Noel Gallagher contra a vontade coletiva

Mais de uma década atrás, eu tinha absoluta certeza de que os Backstreet Boys não durariam muito, mas que o Oasis, o Blur e o Smashing Pumpkins eram para sempre. Afinal de contas, a boyband foi construída em testes de cantores escolhidos a dedo para agradar uma faixa etária feminina, enquanto as bandas… bom, as bandas eram uma experiência muito maior do que isso. Como provavam os Rolling Stones, o Aerosmith e outros com décadas de história nas costas.

Aí os Smashing Pumpkins se despediram com uma desculpa esfarrapada no final de 2000, o Blur começou a se dissipar de fininho após a saída do guitarrista Graham Coxon, em 2002, e o Oasis finalmente emplodiu e desmoronou quando Noel Gallagher foi embora antes de um show em 2009. Noel bem disse que não era para colocar nossos corações nas mãos de bandas de rock…

(Enquanto isso, os Backstreet Boys até tiraram férias em 2002, mas voltaram aos palcos menos de dois anos depois – e não saíram mais dele.)

Até que Billy Corgan ressuscitou os Smashing Pumpkins em 2007, com a ajuda do baterista Jimmy Chamberlin1. James Iha e D’arcy Wretzky não apenas ficaram de fora da reunião, mas também ficou claro que eles não mantinham mais nenhum tipo de relacionamento amigável com Corgan.

A banda ainda segue em frente e prepara músicas novas, mas desta vez nem Chamberlin participa. Como Axl Rose e Humberto Gessinger, Corgan escolheu novas peças para manter a engrenagem funcionando. Isso é os Smashing Pumpkins.

E, sinceramente, eu acho triste.

Não que uma reunião precise ser ruim. Voltando às boybands, o Take That se reencontrou depois de 10 anos para fazer seus melhores trabalhos. Deixando as boybands de lado, o retorno do Garbage ainda me parece boa ideia2.

Então talvez eu pudesse dar uma chance para o Blur, que voltou em 2012 para ser homenageado no Brit Awards e aproveitou para marcar uma apresentação de encerramento das Olimpíadas de Londres.

Talvez.

Afinal de contas, o Blur voltou inteiro – até Graham Coxon embarcou na ideia, apesar de ter lançado seu oitavo álbum solo neste ano. Alex James deixou a produção de queijos, Dave Rowntree deixou as ambições políticas e Damon Albarn deve ter deixado um ou dois ou três ou vinte projetos artísticos paralelos.

Tudo isso para uma apresentação desafinada e sem química de “Girls & Boys”. Seguida de uma “Song 2” que até eu já devo ter cantado melhor. Para fechar aquele fim de festa, Albarn e Phil Daniels interpretaram tios bêbados em “Parklife”.

Usando a perspectiva mais otimista, foi… deprimente.

Na verdade, isso vinha me incomodando há algum tempo: bandas cujos membros claramente se odeiam, ou que se desfiguraram tanto que ficam até difíceis de reconhecer.

Lembra daqueles “exemplos”? Os Rolling Stones empurraram a turnê que deveria marcar seus 50 anos de atividade, e Mick Jagger e Keith Richards passaram os últimos dois anos se cutucando por conta da autobiografia do guitarrista. O Aerosmith não acabou por milagre, depois de uma briga entre Steven Tyler e Joe Perry que envolveu até o emprego do vocalista no júri de “American Idol”3.

Mas eu gosto de pensar que não sou completamente irracional e não espero que companheiros de banda sejam melhores amigos. Jagger e Richards se toleram há 50 anos – é inevitável que a relação tenha se desgastado (provavelmente mais de quatro décadas atrás).

Eu só entendi o que me incomodava nisso tudo durante o show do Noel Gallagher em São Paulo. Em certo momento, quando alguém no público pediu “The Masterplan”4, Gallagher tinha duas opções óbvias: fazer como o Aerosmith, que cantou uma versão sem ensaios de “Angel”5, ou como o Bon Jovi, que finge não ouvir 99% dos pedidos por “Dry County”.

Gallagher nem atendeu, nem ignorou. Em vez disso, mandou os fãs ouvirem a música no disco e continuou cantando B-sides que pouca gente conhecia. Também tirou “The importance of Being Idle” da setlist e não deu ouvidos aos lamentos dos fãs quando anunciou que ia cantar a última música do show.

Então ficou tudo muito claro: embora o setlist não seja muito rock’n’roll, Noel Gallagher é um rockstar. Não tem nada de incômodo em seu show porque ele está fazendo o que quer, e como quer. Dava até para imaginar o guitarrista abandonando sua antiga banda no melhor estilo “Eu sou Noel f… Gallagher. Eu não preciso disso aqui”.

Quando eu cheguei ao show em 2012, sabia que não era mais tão fangirl quanto fui no show do Oasis em 1998. Mas saí de lá com muito mais respeito por Noel Gallagher do que tive mais de dez anos antes.

Empregos deprimentes são para mim e para você. Atender ordens e atender telefones é o que fazemos no horário comercial. A última coisa de que eu preciso é um rockstar preso no emprego que ele odeia.

Talvez, daqui a uns dez anos, Noel e Liam Gallagher inventem uma reaproximação. Os demais integrantes poderão ser a formação original6, ou a formação mais famosa7, ou os sobreviventes de 2009, ou quaisquer músicos contratados – são as tais peças da engrenagem –, porque o que importa é que os irmãos estarão de volta aos almoços de família aos domingos, e em shows ao redor do mundo. Se Tupac pode ressuscitar nos palcos8, por que não o Oasis?

E, nessa hora, um Nick Carter quarentão cantará “I want it that way” como a coisa mais autêntica na música.

  1. Chamberlin chegou a ser demitido da banda no meio da década de 1990, mas foi readmitido antes do primeiro fim dos Smashing Pumpkins. []
  2. Neste momento em que o novo álbum vaza. []
  3. Pelo menos nenhuma dessas brigas foi por causa das roupas de uma sessão de fotos, como aconteceu com a girlband All Saints… []
  4. B-side do Oasis de 1995. []
  5. Entrou no bis do show da banda em São Paulo, em 2011. []
  6. Uma nova chance para Tony McCarroll? []
  7. O quinteto de 1996. []
  8. Durante apresentação de Dr. Dre e Snoop Dogg no Coachella de 2012, uma projeção do rapper Tupac Shakur (morto em 1996) dividiu o palco na forma de uma projeção que simulava ser tridimensional. []
Edição: Vol. 2 Nº 6 (mai/2012)
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Publicado em 7/05/2012, às 8:56.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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2 comentários sobre Noel Gallagher contra a vontade coletiva

  1. Sheila

    Ainda acho que a reunião Liam/Noel vai acontecer antes das Olimpíadas de surpresa.

    Risos.