Deixe-me tocar uma valsa

Spoilers: O artigo a seguir contém spoilers sobre a trama e os desfechos dos filmes "Antes do Amanhecer" (1995) e "Antes do pôr-do-sol" (2004)

Se não me engano, eu me sentei próximo à janela. O banco não-reclinável era o oposto do que qualquer um em sã consciência podia chamar de confortável e minha tentativa de ler, enquanto o vento escassamente se esforçava para abrandar o calor daqueles 37 graus, se provou frustrada. Na minha frente, dois estranhos falando alemão jogavam baralho sem cartas, usando seus smartphones para uma série de partidas rápidas. Na mesa entre nós, uma garrafa de chá gelado transpirava ao refletir o sol que preenchia o vagão. Seria uma longa viagem.

Olhando para os lados ocasionalmente, sondei o ambiente em busca de elementos familiares. Era minha primeira vez viajando de trem, eu mal compreendia o idioma local, o percurso se revelava interminável e tudo era maçante. Eis que, quando menos pude prever, aconteceu! A alguns metros de distância, um casal italiano que havia embarcado no meio do trajeto e parecia em perfeita harmonia até então desembestou em uma discussão. Com a bolsa em cima da mesa, a mulher de cabelos aloirados e pele queimada do sol sacolejava a bagagem em busca de algo que não estava mais lá, enquanto seu marido (talvez namorado) tentava acalmá-la sobre o que quer que estivesse acontecendo. Procurando entender a língua que não me era totalmente estranha, ficou claro para mim e para todos no vagão que um dos dois havia perdido algo e o que começou com uma tentativa de apaziguamento terminou com rompantes de guerra, forçando o casal e navegar por outros vagões enquanto procuravam os objetos, possivelmente documentos, perdidos.

Segurando um lampejo de sorriso, me contive até que um dos alemães na minha frente arriscou comentar a situação em inglês enquanto me ofereceu, pela segunda vez, um gole do chá que aquela altura já nem se lembrava de seu invejável período num refrigerador. Descendo quente pela minha garganta, o tal do chá me forçou a comentar o drama do casal com os germânicos: “Agora só faltar aparecer a Julie Delpy, não?”.

Com a referência no ar, mas discretamente ignorada, voltei ao meu livro conforme a dupla retomou o carteado virtual. Nas 5 horas de trem restantes, sem chance de um ar condicionado ou de uma boa conversa, refleti pela primeira vez sobre a realidade embutida no clássico “Antes do Amanhecer” (1995), dirigido por Richard Linklater. No filme, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) se conhecem em circunstâncias parecidas, talvez numa temperatura mais confortável, e passam uma única noite na companhia um do outro, conversando sobre suas aspirações, decepções e sobre a verdade por trás dos relacionamentos humanos.

Ideal romântico vs vida real

A princípio, o romance parece ser o ponto principal que leva tantos a colocá-lo na lista de filmes favoritos. Entre discussões em mesas de bar, poetas à beira de rios e taças de vinho deixadas num gramado a céu aberto, o que uma boa parcela dos espectadores desejava era saber se Jesse e Celine ficariam, como é esperado desse gênero cinematográfico, juntos para o resto de suas vidas. O filme, que encapsula perfeitamente o processo do “apaixonar-se”, parece discorrer sobre quase tudo a respeito de suas idiossincrasias, com exceção da química natural envolvida em aproximações como a representada na tela.

De acordo com Helen Fisher, antropóloga e pesquisadora de temas como amor e relacionamentos da Universidade Rutgers1, a sensação de vertigem inicial que surge quando estamos nos apaixonando inclui aceleramento do coração, rubor na pele e palmas das mãos suadas, e é resultado da junção dos neurotransmissores dopamina, norepinefrina e feniletilamina. A dopamina é considerada a “substância do prazer”, produzindo uma sensação de êxtase. A norepinefrina, por sua vez, é semelhante à adrenalina e causa a aceleração do coração e emoção intensa. Para a pesquisadora, estes dois elementos juntos causam exaltação, energia intensa, falta de sono, perda de apetite e um maior foco em seu entorno.

Do minuto em que se viram no trem rumo a Viena, Jesse e Celine se deixaram levar pela programação biológica que os mantinha acordados e interessados um no outro, enquanto debatiam sobre os relacionamentos de seus pais, sua infância, seus conceitos sobre Deus e sobre mágica a ponto de absolverem as paradoxais diferenças de personalidade que os separavam. Ele, mais cínico e descrente, deixa transparecer sua impaciência com a noção de que existem finais felizes, mas se contradiz criando momentos românticos como desculpa de aproximação. Enquanto ela, capaz de enxergar todas as incongruências no mundo ao seu redor, não compreende porque suas paixões são constantemente transformadas em modos práticos de se ganhar dinheiro para preencher uma expectativa de sucesso.

Forçados a se separar antes que seus cérebros tivessem a chance de normalizar os componentes que os levaram àquele estado de agitação, o casal promete um encontro para dali a seis meses, deixando os espectadores sem saber se o romance seria ou não concretizado.

Ela disse, ele disse

Nove anos depois de sua noite juntos, os roteiristas Richard Linklater e Kim Krizan resolveram reunir o casal em Paris, cidade de Celine, para uma segunda parte da conversa interrompida abruptamente em Viena. Em “Antes do Pôr-do-Sol” (2004), Jesse é o autor de um romance que idealiza os eventos vividos com Celine, a turista francesa que ele nunca mais reencontrou, enquanto ela é uma ativista política que viaja o mundo na tentativa romântica de consertá-lo.

Desprovidos do silencioso coquetel químico que marcou a noite em que se conheceram, o casal passeia exclusivamente sob a luz do sol pelas ruas de Paris discutindo não mais suas infâncias ou desejos para o futuro, mas sim seu presente e como, de uma forma ou de outra, ambos haviam se adaptado as conformidades de suas rotinas. Impossibilitados de se reencontrarem graças a circunstâncias fora de seu controle2, a dupla explicita nesse novo encontro que o verdadeiro tema por trás do nascer e pôr-do-sol não é apenas a paixão romântica, mas sim as complexidades da vida em sociedade.

Ele, casado e com um filho de quatro anos, não considera o sucesso alcançado como fonte de felicidade, como talvez considerasse em sua primeira conversa com Celine, nove anos atrás. Ela, por sua vez, apesar de ter passado por uma série de relacionamentos dos quais guardou marcas positivas e negativas, enxerga apenas em seu trabalho humanitário uma possível fonte de contentamento, já que amarga a frustração de ter que escutar de seus antigos romances sobre como lhes ensinou a amar, sem que a recíproca fosse verdadeira.

De acordo com um estudo3 publicado no Journal of Epidemiology and Community Health e conduzido pela pesquisadora sobre saúde Michaela Benzeval, as mulheres são mais felizes com o primeiro amor e os homens com o que se costumou a chamar de “monogamia serial”. Enquanto o casamento com seu primeiro amor é a opção mais saudável para o bem-estar mental da mulher, o macho da espécie se adapta melhor quando tem uma série de relacionamentos sérios que terminam antes do casamento. O estudo da Universidade de Londres, que entrevistou mais de 4000 britânicos entre 2002 e 2003, concluiu que mulheres que tiveram múltiplas separações foram diagnosticadas em pior estado emocional. Mesmo as mulheres solteiras que nunca haviam se casado ou vivido com um parceiro eram mais felizes do que aqueles que passaram por términos abruptos e encontraram novos parceiros em seguida.

Durante seu pequeno colapso a caminho de casa, Celine se permite revelar que sua infelicidade presente advém dos tais múltiplos términos, enquanto Jesse se resigna ao silêncio após ter revelado que não consegue mais impingir romance em seu casamento falido. Caminhando juntos para um derradeiro chá, ambos se deixam levar por uma declaração musical composta e interpretada por Celine – algo equivalente ao livro escrito por Jesse –, na qual ela revelava sua versão dos fatos sobre o encontro em Viena:

Não existe fim da linha

Cientes de que ele perderia seu voo, o escritor e a ativista desta vez se despedem do público ao invés de um do outro, permitindo novamente que a imaginação de cada espectador preenchesse o destino do casal.

E por que deixar para o público, mais uma vez, o benefício dessa dúvida? Porque o romance entre os personagens, por mais belo que esteja representado na tela, não é e nem nunca foi o legítimo protagonista. Esse papel cabe à realidade explicitada em seus diálogos e nas cenas que nem eu e nem você pudemos ver. Por isso, a profundidade dessa história de amor moderna jaz no fato de nos fazer refletir, ainda que sozinhos em nossos próprios trens, que a verdade sobre o mundo está nas brigas reais de casais ao nosso redor, e nas memórias de relacionamentos passados que podemos ou não ter superado. Fatos esses que não esmaecem a crença individual de que noites insones ou tardes ensolaradas, ao lado de pessoas que podemos vir a amar ou acreditamos um dia já ter amado, ainda estão por vir.

  1. The Nature of Romantic Love – http://www.helenfisher.com/downloads/articles/04natofrl.pdf []
  2. A morte da avó de Celine, seis meses após sua viagem a Budapeste em 1995. []
  3. Women are happiest with first love and men with ‘serial monogamy’, The Independent – http://www.independent.co.uk/news/uk/this-britain/women-are-happiest-with-first-love-and-men-with-serial-monogamy-study-finds-577451.html []
Edição: Vol. 2 Nº 8 (jun/2012)
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Publicado em 18/06/2012, às 9:51.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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