Chuck versus a homenagem

Spoilers: O artigo abaixo contém spoilers das cinco temporadas da série “Chuck”.

“O co-criador Chris Fedak e eu costumávamos imaginar que se versões de nós mesmos aos 13 anos pudessem ver o seriado que estávamos fazendo, ficaríamos loucos.” (Josh Schwartz1 )

Encerrada em 2012 após cinco temporadas2, “Chuck” possivelmente será lembrada como uma pequena série de TV que viveu sempre na corda bamba e só passou do segundo ano após uma conhecida campanha organizada pelos fãs3. O que não deixa de ser uma injustiça: ao longo de seus 91 episódios, “Chuck” costurou momentos que mereciam ser lembrados como os de uma das melhores séries de sua grade.

A começar pelo piloto, que pode ter sido o melhor filme já dirigido por McG. Ok, isso não diz muita coisa4. Mas dosar os elementos de um episódio piloto não é tarefa simples, e “Chuck versus the Intersect”5 conta uma história com começo, meio, fim e muitas portas – para o que vem antes e para o que vem depois. A sequência com Bryce Larkin é digna de um blockbuster de ação – como esquecer a cena em que Larkin com sua camisa branca manchada de sangue corre à frente da explosão do computador do primeiro Intersect?

O piloto também acerta a mão na mistura de gêneros que marcaria toda a série. A história de “Chuck” tem um pouco de espionagem, muito de comédia romântica, algumas doses de ação, outro tanto de comédia pura e simples e até um pouco de drama familiar6. Como resultado, um único episódio podia misturar a carga emocional de Ellie Bartowski reencontrando seu pai no dia de seu casamento, após vários anos de separação, e um confronto armado ao som de Jeffster!7.

Outra boa herança do piloto foi a apresentação dos personagens centrais – beneficiados pela escalação acertada de atores, eles precisaram de apenas aqueles 45 minutos para estabelecerem suas personalidades e ganharem a simpatia do público. Ao longo das cinco temporadas seguintes, seus arquétipos iniciais – o geek, a espiã, o major – ganharam complexidade com a construção de seus passados8.

E, ainda que verossimilhança não pareça ter sido uma grande preocupação de Fedak e Schwartz, a trama manteve certa consistência ao longo das cinco temporadas, com bom equilíbrio entre missões e arcos. Aproveitando bem a mistura de gêneros, edições rápidas de ação e momentos mais sensíveis como o pedido de casamento de Chuck – que, após muito ensaio, acabou tendo como trilha sonora e primeiro plano a enceradeira do hospital, sem que os telespectadores pudessem ouvir a versão final do discurso9.

Mas talvez o maior mérito de “Chuck” tenha sido sua representação de uma geração. Chuck Bartowski é apresentado em seu aniversário de 26 anos – alguns anos mais jovem que os co-criadores da série10. Mas os sucessos culturais tinham ritmo mais lento e vida mais longa três décadas atrás, tal que muitas das referências incluídas por Fedak e Schwartz estejam no repertório de fãs nascidos até dez anos depois deles.

Por mais que o cenário de “Chuck” tenha iPhones e largemarts, seu roteiro tem elementos anacrônicos, com cara de guerra fria. Para um telespectador da faixa etária prevista, existe um pouco de familiaridade em cada história, no sotaque do vilão ou mesmo em seu intérprete. A lista de participações especiais começa com Scott Bakula (“Quantum Leap”) e Linda Hamilton (“O exterminador do futuro”), passa pelo 007 Timothy Dalton e conta ainda com Chevy Chase (“Fletch”), Brandon Routh (“Superman”), Carrie-Anne Moss (“Matrix”), Christopher Lloyd (“De volta para o futuro”11 ) e Mark Sheppard (obrigatório para qualquer produção voltada a fãs de ficção científica), além de uma breve aparição de Summer Glau como uma das “Gretas” da quarta temporada.

As referências apareciam em detalhes como o repertório do Jeffster!, a fantasia de sandworm de Morgan e Chuck, no pôster de “Tron” na parede do quarto e em citações12, e também na forma de elementos centrais do episódio, do videogame Missile Commander13 a cenas inteiras, como a referência a “Missão Impossível”14. A prática de referências e homenagens em “Chuck” foi tanta que houve até uma para “The O.C.”, seriado também criado por Schwartz15.

Mesmo que nenhum dos telespectadores fosse um espião internacional desativando bombas e salvando o mundo, era fácil se reconhecer em “Chuck”. A série celebrou o repertório cultural de uma geração, transformando nossos heróis de infância em conhecimento tão útil quanto os dados que a NSA e a CIA colocaram no Intersect.

Pareceu adequado, assim, que os episódios finais de “Chuck”16 tenham prestado sua homenagem à série, em especial ao piloto exibido cinco anos antes. A sequência mais impressionante foi a cena em que Sarah derrota cinco agentes inimigos repetindo a mesma coreografia de Bryce no piloto17. A mais divertida foi Sarah (e Chuck) de volta no uniforme da lanchonete Wienerlicious. A mais óbvia foi o uso do vírus de computador Irene Demova para desativar uma bomba. E a mais falada foi a cena final, em que Chuck e Sarah invertem seus papéis na mesma praia onde acabou o primeiro episódio.

Embora o final aberto de “Chuck” não tenha sido unanimidade entre os fãs, não deixa de ser interessante que a série que começou com Chuck “lembrando coisas que não deveria saber” tenha acabado com Sarah esquecendo de toda a sua vida nos cinco anos anteriores18

Pelo menos dentro do universo do Intersect, “Chuck” já ganhou o direito de ser usada como referência cultural.

  1. Ensaio para o site Entertainment Weekly. []
  2. Duas delas com apenas treze episódios: a primeira, no ano da greve dos roteiristas, e a última, contratada para permitir um fim à história. []
  3. Em 2009, fãs de “Chuck” direcionaram sua campanha não a executivos do canal NBC, mas à rede de fast-food Subway, que havia aparecido em cena de merchandising da série. O ator Zachary Levi aderiu à campanha e acompanhou centenas de fãs presentes em uma convenção na Inglaterra a uma lanchonete Subway, onde foi para trás do balcão e ajudou a montar sanduíches. []
  4. Principalmente considerando que McG é responsável por “Terminator Salvation”… []
  5. “Chuck”, 1–1 []
  6. Segundo Josh Schwartz, co-criador da série, ele acrescentou elementos de comédia ao conceito de thriller apresentado inicialmente por Chris Fedak (entrevista ao site PopGurls). []
  7. “Chuck versus the Ring” (“Chuck”, 2–22) []
  8. Mesmo Jeff Barnes teve flashbacks de sua juventude incluídos no episódio “Chuck versus Tom Sawyer” (“Chuck”, 2–5). []
  9. “Chuck versus the Push Mix” (“Chuck”, 4–13) []
  10. Chris Fedak nasceu em 1975, Josh Schwartz nasceu em 1976 e o fictício Charles Bartowski nasceu em 1981. []
  11. Lloyd interpreta um psiquiatra no episódio “Chuck versus the Tooth” (“Chuck”, 3–16) e é chamado várias vezes de “Doc.” []
  12. Talvez a mais conhecida seja a matrixiana “I know kung-fu”, quando Chuck recebe a nova versão do Intersect em “Chuck versus the Ring” (“Chuck”, 2–22). []
  13. “Chuck versus Tom Sawyer” (“Chuck”, 2–5) []
  14. “Chuck versus the Mask” (“Chuck”, 3–7) []
  15. As cenas apareceram em “The Countdown” (“The O.C.”, 1–14) e “Chuck versus the sandworm” (“Chuck”, 1–6) []
  16. “Chuck versus Sarah” (“Chuck”, 5–12) e “Chuck versus the Goodbye” (“Chuck”, 5–13), exibidos na sequência []
  17. Vale repetir: a sequência era mesmo digna de um blockbuster. []
  18. Para os românticos, ficam aqui mais duas referências: em “Dollhouse”, Sierra e Victor se encontravam apesar de qualquer implante de memória; em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, Joel e Clem repetem inadvertidamente o primeiro encontro apagado clinicamente. []
Edição: Vol. 2 Nº 1 (fev/2012)
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Publicado em 27/02/2012, às 10:58.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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