Mãe, de onde vêm os vampiros?

Spoilers: Esse texto contém spoilers sobre as origens de diversos vampiros da ficção (The Vampire Diaries, Buffy, Drácula, Blade, entre outros). Prossiga se for convidado.

Lembro-me com certa nitidez de estar parado na frente do cinema, esperando uma confirmação que pareceu levar horas até finalmente me atingir. Ainda que hoje eu entenda que não havia surpresa nenhuma no que aconteceu naquele fatídico final de semana, o choque de ter sido impedido de entrar no cinema me abalou consideravelmente. Com poucos meses até completar 10 anos, minha história com gêneros que eu amo começou comigo sendo “vexatoriamente” – aspas dos meus pais – detido na porta do cinema.

O filme da vez, “Drácula de Bram Stoker”, era considerado violento demais para mim, e mesmo com minha mãe me levando até o guichê do cinema – só para poder ouvir da boca do caixa o quão inapropriado seria levar uma criança para assistir as origens do vampiro mais temido da ficção – encarei toda a situação com a descrença de uma criança mimada. Desde aquele dia, fiquei fascinado pela possibilidade transgredir as regras da classificação etária para poder entender como vampiros, criaturas tão interessantes (especialmente nos anos 1990) vieram a existir. Quando finalmente consegui assistir – novamente sem o consentimento dos meus pais! –a versão Coppola das origens do Drácula, alguns anos depois, invadindo um cinema escolar com colegas de classe durante uma Feira de Ciências e Artes, não posso dizer que me decepcionei.

Está certo que não esperava o melodrama de alguém que renegou Deus por culpa do suicídio de sua noiva, mas não deixei de me impressionar com a trágica história de amor, sendo distraído ocasionalmente pelas escolhas estéticas de Gary Oldman no papel do cidadão mais ilustre (maldito?) da Transilvânia. Os óculos coloridos eram mais do que bem vindos, mas a peruca ainda me causa certo constrangimento até hoje.

Do filme para o livro foi um passo – ou alguns passos, já que comprei minha cópia numa banca me desviando do caminho para o colégio sem que ninguém soubesse –, e nada me deixou mais impressionado quanto a incapacidade do temido Conde em cruzar água corrente, a menos que fosse carregado ou conduzido. Pois então o vampiro mais poderoso de todos eles tinha atrelada às suas origens uma das mais estapafúrdias superstições que, para vampiros criados na contemporaneidade, não faria qualquer sentido.

Anos depois, com a chegada de “Buffy” e o sucesso do primeiro “Blade” no cinema, entender as origens dos vampiros se tornou, para mim, uma espécie de passatempo ligado ao trauma de ter sido barrado no cinema em 1992. Mapeá-las mentalmente e tentar relacionar seus mitos internos aos seus poderes e fraquezas foi (e ainda é) um esforço natural que eu devo exemplificar aqui.

A partir de 20 universos distintos que têm vampiros em seu núcleo de protagonistas ou coadjuvantes, podem existir, numa divisão pragmática, três tipos de origens possíveis. Ligados a ela estão poderes e fraquezas que marcam as características principais desses personagens:

1) Celestial: seja através de um pacto profano ou de uma ruptura com o divino, o mito original dos vampiros (Dracula, Carmilla, Varney, entre outros) se refere a um homem ou mulher que decidiu agir contra uma deidade e, portanto, tornou-se vítima de seu castigo, chegando a rivalizar com seu criador ao se transformar numa criatura igualmente eterna. Em versões modernas, os vampiros cuja origem jaz no conflito entre Céu e Inferno geralmente possuem suas fraquezas ligadas ao mito religioso. Crucifixos, água benta, caixões de madeira são as contrapartes de seus poderes físicos fantásticos. Em grande parcela das histórias, o vampiro de origem “celestial” representa a queda de uma criatura que voltou suas costas para o que a história representava como o Bem maior.

2) Mágica: diferentemente da “celestial”, a origem mágica não se atrela a batalhas religiosas, mas ao equilíbrio físico do universo. Vampiros que têm na magia sua origem são geralmente resultados de feitiços que fugiram ao controle e causaram uma perturbação na ordem natural das coisas. Em “The Vampire Diaries”, a primeira bruxa perturbou os espíritos naturais ao transformar seus filhos e marido em seres imortais, na tentativa de proteger sua família. O desejo por sangue e a incapacidade de resistir à luz do sol foram reflexos de um mundo natural que os rejeitava. A prática de se mexer com forças incompreensíveis coloca o vampiro, principalmente, como consequência de um ato desafiador, e não apenas como castigo.

3) Biológica: conforme avançamos para a ficção científica, vampiros modernos deixam de lado o misticismo para abraçar a possibilidade de vermos personagens serem punidos ou feitos de lição pela mais nova deidade humana, a Ciência. Normalmente ligados a pragas, vírus ou modificação genética, os vampiros cuja origem se encontra na biologia também possuem fraquezas como a luz solar e a alergia a prata ou madeira. Entretanto, estão libertos de seu conflito com símbolos cristãos ou da necessidade de se dormir em caixões ou fugir de lugares considerados santos. Quando originados através da manipulação de agentes biológicos, os vampiros servem de alusão aos perigos de se desafiar as novas leis naturais, instituídas através do conhecimento científico, e que ditam o caminho evolutivo natural da humanidade.

Independentemente de sua origem dentro de diferentes tramas, construídas em diferentes épocas, o vampiro é normatizado quase sempre como uma entidade imoral, seja pelos preceitos religiosos, naturais ou éticos. Sua criação é, comumente, considerada uma abominação até mesmo pelos protagonistas, ainda que eles sejam de vez em quando os heróis de suas respectivas histórias.

Apesar de poder se esquivar de ter a luz do sol como fraqueza, o vampiro jamais escapa da sede de sangue como ponto definidor de sua existência condenada. Dar as costas para um deus, para a natureza ou para os princípios elementares da ciência é considerado a falha original em quase todos universos, o que transforma seus personagens em uma versão eternamente assombrada pela transgressão. Em busca de redenção, quase sempre representada pela possibilidade de se retornar ao fluxo normal de nascimento, crescimento e morte, os vampiros ficcionais espelham alegorias de uma humanidade que teme o desafio e se pune pelo rompimento de barreiras.

Com isso em mente, não me surpreendo que o impulso que me levou a querer entender as origens vampíricas tenha sido justamente o da transgressão. Ser impedido de entrar naquele cinema, mas abrindo meu próprio caminho até o filme que eu tanto queria assistir, me transformou em um aficionado por mitos de origem ligados à quebra de regras e a culpa subsequente. Um aferimento que pode levar a conclusão dogmática de que transformar-se em vampiro nada mais é do que dar um passo rumo ao incerto e carregar sobre si mesmo o preço dessa incerteza, tanto para o bem representado em seus poderes fantásticos quanto para o mal, que acarreta numa eternidade parasitária envolta em auto-condenação.

Edição: Vol. 2 Nº 2 (mar/2012)
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Publicado em 11/03/2012, às 22:18.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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