E como foi o seu dia, TV?

A última vez em que eu realmente fiquei seca para ir ao cinema foi 30 de setembro de 2005. Foi quando “Serenity” estreou nos EUA, e quando eu comecei a enviar e-mails convidando todas as pessoas que eu conhecia para irem ao cinema comigo. O filme deveria ser lançado em 14 de outubro. Foi adiado para 11 de novembro. E finalmente foi tirado da programação da distribuidora, virando mais um direto-para-o-DVD.

Tudo bem, ninguém tinha levado meu convite a sério1 mesmo.

Em dezembro, o filme saiu em DVD (primeiro nos EUA, claro). Assisti imediatamente no meu computador, duas vezes seguidas, e nas duas vezes chorei com soluços até meus olhos ameaçarem abandonar o meu rosto. Não convidei ninguém.

Mas se eu não precisava de companhia para ver o filme, por que havia me esforçado para tentar convencer outras pessoas?

A resposta é simples: porque cinema é uma atividade social2. Claro que existem cinéfilos hardcore por aí, mas grande parte das pessoas que estão sozinhas na fila do cinema estão apenas esperando alguém chegar. Mesmo que você vá sozinha, é esperado que você ao menos tenha convidado um cúmplice.

Uma das coisas que fazem do cinema uma atividade predominantemente social é o “horror à solidão pública”. Esta síndrome, inventada neste texto, também se manifesta com perguntas como: “Mas você vai ao show sozinha?”, “Mas você vai almoçar sozinha?” e “Mas você vai viajar sozinha?”3. Quando a solidão pública é inevitável, é hora de usar a velha estratégia do livro (ou a não tão velha estratégia do smartphone) para se fingir de ocupada, mas nunca ouvi falar de alguém que estava “lendo o original” no escurinho do cinema.

Outro fator é a percepção de que cinema é atividade de casal. Ainda que o New York Times esteja aterrorizado com a ideia de que você nunca mais terá um primeiro encontro de verdade, são décadas e décadas em que jantar e cinema foram clichês de encontro romântico. Mesmo que seu primeiro encontro tenha sido uma esbarrada casual, o cinema sempre será a opção quando vocês já tiverem esgotado tudo o que poderiam falar sobre vocês mesmos.

Também ajuda o fato de que marcar de ver um filme não exige muita criatividade, não leva ninguém à falência e não possui códigos especiais de vestimenta. Imagine se a cada vez que você quisesse ver seus amigos tivesse que procurar experiências novas. Piquenique? Paintball? Boliche? Minigolf? Já sei, vamos organizar um baile de máscaras com temática steampunk!

Mas eu iria ao cinema sozinha. Já fui, várias vezes. Até parar de ir, simplesmente.

Por um tempo, achei que isso tivesse acontecido porque o cinema tem enorme potencial de ser uma experiência insatisfatória. Você acaba pagando um ingresso inflacionado para usar um óculos 3D de higienização duvidosa, sentado em uma poltrona um pouco grudenta, comendo pipoca mais-ou-menos, ao lado de alguém que acaba de libertar sua meia de ontem das restrições do tênis (ou de alguém que está lendo as legendas para o filho pequeno) no horário mais conveniente… para o cinema. Se você não ia encontrar ninguém, por que não ficou em casa com o jeans desabotoado e a sobra da pizza de ontem?4

Só que eu pago mais caro para assistir shows e partidas de tênis em condições frequentemente mais precárias, mesmo sabendo que poderia ver qualquer um dos dois no conforto do meu sofá.

Talvez o problema fosse a duração do filme. São pelo menos 90 minutos ininterruptos, geralmente um pouco mais (e às vezes muito mais), o que é tempo suficiente para a minha atenção se desviar para qualquer coisa. Umas noventa vezes.

Eu poderia aceitar essa desculpa – se não fosse capaz de fazer maratonas de minisséries ou acompanhar cinco sets de trocas de bolas de um lado para o outro da quadra.

A explicação mais provável é que eu já preencho todas as doses necessárias de ficção audiovisual com a adoção nem sempre sábia de séries de TV. De forma simplista, o cinema virou uma coisa que você vai com pessoas com as quais mantenha algum tipo de relacionamento, enquanto a televisão virou meu relacionamento mais estável.

Não me olhe assim.

Você não tem nenhum direito de me olhar assim se passou dez anos assistindo Chandler, Joey, Monica, Phoebe, Rachel e Ross. Não existe história em “Friends” – existe um rascunho de história dividido em fragmentos levemente inter-relacionados. Você passou dez anos querendo saber se eles estavam bem, se finalmente chutaram aquele namorado chato. Durante meia hora, eles contavam para você o que tinha acontecido naquela última semana, e durante meia hora você estava acompanhado.

Você não tem o direito de me olhar assim se estava se despedindo com lágrimas de “Fringe” nesta última semana. Cada vez que olhava com orgulho para a atuação sutil de Anna Torv, cada vez que reagia a uma cena de John Noble e pensava “Este é o Walter Bishop que conhecemos e amamos”, você estava investindo em um relacionamento longo com uma série de TV.

(A propósito: você também não pode me olhar assim se comemora com seu time do coração dizendo que “Ganhamos!” e se refere a tenistas e pilotos de Fórmula-1 pelo primeiro nome. Sinto muito, eu não invento as regras. Exceto quando estou inventando as regras. Como agora.)

Séries de TV são amigos pouco exigentes. Você só precisa dar 22 ou 45 minutos semanais de atenção. E eles não podem ir ao cinema com você, mas contarão histórias e criarão paralelos e reflexões que farão parte da sua personalidade. E é muito difícil conseguir esse relacionamento com um mero filme de 90 minutos – ou você não sabe que meus soluços com “Serenity” em 2005 haviam começado três anos antes, com a série de TV “Firefly”?

Vários anos atrás, construí relações similares com Marty McFly, os Goonies e os membros do Clube dos Cinco por meio de muita repetição, mas isso parece cada vez mais difícil. Sempre tem um filme novo, um estímulo novo, uma distração nova.

O cinema tenta disputar esse espaço com personagens consagrados e franquias adaptadas de livros – e não sem dificuldades. Décadas atrás, Marty McFly demorou mais de quatro anos para retornar no segundo filme. Luke Skywalker só voltava a visitar depois de 3 anos. Os Goonies nunca tiveram continuação. Agora, Harry Potter e Bella Swan retornam ano após ano. E você sabe como é difícil fazer amigos novos quando vocês não se encontram todos os dias na escola?

Claro que eu não saio por aí falando do meu amigo Fox Mulder. Mas sempre pude contar com Jaye Tyler ou Buffy Summers ou Amelia Pond me lembrando que às vezes você pode fugir da sua vida – e que às vezes você não pode fugir dela.

  1. Uma das respostas registradas no meu e-mail foi “Já prometi que vou levar minha mãe e minha avó ver ‘Dois filhos de Francisco’!”. []
  2. O que é um tanto contraditório, considerando que você vai encontrar outras pessoas para passar pelo menos 90 minutos dando atenção à tela e conversando o mínimo possível. A não ser que você seja uma daquelas pessoas. []
  3. Agradeço a todas as pessoas que estavam expressando preocupação genuína com minha integridade física, mas onde vocês estavam quando eu cortei a perna enquanto me depilava sozinha? []
  4. Foi o que me disseram. Claro que eu nunca fiz isso. []
Edição: Vol. 2 Nº 14 (jan/2013)
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Publicado em 21/01/2013, às 10:46.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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