Vejo TV, logo existo

Em remotos tempos em que celulares ainda eram território da ficção científica, lembro de acompanhar um amigo enquanto ele procurava o moderno aparelho sem fio para fazer uma importante ligação. Não me lembro exatamente se tinha 11 ou 12 anos naquela época, mas lembro do conteúdo da ligação. Ele, tentando chamar a atenção de uma conhecida em comum, convidaria ela e alguns amigos para ir ao cinema. Eu, filho da melhor amiga da mãe dele e que perambulava pela casa enquanto as duas tomavam café na cozinha, ganharia um convite por extensão.

Após uns dois ou três minutos de amenidades, meu amigo lançou o convite. Cinema, final da tarde, todos se encontrariam em frente à mesma loja de discos e iriam juntos para o filme. Mas todos quem? Ao listar os conhecidos que nos acompanhariam, o amigo deixou meu nome por último, uma espécie de adendo a lista seleta. “O quê?”, respondeu ele, disfarçando a voz ao dizer, “Não, o Denis não é chato. Ele vai também. É que ele tá aqui hoje”.

Aparentemente, recém-chegado na adolescência, eu já era considerado um fardo pelos meus “amigos” e uma companhia menos do que ideal para o cinema com a turma. E foi esse evento que me fez pensar no que o cinema representava, não apenas na minha vida, mas enquanto instância social.

Como pessoa que nem sempre teve amigos à disposição para as mais variadas atividades, fui conduzido ainda durante a infância a encontrar um refúgio numa atividade quase tão prazerosa quanto assistir a um filme no cinema, mas que não exigia o componente da socialização de forma tão assertiva quanto ele. Com um controle remoto na mão1 e um sofá confortável em que eu pudesse me espalhar, a televisão de casa não exigia ligações arriscadas para conhecidos meus, ou o estabelecimento de relações sociais que pareciam muito acima da minha capacidade. A TV, essa versão miniaturizada de uma grande tela de cinema, não exigia uma relação com o mundo para ser apreciada, mas sim o estabelecimento de uma relação com ela mesma.

Me lembro de estabelecer um forte vínculo de intimidade com TV por volta dos meus 10 anos. Transmitida pela Globo tarde da noite, a série “The Flash” (1990) foi minha emancipação do olhar vigilante dos meus pais. Autorizado a assisti-la depois que eles já haviam saído da sala, ficava hipnotizado pelas aventuras do perito criminal mais rápido do planeta. Em Central City, Barry Allen enfrentava semanalmente os mais perigosos bandidos, até que a tela fosse totalmente tomada pelo vermelho de seu uniforme. Era nessa hora que minha mãe quebrava meu namoro com a liberdade, me mandando desligar tudo e ir dormir.

Sozinho, eu fui desenvolvendo um gosto (talvez “chato” para algumas pessoas) por tramas envolvendo vilões e super-heróis. Tramas que me forçavam a voltar todas as noites e que independiam, ou melhor, ganhavam força pela falta de companhia. Sozinho, naquela sala, eu estava descobrindo do que realmente gostava.

Para poder apreciar sua programação variada em plenitude, a televisão requisitava de mim (e de qualquer espectador) o compromisso de aprender seus horários e dedicar-se a cumpri-los. Sozinho na sala ou deitado na cama de seu quarto, o espectador de TV se compromete a seguir uma agenda pré-estabelecida de filmes, séries, programas de variedades e diversas atrações que podem ser vistas individualmente.

Por muito tempo considerada fator de alienação por críticos e intelectuais, a televisão funcionou como meu refúgio, evoluindo de tal forma que adquiriu um grau profundidade difícil de colocar em paralelo com o que quer que estivesse disponível no cinema mais perto de casa. O cinema, por sua vez, tornou-se meu instrumento de conformidade social. Era preciso “gostar” do que os amigos – democraticamente – decidiam assistir.

Crescendo numa cidade com poucos cinemas disponíveis e, consequentemente, poucas opções de filmes, o cinema se cristalizou definitivamente como uma lição no estabelecimento “forçado” de um consenso das partes.

Cinema (O Mundo) vs TV (O Indivíduo)

Vários anos se passaram desde que telefones sem fio eram considerados a mais nova maravilha moderna, e o mercado de cinema, no Brasil, cresce em arrecadação apesar das facilidades tecnológicas que hoje nos permitem assistir no conforto do nosso lar os filmes que ainda estão na tela grande. Em 2012, gastamos mais para ir ao cinema do que “nunca antes na história desse país”. A arrecadação das salas de exibição atingiu o recorde histórico de R$ 1,6 bilhão, com alta de 12,13% em relação a 20112. Estima-se que 146 milhões de espectadores foram aos cinemas para assistir a filmes em 2012. Muitos deles acompanhados por amigos, mesmo que um ou outro fosse considerado “chato” pela maioria da turma.

Ao mesmo tempo, mais brasileiros, com maior poder de consumo e aliados a uma enxurrada de inovações tecnológicas, passaram a adotar a televisão como mídia preferencial. Conforme dados divulgados em 2012, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)3, o número de domicílios particulares que têm pelo menos um aparelho de televisão em casa supera o dos que têm geladeira. Em 2011, 96,9% dos domicílios brasileiros possuíam aparelhos de TV, frente aos 95,8% que possuíam geladeira.

Ou seja, enquanto o cinema continua a lucrar, a TV vai se tornando unanimidade nacional. Ambos, separadamente, caminhando. Mas como um ou outro impactam os sujeitos?

Com pouco menos de 2 horas4, um filme visto no cinema tenta estabelecer uma relação imediata com o público. Já um programa de TV, em especial uma série televisiva ou novela, sabe que o tempo curto não será suficiente para contar uma história completa que fidelize o espectador. É preciso fazê-lo voltar mais vezes, nesta ou na próxima semana, adicionando novos elementos a personagens e a trama de tal forma que quem o acompanha não dependa exclusivamente dos amigos ao redor, mas sim forme um vínculo diferenciado de amizade com a ficção narrada em capítulos.

Retomando os exemplos pessoais, é com isso em mente que mal me lembro os nomes das pessoas que me acompanharam para a aguardada estréia de “Independence Day” em 1996, mas sei exatamente onde estava quando assisti “Piper Maru”, um dos melhores episódios da terceira temporada de “Arquivo X”, naquele mesmo ano. A relação estabelecida com Mulder, Scully e o agente Alex Krycek, que sondavam os mistérios de um navio desaparecido, permanece tão viva na minha memória que superou os nomes das pessoas “reais” com quem fui ao cinema na época. E por quê? Talvez porque o compromisso com a TV, diferente das relações que estabelecemos com pessoas e com filmes que vimos no cinema, possua uma natureza bem menos fugaz.

Por isso, neste contexto, torna-se mais clara a formação do meu próprio gosto pessoal no que se refere a estas duas formas de se apreender cultura. Com amigos, eu poderia fazer um saudável uso do espaço público ao assistir comédias exageradas ou dramas premiados que dominavam as poucas salas disponíveis. Entretanto, era em casa que eu me apegava a enredos de ficção científica ou com elementos sobrenaturais marcantes que se seriam cruciais na formação da parte, discutivelmente, central da minha personalidade.

Em suma, os filmes que assistia no cinema foram resultado de um mundo de influências externas, enquanto a programação de TV que eu adotei se fundamentou internamente, via envolvimento emocional puramente subjetivo.

Apesar do mundo dos números, bilheterias e audiência não fazer reais distinções sobre como a formação e consumo cultural se processam no inconsciente do público, admito que é ao pensar na minha história pessoal do conflito entre “ir ao cinema” vs “ver TV em casa” que formou parcialmente meu caráter. É este conflito que me permite, nos dias de hoje, ter plena consciência de que não sou chato por não querer ir a um determinado filme na companhia de certas pessoas. E se sou, prefiro mesmo ficar em casa assistindo o que eu, sozinho, escolhi ver.

Sob essa perspectiva, foi a TV, portanto, que me fez um indivíduo, enquanto o cinema me fez um cidadão ressabiado. Se essa conclusão é boa ou ruim, já é outro papo…

  1. No caso, até os 11 anos, era mesmo um seletor de canais grudado no aparelho que me forçava a levantar toda vez que queria mudar o canal ou abaixar o volume []
  2. Dados da Ancine – http://oca.ancine.gov.br/media/SAM/Informes/2012/Informe-anual-2012-preliminar.pdf []
  3. Dados do IBGE – http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2011/ []
  4. Isso caso ele não tenha sido dirigido pelo Peter Jackson. []
Edição: Vol. 2 Nº 14 (jan/2013)
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Publicado em 21/01/2013, às 10:14.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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