Memórias midiatizadas: a identidade cultural sem lugar

Existe uma multiplicidade de versões para cada história que conhecemos na infância. São muitas as Rapunzéis e as Belas, e os destinos de heroínas como a Pequena Sereia variam do final feliz esperado a desfechos mais cruéis1. Mas é difícil imaginar outra Cinderella senão aquela donzela loira com seu vestido azul e ratinhos engenhosos – elementos retirados do filme de animação lançado pela Disney em 1950.

Os contos de fadas são um exemplo privilegiado ao se falar de identidade cultural. Os conhecidos contos dos irmãos Grimm foram coletados entre as histórias transmitidas oralmente pela população da região que hoje conhecemos como a Alemanha – mas que, no início do século 19, se organizava em territórios que, embora compartilhassem a língua, apresentavam fragmentação política. Esse livro de contos infantis, cuja publicação foi iniciada em 1812, era um esforço que visava à formação de uma identidade alemã, em meio a um processo de unificação que se estenderia pelo resto do século.

Identidades culturais se relacionam com o sentimento de pertencimento a um grupo que compartilha uma memória coletiva, um conjunto comum de conhecimentos. Nas intenções dos irmãos Grimm, a repetição de contos parecidos por todos aqueles estados autônomos representaria uma unidade manifestada no saber comum do povo alemão – como uma base cultural unindo os fragmentos políticos.

Dois séculos mais tarde, esses contos de fadas (em versões mais açucaradas) agora integram a lógica dos meios de comunicação de massa. Intermediada pelos estúdios Disney, uma mesma Cinderella viajou por todos os continentes, levando seu delicado sapatinho de cristal e sua suntuosa carruagem-abóbora. Dessa forma, ela passa a integrar uma memória compartilhada por indivíduos distribuídos ao redor do globo.

Essa Cinderella apenas exemplifica um novo modelo de organização cultural que se consolidou com o processo de mundialização apoiado no desenvolvimento de tecnologias de informação e comunicação. Ela poderia ser chamada de Beatles, de Harry Potter, de Luke Skywalker ou de Lara Croft – todos construções humanas que se inserem em nosso saber, sem encontrar fronteiras.

Segundo Appadurai2, “no passado, trocas culturais entre grupos sociais eram geralmente restringidas, às vezes por fatores geográficos e ecológicos, e outras pela resistência ativa a interações com o Outro”. Por esse motivo, a ideia de cultura esteve por muitos anos “enraizada no espaço, em padrões estáveis de interação entre pessoas fazendo as mesmas coisas nos mesmos lugares”3 Nas últimas décadas, entretanto, as trocas foram facilitadas principalmente em questões técnicas. Os produtos dos meios de comunicação hoje podem ser compartilhados de forma simultânea, sem limitações geográficas4.

Filmes blockbusters ganham lançamentos mundiais, levando fãs a salas de cinemas dos Estados Unidos, Brasil e Japão no mesmo dia. Um seriado produzido pela TV britânica é distribuído ilegalmente pela internet minutos após sua primeira exibição, permitindo que fãs da Austrália, da Índia e da Alemanha reajam juntos à mesma história. Um livro que acaba de chegar às livrarias norte-americanas ganha versões ilegais em chinês e espanhol meses antes da tradução oficial.

Esses exemplos não podem ser resumidos apenas à questão da distribuição de produtos midiáticos, mas a fenômenos de comportamento globais. O que se espalhou entre australianos, indianos e alemães não foi apenas o interesse em “Doctor Who”, mas o próprio hábito do torrent. E como explicar que fãs sem rostos e sem nomes realizem uma tradução trabalhosa como a de “Harry Potter” com a consciência da ilegalidade da prática e a ausência de uma recompensa monetária?

A disseminação de produtos culturais na contemporaneidade vai além do debate sobre homogeneização da cultura com a imposição do modelo hegemônico e as releituras e interpretações mediadas pela cultura local. O compartilhamento acelerado e intenso desses produtos resulta em compartilhamentos culturais em nível global.

Um efeito decorrente é a formação de novas comunidades que independem de processos migratórios ou proximidade geográfica. Os laços entre seus indivíduos repousam na memória coletiva, forjada tecnologicamente com os mesmos programas de TV, os mesmos filmes, as mesmas músicas, as mesmas piadas.

A polarização entre cultura erudita (acadêmica, intelectual e elitizada) e cultura popular (de tradições e saberes transmitidos através das gerações) agora divide espaço com uma cultura pop5, cuja existência se deve aos meios de comunicação.

Essa definição de cultura pop se ampara em dois aspectos da (pós-)modernidade. O primeiro diz respeito à admissão de que as identidades hoje são múltiplas. O segundo se refere aos efeitos dos meios de comunicação na imaginação e no papel que ela exerce na organização cultural.

Assim, um indivíduo que se insere em uma cultura devido a fatores como etnia, religião ou nacionalidade também pode buscar uma identidade na memória que ele não compartilha com os demais integrantes desse grupo cultural. Como afirma Ferin6, “[a identidade de projeto] encontra-se intrinsecamente ligada ao sujeito, mesmo quando ele se integra numa coletividade, e fundamenta-se na capacidade desenvolvida pelos sujeitos de refletirem sobre si próprios e de imaginarem de forma ativa a sua biografia”.

A criação da identidade a partir da imaginação não é uma prática social nova, mas ganhou novas características com os meios de comunicação de massa. Conforme defende Appadurai, a mídia permite que “mais pessoas em mais partes do mundo contemplem um jogo de vidas possíveis mais amplo do que nunca”.

Mas, embora a troca de produtos culturais midiáticos seja desigual – os programas televisivos compartilhados são, em sua maioria, produzidos pela indústria norte-americana, por exemplo –, a identidade que se forma não é a do modelo produtor, mas a dos meios de massa.

Quando Appadurai confessa sua relação com a cultura norte-americana sobrepondo seu interesse anterior com a cultura britânica, ele não se entende por norte-americano, e tampouco se entendia por britânico. Não há a ilusão de pertencimento à cultura de origem dos produtos que ele consumia, mas há o sentimento de deslocamento dentro de sua comunidade hindu. Da mesma forma, os indivíduos espalhados ao redor do mundo que copiam pela internet o episódio mais recente de “American Idol” não sofrem da ilusão coletiva de pertencimento à audiência norte-americana (denunciada até pela impossibilidade de participar da votação), mas identificam um conjunto de canções e expressões como “ponyhawk” e “what’s up, dawg?” que codificam novas referências em sua comunicação – um código reconhecido pelos membros dessa comunidade cultural pop.

Assim, a intensificação das trocas culturais, promovida pelo desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, é marcada por novos hábitos midiáticos e pela formação de um novo modelo de memória coletiva. Como consequência, pode ocorrer a redução do sentimento de identificação com membros de sua comunidade nacional ou étnica. Mas, simultaneamente, cresce a identificação com indivíduos que compartilham desses mesmos produtos através dos mesmos artifícios tecnológicos.

  1. Uma perspectiva interessante é apresentada por Marina Werner no livro “Da fera à loira” (São Paulo: Companhia das Letras, 1999.). []
  2. Appadurai, Arjun. Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2005. []
  3. Morley, David. Belongings: Place, space and identity in a mediated world. In: European Journal of Cultural Studies; nº 4; 2001. []
  4. É importante ressaltar que o compartilhamento de produtos midiáticos, ainda que não seja mais limitado geograficamente, continua limitado por fatores sócio-econômicos (e também por diferenças de idiomas). Até um quarto da população mundial não possui acesso à energia elétrica – sendo, portanto, excluída dessas trocas. No entanto, as trocas culturais intermediadas pelas novas tecnologias de informação geram alterações nas comunidades contemporâneas, ainda que as alterações não sejam democráticas. []
  5. A definição de “cultura pop” se diferencia da “cultura popular”: a última está relacionada ao folklore, a tradições e saberes construídos ao longo da história; a primeira se refere à lógica midiática de produção e distribuição de conteúdos, de caráter mais instantâneo e menos local. []
  6. Cunha, Isabel Ferin. Identidade e reconhecimento nos media. In: Matrizes. Revista do Programa de Pós-Graduação em ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo, nº 1, 2007. []
Edição: Vol. 2 Nº 7 (mai/2012)
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Publicado em 21/05/2012, às 14:05.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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