Tudo o que você precisava saber sobre desilusões amorosas, John Hughes te ensinou

Quando Andie Walsh chegou ao corredor que a conduziria ao baile de formatura, usando seu indefectível vestido rosa-shocking e sem qualquer acompanhante, ela pensou em desistir. Enfrentar a situação não resolvida com Blane McDonnagh talvez fosse mais fácil em sua mente do que na vida real. Hesitando em prosseguir, a garota do lado errado dos trilhos planejou dar meia volta até que, no alto das escadas, seu melhor amigo Phil Dale (também conhecido como Duckie) surgiu para resgatá-la de sua própria covardia. Numa corrida que se tornaria lugar comum em futuras comédias românticas, Andie e Duckie se abraçaram, renovando sua amizade abalada ali mesmo, e entraram juntos no baile que os forçaria a lidar com seus maiores desafetos.

Conduzindo a garota dos seus sonhos para um derradeiro encontro com o garoto dos sonhos dela, Duckie assistiu a reunião do casal naquilo que não se tornaria, de maneira nenhuma, um chavão do futuro gênero cinematográfico. Forçado pela mão invisível dos produtores do filme, o personagem de Jon Cryer ganhou como prêmio de consolação um olhar afetuoso de uma personagem sem falas1, que parecia ser suficientemente atraente para distraí-lo da maior desilusão amorosa que sofreria em sua vida.

Para o ator que começou sua carreira em “A Garota de Rosa-Shocking” (1986), Duckie era o protagonista. Entretanto, quando o final em que Andie e Duckie dançavam ao som de David Bowie foi exibido para uma plateia teste, o personagem acabou sendo veementemente vaiado2. Na tentativa de transmitir uma mensagem considerada positiva (que classes sociais não são limites para relacionamentos bem sucedidos), John Hughes cedeu à vontade do estúdio e encerrou seu romance com Andie e Blane partilhando um último beijo no estacionamento.

Para alguns de nós, Duckie sempre foi e ainda é o protagonista. A profundidade superficial de Blane, o garoto rico que não se identificava com os amigos playboys, nunca foi suficientemente apaixonante para justificar um relacionamento com Andie. Ela, por sua vez, ignorando os avanços infantis do melhor amigo, perdeu a chance de reconhecer nele um legítimo parceiro romântico, capaz de confrontar (até mesmo fisicamente) todos aqueles que a ameaçavam, ainda que ela própria fosse capaz de se defender com as mais afiadas ofensas.

Com o destino de seus personagens já fora de seu controle, Hughes revisitou seu passado ao redigir no ano seguinte a história de “Alguém Muito Especial” (1987). Sai Molly Ringwald como Andie Walsh, entra Eric Stoltz como Keith Nelson, um jovem ruivo também do lado errado dos trilhos que mantém uma paixão inexplicada por Amanda Jones, a mais popular garota de sua escola. Namorada de Hardy Jenns, o atleta riquinho que intimidava todos ao seu redor, Amanda representava o Blane desse universo, disfarçando um pouco melhor seu interesse no sensível Keith que, ao invés da costura, tinha em seus quadros sua maior válvula de escape.

Entre o casal impossível, Hughes colocou Watts, personagem de Mary Stuart Masterson. Melhor amiga de Keith e platonicamente apaixonada pelo ruivo, Watts, tal como Duckie, brincava com um vestuário ousado que atraia comentários sobre sua sexualidade ambígua e a deixava parcialmente invisível aos olhos do amigo artista.

Disposto a evitar a injustiça que havia cometido a contragosto no ano anterior, Hughes ajustou seus personagens para que nenhuma plateia teste pudesse vaiar seu final. Em “Alguém Muito Especial”, Amanda Jones não era verdadeiramente uma garota rica, mas sim, alguém que andava entre eles e assumia para si a postura bem mais abastada do que de fato era. Watts, por sua vez, não se deixava aprisionar pela aparência dúbia e ganhou uma cena romântica com Keith3, para garantir a todos os espectadores que sua química com ele poderia se concretizar muito além do platonismo.

Uma vez eliminado o suposto conflito de classes e a alegada falta de entrosamento romântico dos dois amigos, John Hughes montou o cenário ideal para que a escolha final de Keith diferisse bastante da de Andie. Mesmo conquistando o amor de Amanda, Keith precisou receber dela a lição que faltava para que seu amadurecimento emocional fosse plenamente atingindo. Quando declarou que “preferia ficar com alguém pelas razões erradas a ficar sozinha pelas certas”, Amanda, sem querer, entregou o argumento essencial para que desilusão amorosa sofrida por Duckie não mais se repetisse naquele cenário. Para Keith, Amanda Jones era a idealização de quem ele queria ser, mas não necessariamente a pessoa com quem ele deveria estar. Ao contrário de Duckie, Watts não recebe como prêmio de consolação um olhar de um estranho atraente, mas sim o abraço e o beijo de Keith que amadureceu a tempo de não perdê-la.

Transformada no Duckie de “Alguém Muito Especial”, Amanda encerra sua história sozinha, exemplificando as tais “razões certas” ao devolver o presente que havia custado “o futuro” de Keith. A personagem segue sem ver o final romântico que acontecia também entre carros vazios e sob o som de uma balada romântica.

Ao alterar o final imposto em 1986, John Hughes criou um novo vácuo amoroso em 1987, contribuindo inadvertidamente para estabelecermos a noção de que para todo final feliz em seu universo, cria-se uma desilusão fora de cena.

Dedicado aos temas do amor adolescente, assim como a idealização e os conflitos inevitáveis entre grupos de jovens no contexto escolar, John Hughes criou o garoto ideal (Jake Ryan) para a garota negligenciada pela família (Samantha Baker) em “Gatinhas e Gatões” (1984), levando aquele que se revelava superficialmente interessado em obter a atenção dela (o personagem sem nome de Anthony Michael Hall) a se contentar com um politicamente incorreto e propositadamente bem humorado encontro com a ex-namorada de Jake, a esnobe Caroline Mulford.

No ano seguinte, dividindo-se entre a comédia fantástica de “Mulher Nota Mil” e o realismo dramático de “Clube dos Cinco”, Hughes criou respectivamente a mulher e o contexto ideais para um grupo de jovens confrontarem suas idealizações. Enquanto Wyatt Donnelly e Gary Wallace descobriram que Lisa, sua mulher imaginária, não lhes traria a felicidade que almejavam, cinco jovens de Shermer High se descobriram mais parecidos do que haviam imaginado antes de terem a chance de conversar.

Entretanto, para cada casal formado “magicamente” pelos roteiros amarrados de Hughes, um personagem era simultâneamente jogado de escanteio no campo romântico. Se Lisa é forçada a se despedir de seus criadores quando eles encontram interesses amorosos “reais”, Brian Johnson, também interpretado por Anthony Michael Hall, deixa a biblioteca assistindo de longe as aproximações românticas de atletas, criminosos, princesas e basket cases. Para o “cérebro” da turma, a solidão se apresentou como única opção viável, visto que para personagens como ele, Phil Dale e Amanda Jones, o romance nem sempre abre caminho para a realização pessoal, mas para o amadurecimento forçado, que brota de uma inevitável desilusão.

  1. Ninguém menos do que a Buffy original, Kristy Swanson []
  2. Remembering John Hughes: Jon Cryer delivers ‘Pretty in Pink’ trivia – http://popwatch.ew.com/2009/08/07/john-hughes-movie-trivia/ []
  3. Não por acaso, ensinando o rapaz a beijar – http://www.youtube.com/watch?v=Ar_fMzvnuKk []
Edição: Vol. 2 Nº 6 (mai/2012)
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Publicado em 7/05/2012, às 11:14.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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