Joss Whedon, mas com um twist

Spoilers: O filme “Buffy, a caça-vampiros” foi lançado há 20 anos.

A garota loira com um nome bobinho caminha sozinha por um beco escuro. Esse era o clichê de filmes de terror que Joss Whedon buscou inverter quando criou Buffy, a caça-vampiros. E essa cena realmente acontece no filme “Buffy, a caça-vampiros” (1992), mais ou menos na marca de meia hora.

Só que a cena não ficou exatamente como Joss Whedon queria. Na verdade, o filme todo da diretora Fran Rubel Kuzui ficou longe do que Whedon imaginou quando escreveu o roteiro, e a Buffy vivida por Kristy Swanson não era a Buffy que ele havia criado. “Eu senti que não era bem ela. Era um começo, mas não era bem a garota”, resumiu1.

Não é difícil entender a má vontade de Whedon com o filme de 1992. “Buffy” é seu trabalho de amor, uma visão sobre adolescência e sobre o papel feminino. Foi também seu primeiro roteiro a virar filme, ainda na casa dos vinte anos. Assistir “muito comportamento babaca de aspirantes a estrelas” enquanto a diretora colocando outra visão em seu roteiro só poderia ser (no mínimo) frustrante. Para completar, não ficaram recordações muito boas de Donald Sutherland, que gostava de mudar as falas do guardião Merrick2.

Os anos se passaram, Whedon finalmente realizou sua visão na série de TV “Buffy, the Vampire Slayer” (1997–2003) e todas as palavras que saem de suas mãos viram o evangelho. Assim, o desgosto com “Buffy”, o filme, virou pré-requisito para obter a carteirinha de fã de “Buffy”, o seriado.

Só que – peço perdão e rezo três “Once more, with feeling” nesta confissão – o filme de Fran Rubel Kuzui não é esse pecado todo. O filme “Buffy” foi sempre julgado pelo que não era: não era o filme de terror com toques de comédia adolescente que Whedon esperava. Não era a série de TV que durou sete temporadas. Não era estrelado por Sarah Michelle Gellar.

“Buffy”, em sua encarnação cinematográfica, era uma comédia adolescente com toques de terror. E, embora não tenha nada particularmente revolucionário, não deixa de ser uma boa sessão da tarde – com direito a jaquetas jeans, blusas amarradas na cintura, elásticos coloridos de cabelo e brincões nas orelhas de Hilary Swank3. Esta versão de “Buffy” envelheceu bem seus vinte anos: a pobreza de efeitos especiais apenas evidencia seu lado “filme-B”, garantindo um valor cult maior do que ele ficou devendo em seu ano de estreia.

Whedon pode ter ficado insatisfeito com a interpretação dada a seu roteiro, mas armou o filme com uma história interessante e uma protagonista capaz de carregar uma hora e meia de cinema. Antes que Cher Horowitz desejasse casar com Luke Perry, Buffy Summers esnobava Pike (vivido por Luke Perry) e desejava casar com Christian Slater. Depois de ter mudado pra Europa, claro.

Não que tudo seja perfeito. O primeiro encontro entre Lothos e Buffy deixa muito a desejar, com o vampiro escolhendo matar Merrick e deixar a caçadora fugir4. E aquela história sobre o silêncio ainda não fez sentido, mesmo depois de todo esse tempo. Só podemos torcer para ter sido uma das contribuições de Donald Sutherland.

Pelo lado positivo, as falas de Buffy Summers no filme já davam uma amostra do que viriam a ser os diálogos da série, quando ela encontrou interlocutores melhores.

Pois é, interlocutores melhores. Em Hemery High, Buffy estava limitada à companhia de outras mean girls, incapazes de entender as mudanças pelas quais ela passava. Pike até mereceria o título de primeiro scooby5, mas não poderia competir sozinho com Willow, Xander, Cordelia Oz, Tara, Anya…

Da mesma forma, não é possível comparar o desenvolvimento de personagens em uma série de sete temporadas e um filme de noventa minutos. Não caberia no filme “Buffy” um namorado que na verdade era vampiro – mas com alma. Não coube uma apresentação do poder de Lothos, como tivemos na série com big bads como Master e Glory.

Claro que dá para comparar Sarah Michelle Gellar e Kristy Swanson. E, é claro, SMG sai ganhando. Mas Swanson não faz feio não. Interpretando uma adolescente como só uma atriz de 23 anos6 pode fazer (é o que pensam os responsáveis pela escalação de elenco em séries adolescentes, pelo menos), ela faz bem o papel de colegial dividida entre um vestido novo para o baile e o destino de ser a Escolhida.

Tirando a má vontade do caminho, dá para ver na Buffy de Swanson um pouco da mocinha de filmes adolescentes dos anos 1980, herdeira de Molly Ringwald no beicinho e no “afiado senso de estilo”.

No final sonhado por Whedon, Buffy Summers colocaria fogo no ginásio de sua escola, matando os vampiros que atacaram o baile e ainda forçando sua mudança para Sunnydale. No final dirigido por Kuzui, Buffy Summers veste uma jaqueta de couro por cima de seu vestido de saia bufante e parte na garupa da motocicleta de Luke Perry enquanto Susanna Hoffs canta uma musiquinha romântica.

Que Joss Whedon me perdoe, mas é um bom final de filme adolescente.

  1. Entrevista para Shawna Ervin-Gore, publicada pelo site da Dark Horse em 2001. []
  2. Entrevista para Tasha Robinson, publicada no site AV Club em 2001. []
  3. Ben Affleck também faz uma ponta no filme. []
  4. Vale a pena ver a cena na versão em quadrinhos “The Origin” (1999). []
  5. No seriado de TV, scoobies são os amigos de Buffy que ajudam na luta contra vampiros e outros demônios. O nome, é claro, é inspirado nos personagens do desenho Scooby-Doo, que investigam casos pseudo-sobrenaturais. []
  6. SMG estava completando 20 anos quando o seriado “Buffy, a caça-vampiros” estreou. []
Edição: Vol. 2 Nº 2 (mar/2012)
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Publicado em 12/03/2012, às 9:50.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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