E se o tempo fosse dinheiro?

Essa é a pergunta que domina os 109 minutos de “O preço do amanhã”1, lançado em 2011. Na história do diretor e roteirista Andrew Niccol, todos os corpos humanos param de envelhecer aos 25 anos, mas é preciso conquistar todos os seus segundos de vida daí pra frente.

No futuro de 2161, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos são as unidades da moeda. Um turno no trabalho rende algumas horas; um cafézinho custa alguns minutos. Até o seu tempo acabar, para sempre.

Desenvolver mecanismos biológicos para a juventude definitiva em apenas 150 anos pode ser um grande desafio. Mas será que dá tempo de trocar nossos reais, dólares e euros por horas?

O valor da moeda
Quem mora com algum animal de estimação já deve ter percebido que seu cachorro, gato ou miniporco se acha dono de alguma coisa — de um brinquedinho, de uma almofada, de um lugar específico do sofá e provavelmente das pessoas da casa. Não cabe aqui, portanto, tentar discutir por que ou como o homem começou a achar que era dono de algumas vacas, um terreno e um pedaço de pau. Vamos apenas admitir que isso aconteceu em algum momento.

O problema, como se sabe, é que muitas vezes queremos certas coisas que não temos. Felizmente, de vez em quando temos algumas coisas de que não precisamos. A primeira saída é o escambo: você dá algumas maçãs para seu vizinho em troca de certa quantidade de ovos.

Isso funciona bem quando você precisa de ovos e seu vizinho precisa de maçãs. Mas talvez vocë precise de ovos, e seu vizinho odeie maçãs. Ele quer laranjas. Para conseguir os ovos, você teria que trocar as suas maçãs pelas laranjas do seu primo, e então levar as laranjas para o vizinho. Se o seu primo também recusar as suas maçãs, sua ciranda ganha mais uma etapa e você terá que encontrar alguém que aceite trocar suas maçãs pelo queijo que ele pediu. Resumindo, é preciso haver correspondência de posses e necessidades entre as duas partes.

A situação fica ainda mais complicada porque as maçãs são apanhadas nos primeiros meses do ano, mas estragam. Seus quilos e quilos de maçãs precisam ser consumidos e trocados em uma janela de poucos meses, e não servirão mais em agosto.

O jeito foi encontrar algum tipo de produto que não estragasse facilmente e que tivesse demanda durante todo o ano – por exemplo, sementes. Assim, você poderia trocar as maçãs em excesso por sementes no mês da safra, e alguns meses depois trocar uma quantidade de sementes por ovos. Isso é dinheiro: um meio de troca.

Quando o sistema começou a se desenvolver, esses produtos-moeda perderam terreno2 para moedas de metais preciosos. Materiais como ouro, prata e bronze foram considerados adequados por serem duráveis, portáteis e confiáveis3. É mais fácil viajar longas distâncias levando algumas moedas, em vez de alguns cabritos.

Até aí, tudo bem. Estamos falando de alimentos de verdade e metais preciosos de verdade. Mas como saltar para algo tão intangível como o tempo?

Bom, não é tão impensável. Depois de alguns séculos, as moedas já não eram mais feitas da mesma quantidade de ouro que representavam. A nota de cem reais é um pedaço de papel — como os que já existiam na China por volta do século 7. Descobertas indicam que em 2000 aC, na Babilônia, tabuletas de argila já funcionavam como promessas de pagamentos a serem realizados após o cumprimento de uma tarefa.

Isso sem falar naquele dinheiro que você nunca vê, como aquele que cai direto na sua conta corrente no sexto dia (talvez por isso ele desapareça em menos de uma semana!) e é transferido digitalmente na forma de pagamentos para a imobiliária, a companhia telefônica e a operadora do cartão de crédito.

Como explica Ferguson,

“Dinheiro é uma questão de confiança, ou até mesmo de fé: confiança na pessoa que nos está pagando, confiança na pessoa emitindo o dinheiro que usa ou na instituição que honra seus cheques e transferências. Dinheiro não é metal, é confiança inscrita. E não parece fazer diferença onde ela está inscrita: em prata, argila, papel ou displays de cristal líquido. Qualquer coisa pode funcionar como dinheiro, dos búzios das Maldivas aos grandes discos de pedra usados nas ilhas Yap”4.

Dinheiro paralelo
Se dinheiro depende de confiança, o ideal é que a instituição que o garante seja confiável — como o Banco Central5. Essa é a moeda oficial de um país. Mas ela não é necessariamente a única em circulação.

Comunidades norte-americanas imprimem suas próprias moedas e oferecem vantagens para seu uso como forma de estimular a economia local e pequenos negócios. Em vez de usar seus dólares na metrópole vizinha ou na grande loja de departamentos, compradores usam as cédulas da moeda local no mercadinho da esquina. No Brasil, também circulam moedas sociais como o Palma, válido em um bairro na periferia de Fortaleza6.

Nenhuma dessas iniciativas tenta derrubar a moeda oficial do país, mas elas mostram que as trocas encontram outros caminhos quando o dinheiro torna-se escasso.

Dólares de tempo
Um tipo mais específico de “mecanismo de troca” é o do banco de tempo. A ideia surgiu na década de 1980 e ganhou força com o advogado Edgar Cahn7, que propôs um modelo comunitário em que participantes oferecem e solicitam serviços usando créditos de horas. Para obter créditos, é preciso cumprir serviços solicitados por outros participantes. Depois, os créditos podem ser utilizados para solicitar outros tipos de serviços.

Não é possível converter os dólares de tempo em dólares americanos, e não é possível comprá-los com dinheiro tradicional. Sua validade é restrita à comunidade onde eles são negociados – seja uma vizinhança ou uma comunidade virtual8.

Os bancos de tempo são estratégias para fortalecer comunidades, principalmente aquelas cujos moradores enfrentam dificuldades financeiras. “O banco de tempo busca superar a exclusão social ao permitir acesso a serviços e organizações, e envolvendo pessoas em voluntarismo comunitário”, defende Gill Seyfang9, ao analisar uma iniciativa em Gorbals, Escócia.

Para Cahn, “dinheiro é necessário para muitas coisas, mas não é adequado para tudo”10. Dinheiro seria inadequado, por exemplo, para reforçar laços comunitários. Assim, os dólares de tempo não tentam substituir completamente o dinheiro como o conhecemos, e sim complementá-lo.

Mudando a moeda
Mas dinheiro, afinal, é uma abstração baseada em confiança. Uma moeda não é necessariamente eterna, como bem sabem aqueles que viveram os cruzeiros, os cruzados, os cruzados novos e outros cruzeiros. As moedas paralelas norte-americanas voltaram a chamar a atenção com a última crise econômica, quando comunidades mais atingidas viram a disponibilidade da moeda oficial despencar11.

Um grande colapso financeiro que reduzisse drasticamente o acesso da população à moeda oficial e destruísse a reputação das instituições que garantem seu valor poderia provocar a reorganização do dinheiro. E os dólares de tempo são tentadores – especialmente quando o desemprego está alto – porque não é preciso ter posses para começar a usá-lo.

E se instituições também começassem a usar os dólares de tempo? Aconteceria uma reorganização do trabalho, atingindo um nível de extrema informalidade.

Mas continuamos longe da imaginação de Niccol. O que os bancos de tempo promovem é uma troca muito simplificada de trabalho, e não de tempo. Simplificado porque não existe diferenciação para o grau de especialização exigido para uma tarefa: o que importa é o tempo que se leva para realizá-lo. Mas ainda que tempo e dinheiro possam ser facilmente relacionados, muitas diferenças os separam.

Na forma como o conhecemos, tempo não pode ser acumulado ou transferido. Isso significa que a moeda tempo de 2161 seria outro desafio para os cientistas desenvolvendo a juventude permanente.

Além disso, é que é muito mais difícil contabilizar tempo do que dinheiro. Sabemos quanto custa um almoço, quanto custa uma calça jeans e quanto custa um carro, mas não calculamos com tanta facilidade quanto “custou” o tempo que passamos pesquisando preços de ovos de páscoa. Uma grande adaptação de raciocínio, e não só de biologia, teria que ocorrer no prazo naquele 150 anos.

  1. Tradução dramática dada pela distribuidora brasileira para o filme “In time”. []
  2. Em prisões, o cigarro funciona como dinheiro ainda hoje. []
  3. FERGUSON, Nial. The Ascent of Money: a Financial History of the World. The Penguin Press, New York, 2008 []
  4. FERGUSON, Nial. The Ascent of Money: a Financial History of the World. The Penguin Press, New York, 2008 []
  5. E quanto mais forte a economia do país do BC, mais confiável é a moeda. []
  6. Ainda não existe uma regulamentação para esse tipo de moeda paralela, mas o Banco Central admite a prática como um “mecanismo de troca” – como um vale-refeição – e recomenda que as cédulas não sejam parecidas com a moeda oficial, o real. []
  7. Cahn é membro do conselho diretor da TimeBanksUSA, organização que dá apoio a bancos de tempo nos EUA. []
  8. Como o site 65 hours. []
  9. SEYFANG, Gill. “Time banks: rewarding community self-help in the inner city?” In: Community Development Journal, Vol 39, No 1, 2004. []
  10. CAHN, Edgar. Time Dollars: the new currency that enables Americans to turn their hidden resource-time-into personal security & community renewal. Rodale Press, 1992. []
  11. Segundo a CNN, existem no mundo cerca 2500 moedas paralelas, e a procura cresceu depois de 2008. []
Edição: Vol. 2 Nº 3 (mar/2012)
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Publicado em 26/03/2012, às 10:15.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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Um comentário sobre E se o tempo fosse dinheiro?

  1. Márcio Moreira

    O tempo já é uma mercadoria. Em teoria, um professor recebe por hora-aula, embutindo aí o planejamento de aula, a formação profissional e os valores complementares de transporte, alimentação, material necessário. De certa forma, a sociedade capitalista já transforma seu tempo num valor econômico que pode ser extrapolado num sistema de escambo- seguindo a lógica do artigo.

    Talvez, em nosso sistema atual onde menos de um terço das profissões são realmente essenciais, esse cálculo se complique. Mas numa sociedade como a descrita em Admirável Mundo Novo, seria possível classificar a população em castas e estabelecer tempo como moeda de troca.

    Mas eu nem vi o filme, então provavelmente estou cagando uma regra medonha =]
    Ótimo texto.