Eles não acreditam em bruxas, mas elas não se importam

Spoilers: Esse texto contém spoilers sobre as origens de diversos bruxas da ficção (Buffy, Charmed, Jovens Bruxas, The Secret Circle entre outros).

Não são muitos aqueles que acreditam nos poderes transformadores de uma aranha radioativa, tampouco em deuses alienígenas que enviam seus primogênitos para salvar nosso planeta em eterno perigo; entretanto, por alguns séculos, o mundo ocidental se manteve amarrado à crença de que poderes mágicos não estavam indistintos da realidade. Levadas à fogueira por crimes impossíveis de serem comprovados, mulheres acusadas de bruxaria dominaram pesadelos puritanos tanto na Europa quanto na América do Norte, alimentando o mito inquisitório de que forças ocultas espreitavam nas sombras.

Se na realidade as vítimas torturadas não puderam escapar de seu julgamento precipitado, na ficção as mulheres que passamos a conhecer como poderosas bruxas ocuparam lugar central em tramas de vilania, mas também inverteram o senso comum ao assumirem papéis heróicos, protegendo não apenas seus familiares, mas também o universo como o conhecemos.

Vilãs ou heroínas, as bruxas da fantasia são geralmente peça instrumental de suas histórias. Seus poderes, capazes de alterar a realidade física com um estalar de dedos (ou um tremeluzir de narizes), desafiam a compreensão dos mortais ao seu redor, e muitas vezes estabelecem pontos similares de origem, independente do universo em que tenham sido concebidos.

Analisando livremente 26 universos distintos em que bruxas possuem papel central, vamos aqui tentar compreender as origens de sua magia, sua natureza e fonte de energia, assim como suas fraquezas e limitações1:

Natureza vs Criação

Herdeiras de uma linhagem de bruxas que se originou em Salém, as irmãs Halliwell nasceram com poderes próprios em “Charmed” (1998). Foi somente após o funeral de sua avó, com a descoberta de seus livros das Sombras, que o trio Prue, Piper e Phoebe desvendou os segredos de sua origem mágica e ativou habilidades específicas (variações de telecinese e capacidades premonitórias) que lhes permitiram enfrentar os mais diversos perigos.

Em outro universo, mas não muito distante da São Francisco de “Charmed”, outra bruxa aprendia segredos sobrenaturais na cidade ficcional de Sunnydale. Em “Buffy, A Caça-Vampiros” (1997), Willow Rosenberg não encontrou em seus familiares nada além de uma origem judaica comum. Entretanto, com o auxílio de códices e manuscritos criados por bruxas há diversas gerações, a jovem amiga da caça-vampiros cultivou e fez crescer uma gama de poderes capazes de colocar em risco não apenas sua própria vida, como a segurança do planeta.

Surgida nas páginas de um livro que não levava seu nome, Hermione Granger não havia nascido de uma família mágica, e nem possuía, aos 11 anos, a educação necessária para se tornar uma bruxa. Mas, graças à predestinação mágica que funciona aleatoriamente no universo de “Harry Potter” (1997), a filha de dentistas ingleses recebeu em sua casa o convite para frequentar uma das mais prestigiosas escolas de magia do hemisfério norte. Indo além do que ensinada nas diversas matérias ensinadas em Hogwarts, Hermione transformou a escolha aleatória do destino em um futuro certo como uma das mais notórias bruxas de sua geração.

Embora não esteja precisamente clara a natureza dos poderes das Sailor Scouts no universo de “Sailor Moon” (1992) é sabido que todas as vilãs, feiticeiras terráqueas, alienígenas ou antigas protetoras do cosmos ganharam seus incríveis poderes não via educação ou nascimento, mas possessão. Se tanto Beryl quanto Neherenia ganharam força ao deixarem o ciúme e a inveja tomarem conta de seus corações, entidades como Pharaoh 90 ou o Caos possuíram respectivamente Mistress 9 (Hotaru) e Sailor Galáxia para transformá-las em implacáveis e poderosas vilãs, sendo as próprias Sailors dotadas de habilidades místicas conferidas por cristais encerrados em jóias que carregam consigo. É a partir de uma transformação conjunta com essas forças externas que seus poderes são ativados.

Dominante entre os exemplos ficcionais listados na tabela, a linhagem prevalece como uma das formas mais comuns de se estabelecer a origem e fonte de poder das bruxas imaginárias. A família aparece como ponto central na formação da identidade das bruxas, seja de forma bem humorada de “A Feiticeira” (1964) ou na adaptação televisiva dos quadrinhos do Archie em “Sabrina: A Aprendiz de Feiticeira” (1996), seja na noção tribal da trilogia “Fronteiras do Universo” (1995), manifestada ao redor da rainha das bruxas, Serafina Pekkala.

Na recém cancelada série “The Secret Circle” (2011), Cassie Blake convive com as ideias conflitantes de que seus poderes possuem duas diferentes vertentes. Uma ligada ao seu pai, um poderoso bruxo praticante de magia negra, e a outra ligada ao seu círculo, ativada por meio de uma noção de amizade que mantém suas habilidades sob controle. Apesar da linhagem ser o ponto de partida do universo de Chance Harbour, a manifestação mais marcante de sua bruxaria parece vir de um pacto, e não da genética.

Bruxas, berço e família

Logo atrás da origem hereditária a instrução é uma das mais frequentes fontes de poder das bruxas ficcionais. Entretanto, a educação raramente é representada como forma pura ou mais poderosa de bruxaria.

No filme “Jovens Bruxas” (1996), dirigido por Andrew Fleming, um grupo de adolescentes passa a praticar as artes mágicas com base em livros de feitiços e maldições comprados livremente numa loja de artigos esotéricos. De pequenas maldições até invocações de deuses malignos, as bruxas californianas adquirem seus talentos a partir de uma série de tentativas e erros, até que seus poderes fogem ao controle e a protagonista, Sarah Bailey, aprende que para evitar a própria morte deve se ligar a sua falecida mãe, uma bruxa com poderes aparentemente natos, portanto, vindos de uma linhagem mágica.

Nos contextos fantásticos das séries de livros “O Senhor dos Anéis”(1954), “A Guerra dos Tronos” (1996), “As Crônicas de Nárnia” (1950) e “Discworld” (1983), a educação é parte importante da formação de bruxas, mas não se sobrepõe a herança familiar ou racial que, certas vezes, precede a própria criação do mundo. Afinal, foi se apossando dos poderes do “fruto da vida eterna” que a Feiticeira Branca tomou o recém nascido mundo de Nárnia de assalto e utilizou sua herança mística de um universo anterior para desafiar seu novo deus, Aslan. Em “O Senhor dos Anéis”, Galadriel é a herdeira nobre de uma classe de poderosos elfos que, graças a sua educação distinta, se destaca dos demais seres mágicos da Terra-Média. Tanto em “Discworld” quanto em “A Guerra dos Tronos”, a bruxaria parece ser passada de geração em geração via ensinamentos, mas apenas pessoas propensas a aprender (ou acreditar) se tornam bruxas habilidosas.

Mais raras, as bruxas que adquirem seus poderes via possessão geralmente encontram raízes malignas para suas origens. As bruxas de “Crônicas Vampiras” têm nos espíritos e nos demônios sua maior fonte de poderes, enquanto as três mulheres entediadas de “As bruxas de Eastwick” (1984) tiveram no misterioso ricaço Daryl Van Horne seu despertar místico. As bruxas vilãs dos contos de fadas, cujos poderes parecem vir de formas anteriores de monstros (em especial dragões), são alegadamente mancomunadas com entidades sombrias, com interesses escusos e que não são suficientemente fortes para lidar com atos de heroísmo e altruísmo.

Na maioria dos casos, portanto, são as bruxas ligadas à família que, numa espécie de conservadorismo reverso, se tornaram as heroínas que passamos a glorificar. São elas, legitimadas pelas gerações anteriores, que acumulam poderes e o direito de usá-los para o que julgam ser o bem, na tentativa de impedir ou conter o avanço dos que o adquirem via meios próprios considerados não convencionais. Como uma resposta ao puritanismo que punia mulheres de pensamento independente e, muitas vezes, esclarecido, as bruxas criadas por autores contemporâneos – ainda que isoladas e desacreditadas socialmente na maioria dos universos – são muito mais similares e dependentes de uma herança familiar do que jamais foram durante os tempos em que a fogueira selava seus destinos.

  1. Mesmo estando cientes de que homens quebraram a barreira do gênero e também se tornaram bruxos famosos em alguns dos casos citados, nos limitaremos às mulheres, que historicamente foram atreladas ao papel sobrenatural. []
Edição: Vol. 2 Nº 7 (mai/2012)
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Publicado em 21/05/2012, às 13:59.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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2 comentários sobre Eles não acreditam em bruxas, mas elas não se importam

  1. Alvaro

    Eu sei que é um excesso de anal-retentividade, mas Galadriel não é bruxa não :3
    Até porque nos livros, tudo que ela faz de ‘mágico’ vem do poder do Nenya, o anel da água; poder colocado no anel pelo Celebrimbor, que forjou (sozinho, sem Sauron) os três anéis dos senhores dos elfos.

    Mas de resto adorei o artigo, risos.

    • E eu concordo com vc, Alvaro. Ela nao eh uma bruxa clássica, eh uma mulher que se utiliza de magia (através de instrumentos). Assim como em “Sailor Moon” elas nao sao bruxas, apenas utilizam magia (poderes cósmicos?) tbm através de instrumentos. Eu tomei algumas liberdades na minha tentativa de categorização e eu sempre tento encaixar Tolkien nessas listas, ahahhahah

      Acho que coloquei a Galadriel pela menção dela ser uma “elf-witch” qdo fui buscar dados na interwebs:
      http://lotr.wikia.com/wiki/Galadriel