aconteceu, Bieber pode muito bem estar falando a verdade.

Mas continua sendo um problema sério.

Não tem problema ignorar um lado-B. Não tem problema comparar uma garota a Destiny’s Child e ignorar a musa frankensteniana do O-Town. Não tem problema não conhecer “Tremendão Vacilão” – essas coisas acontecem. Já “As long as you love me” e “Girlfriend” foram grandes sucessos, e são importantes na história desse segmento musical.

É como se Britney Spears desconhecesse Madonna, como se Roger Federer nunca tivesse visto um jogo do Pete Sampras, como se Helen Fielding jamais tivesse lido Jane Austen. Neymar dizendo que nunca viu um gol do Pelé.

E isso vale para qualquer campo: biólogos, engenheiros, físicos, historiadores e tantos outros aprendem o que biólogos, engenheiros, físicos e historiadores fizeram e descobriram antes deles. Estudantes de jornalismo correm atrás de Capote, Mailer e Talese. Aspirantes a cineastas devoram as filmografias de Scorsese, Tarantino e Nolan.

Mas espera um pouco – estamos realmente comparando duas boybands a esses sobrenomes importantes? Claro que estamos! Justin Bieber, aos 18 anos, já soma mais de 15 milhões de discos vendidos. Os Backstreet Boys e o *NSYNC, aproveitando épocas mais saudáveis para a indústria fonográfica, vendiam ainda mais. Entre pôsteres, filas e histeria, são artistas que marcam a adolescência de milhares de fãs.

Justin Bieber ocupa hoje o lugar que Backstreet Boys e *NSYNC dominavam até dez anos atrás. Ele deveria conhecer seu campo. Se ainda não conhece, está na hora de aprender. Vamos chamar de “revisão fonográfica”.

Edição: Vol. 2 Nº 15 (fev/2013)
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Publicado em 3/02/2013, às 23:23.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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4 comentários sobre Algumas coincidências, dois Justins e uma dica

  1. Amanda

    Texto sensacional, como sempre. :)
    Acho que valia mais aprofundamento, ou pelo menos outros capítulos comparando o pop de 10 anos atrás com os equivalentes desse novo ciclo (com Simon e cia repetindo as mesmas fórmulas again and again and again).

    • Tenho uma dificuldade enorme de encontrar foco quando entro nesse assunto. Só de pensar no Simon Cowell com 1D eu acabo pensando no Louis Walsh (e no próprio Simon) com Westlife, ou no Lou Pearlman com BSB (e com *NSYNC), ou no Maurice Starr com NKOTB (e New Edition)… Pop é difícil!

  2. Carol Araújo

    Eu sempre prefiro o Pop atual. Sou mil vezes o Justin Bieber do que o Timberlake… Sou mil vezes o “As Long As You Love Me” de Justin Bieber do que dos Backstreet Boys… A única do Pop mais antiga que eu gosto e amo é a eterna diva e Princesa do Pop, Britney Spears… Bieber está mesmo ocupando o lugar dos homens e das boybands dos anos 90.