A ciência do desencalhe

Se você fica aterrorizado pela mera ideia de passar ao lado do amor de sua vida e continuar andando, a ficção científica já tem o produto ideal para você! Trata-se do TiMER, o implante que rege as ações do filme de mesmo nome1. Por um pequeno investimento (e módicas tarifas mensais), um gadget implantado no seu antebraço indicará quanto tempo falta até que você encontre sua alma gêmea. E, depois que a contagem zerar, o feliz futuro casal ainda tem o privilégio de ver seu TiMER apitando indiscretamente no momento em que eles finalmente se conhecerem.

Interessado na ideia? Lamento dizer que a realidade ainda não desenvolveu um instrumento que cientificamente descubra a tampa da sua panela após ler a sua biologia. Mas pensadores e inventores estão trabalhando duramente nesse importante campo científico do felizes-para-sempre. Bom, mais ou menos…

O gadget
No final da década de 1990, chegou ao mercado japonês um aparelhinho chamado Lovegety2. Com versões masculinas e femininas, o funcionamento era simples: o dono do Lovegety selecionava o que estava procurando – “apenas amigos”? alguém para duetar no karaokê? o amor da sua vida? – e o gadget piscava e apitava quando encontrava um Lovegety compatível em um raio de 5 metros.

O Lovegety não era exatamente barato – o equivalente a 25 dólares, na época do lançamento –, mas o preço não chegava a ser proibitivo e as vendas foram animadoras: em apenas dois meses e meio, 350 mil unidades foram despachadas3. Inicialmente pensado para adolescentes, talvez aqueles mesmos que haviam se cansado do Tamagotchi, o aparelhinho também conquistou usuários mais velhos enquanto a moda durou.

Mas se o constrangimento e o modelo lembravam um pouco a ideia do TiMER, a tecnologia do Lovegety deixava muito a desejar. Como as opções de configuração eram poucas, ele não encontrava alguém que combinava com você, mas sim alguém que estava entediado ou à toa como você.

O app
O Lovegety era um tanto primitivo, mas sempre é possível um upgrade. Em 2004, um grupo de cientistas do MIT estava desenvolvendo um software chamado Serendipity4 que tentava resolver o mesmo temor dos usuários fictícios do TiMER: passar batido por sua alma gêmea em uma rua movimentada.

Em vez de mais um gadget para ser carregado, o Serendipity funcionaria como um software instalado no telefone celular. Os usuários, pagando taxa de manutenção, preencheriam suas informações pessoais em um banco de dados. O software, por meio do sistema Bluetooth, seria capaz de localizar usuários compatíveis em um raio de 10 metros.

A pesquisa do MIT tinha parceria do sistema Symbian, da Nokia – o que não deve ter ajudado muito. Mas e se o software casamenteiro fosse um app de iPhone tão popular quanto o game Angry Birds? Pois a Apple já teria pedido a patente de uma rede para notificar pessoas com interesses compatíveis na mesma região. As combinações se beneficiariam dos dados que já fornecemos aos nossos celulares: as músicas que ouvimos, os locais que frequentamos, as fotos que tiramos…

Só que esses apps exigem bastante da bateria do seu smartphone. Quem vai deixar o Bluetooth, o 3G e o GPS constantemente ligados?

O algoritmo
Ouvir música no carro e escolher o filme do cinema são questões importantes, mas existem outras coisas em jogo. Milhões de pessoas assistiram “O senhor dos anéis”, mas nem todas elas combinam com você.

Pensando nisso, sites de namoro – esses mais modernos – vão muito além do seu perfil público na hora de sugerir seu par perfeito. Os principais sites contam com sociologistas e antropologistas desenvolvendo algoritmos para combinar seus usuários. Um dos métodos mais conhecidos é o do eHarmony, com seu questionário interminável: são mais de 250 perguntas para entrar no celeiro. A eficácia do sistema não é cientificamente garantida – nenhum desses algoritmos foi submetido à revisão pelos pares5 –, mas pode ser argumentado que alguém que responde a tantas perguntas está disposto a investir seu tempo na busca.

Menos romântico e mais curioso, o blog OkTrends descobre e publica relações entre perguntas aparentemente despretensiosas e a personalidade dos usuários do site OkCupid. Segundo o site, quem gosta do sabor da cerveja é também mais aberto a sexo no primeiro encontro, e ateus são menos tolerantes a erros gramaticais. Usuários de iPhones têm mais parceiros sexuais (mesmo que o app da Apple ainda não exista!6), e homens fazem mais sucesso com uma foto ao lado do cachorro do que exibindo a barriga de tanquinho.

As informações do OkTrends podem não garantir a felicidade conjugal, mas podem ajudar a movimentar um pouco sua vida social.

Os estudos
Os algoritmos dos sites de namoro não passaram pelo crivo da comunidade científica, mas muitos estudos sobre relacionamentos e sexo andam circulando nos periódicos científicos.

Existem pesquisas sobre o poder da cor vermelha (e isso vale até para uniformes de futebol!), sobre nossa preferência pela simetria (que é um bom indicador da qualidade biológica do parceiro) e sobre as vantagens da monogamia… para os homens. Homens não buscam parceiras mais novas por falha de caráter, mas para aumentar as chances de sobrevivência de seus genes. E mulheres podem aplicar teorias de mercado para conseguir um companheiro mais vantajoso, ainda que ele seja alguns centímetros mais baixo.

As mudanças culturais podem influenciar nosso comportamento, mas ainda dá para aproveitar o que sabemos de nosso lado animal para melhorar nossas chances na balada7. Estudar, afinal, pode ser sexy.

O DNA
O TiMER não fazia perguntas e não queria saber se você gosta mais de Adele ou se estava escondendo que tinha Westlife na sua playlist. Ele simplesmente encontrava as informações que precisava ao ser implantado no braço do usuário.

Será que é possível ser simples assim? Há quem diga que sim.

Uma década depois do Lovegety, empresas como ScientificMatch e GenePartner levaram a busca pela alma gêmea a um patamar supostamente científico. As empresas analisam o material genético do casal para determinar sua “compatibilidade biológica”.

O teste se concentra no antígeno leucocitário humano (HLA), uma molécula relacionada ao nosso sistema imunológico. Segundo o serviço, nossa outra metade tem sistema imunológico complementar ao nosso, garantindo a diversidade genética para uma prole mais saudável.

Se você não acha isso muito romântico, pense que os estudos relacionados a essa teoria incluem aqueles em que as mulheres analisam a camisa suada do seu amado e de outros homens. Ok, isso é um pouco nojento. Pense que por módicos 250 dólares você pode descobrir um pouco mais sobre o perfil imunológico de alguém.

Não deve ser pior do que confiar em horóscopo.

  1. “TiMER”, 2009. []
  2. O fabricante era a empresa Erfolg, que também produzia o popular Tamagotchi. []
  3. Love: Japonese Style”, na revista New Scientist (novembro/1998) []
  4. Social Serendipity, do MIT Media Lab: Reality Mining []
  5. Peer-review é o método aceito no meio acadêmico para determinar se uma pesquisa tem validade. Um artigo científico só é publicado em periódicos respeitados se é aprovado pelos pesquisadores que compõem seu corpo de revisores e editores. []
  6. Existem outros, afinal… []
  7. Um bom começo é o livro “Decoding Love”, de Andrew Trees. Pode não ter a receita definitiva, mas é uma coleção de curiosidades para iniciar uma conversa. []
Edição: Vol. 1 Nº 20 (nov/2011)
Tags:
Publicado em 28/11/2011, às 11:39.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

O que você achou?

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>