A disputa mais difícil da televisão

Tudo começa na preparação: a escolha da roupa perfeita, da música perfeita – e muito treino. Quem passa da pré-seleção com os produtores assalariados poderá fazer o teste em frente aos jurados. Alguns avançam para a próxima rodada: mais uma bateria de testes. Enfim, uns poucos selecionados terão pela frente o privilégio e a missão (ou obrigação) de encantar o público para sobreviver até a próxima semana. E talvez um deles tenha mais do que 15 minutos de fama.

Em linhas gerais, este é o caminho de um “American Idol”. Mas os aspirantes a ídolo pop não estão sozinhos nas durezas do showbusiness. Ou você nunca pensou sobre a difícil e breve vida de uma série de televisão?

Tudo começa com uma ideia, mas uma ideia bem lapidada e apresentada para um canal. Se a ideia agradar, um roteiro é encomendado. Se o roteiro agradar, um piloto é encomendado. O episódio piloto é então devidamente testado e avaliado.

Vamos imaginar que o nosso piloto é um daqueles com potencial. A série é escolhida para entrar na próxima grade do canal. Sucesso! Ou não…

Aquela ideia que virou um roteiro que virou um episódio se reinventou para acatar cada sugestão dos jurados. E então virou uma série de TV. Mas a competição está apenas começando: agora, outras ideias cheias de potencial estão disputando todos aqueles telespectadores com mais de 18 e menos de 50 anos. Se o público não encantar, nem precisa aparecer semana que vem!

Foi assim em 2011 com “The Playboy Club” (NBC), “Free Agents” (NBC), “How to be a gentleman” (CBS) e “Charlie’s Angels” (ABC) – todas elas canceladas antes mesmo de completarem um mês de exibição. Os cancelamentos de 2011 estão apenas começando, mas os números de 2010 podem dar uma ideia do que aguarda a nova série preferida de cada um.

As chances
Os “cinco grandes” da TV norte-americana – os canais ABC, CBS, CW, Fox e NBC – exibiram 83 séries roteirizadas e de live-action1 no horário nobre da temporada 2010/20112. E nada menos do que 34 delas foram canceladas.

Isso significa que apenas 55,42%3 das séries que estavam presentes na grade de 2010/2011 sobreviveram para contar mais uma história. Se as chances não parecem boas, a notícia é ainda pior para as séries estreantes: apenas 10 dos 40 lançamentos ganharam lugar na temporada 2011/2012. E, das cinco “veteranas” canceladas, três haviam chegado por pouco à segunda temporada: “V” (ABC), “Life Unexpected” (CW) e “Human Target” (Fox)4

Em qual temporada estava cada seriado? (2010/2011)

Os carrascos
“Fox, sua malvada, matando tudo o que eu amo!”

Se você já pensou essa frase, saiba que não está sozinho. Mas saiba, também, que está exagerando.

Para começar, cancelar um seriado é malvadeza contra o próprio canal. Cada seleção de pilotos, cada temporada encomendada, cada campanha de divulgação são gastos que o canal gostaria muito de poder recuperar com seus novos filhotes. Mais do que isso: cada série cancelada é também a necessidade de repetir esse processo.

Racionalmente, o cancelamento de uma série após apenas um par de episódios é até compreensível. Os fãs podem pedir que o canal espere um programa encontrar o seu público, mas a tendência comum é a queda de audiência. As pessoas param de assistir uma série porque encontraram novos compromissos, porque se cansaram de uma história, porque gostavam mais do elenco original. Enquanto isso, são poucos os que decidem adotar um seriado sem conhecer a história dos episódios que já passaram.

Mas a Fox, que já matou tantas séries que eu amava, não é uma ilha de crueldades. Considerando apenas as estreias da temporada 2010/2011, a Fox salvou duas de suas seis apostas. Aproveitamento parecido teve a poderosa CBS: três de oito séries novas sobreviveram. A ABC foi mais dura e manteve apenas duas das dez séries que estrearam naquela temporada. Mas carrasca mesmo foi a NBC: “Harry’s Law” foi a única das 12 novidades que ganhou uma segunda temporada5. O canal CW teve apenas duas estreias nas condições determinadas, e deu continuidade a uma delas.

Não que a Fox tenha sido muito boazinha: naquela temporada o canal teve mais séries canceladas do que renovadas.

Quais canais cancelam mais? (2010/2011)

Os condenados
Olhar apenas para uma temporada não indica tendências ou apostas certas, mas existe um pouco de equilíbrio. Mais dramas são produzidos, e mais dramas são cancelados. Mais séries policiais são exibidas, e mais séries policiais são condenadas.

Existe um gênero mais ameaçado? (2010/2011)

Qual era a temática central da série? (2010/2011)

Culpa do gênero? Culpa do formato? Culpa do assunto? Culpa do canal? Se você perguntar, o canal pode até responder que foi culpa da audiência. Não precisa nem ser uma questão de qualidade: séries ruins são canceladas, mas séries ruins também sobrevivem para contar mais uma história.

Talvez não seja culpa de ninguém. Séries são criadas para participarem da competição do horário nobre, em mais uma versão da seleção natural. O espetáculo involuntário da televisão é descobrir quais gladiadores venceram.

  1. Foram excluídos, portanto, transmissões esportivas, programas jornalísticos, séries de animação e reality-shows. A listagem de séries consideradas neste artigo está disponível para consulta. []
  2. No calendário dos EUA, as novas temporadas costumam ser iniciadas na “fall season”, entre setembro e novembro, com mudanças já programadas para o “midseason”, entre janeiro e maio []
  3. Dos 83 seriados observados, 46 foram renovados. Três séries não foram classificadas como “renovadas” ou “canceladas”: “Smallville” (CW), que encerrou sua última temporada prevista, “Combat Hospital” (ABC), ainda em situação indefinida, e “Flashpoint” (CBS), produção canadense que ainda é exibida por um canal norte-americano menor e pela CTV, do Canadá. []
  4. As outras duas vítimas foram “Lie to Me” (Fox), após três temporadas, e “Brothers & Sisters” (ABC), que estava em seu quinto ano. []
  5. Foi um ano realmente difícil para a NBC, com fiascos como “The Cape”, “The Event” e “Undercovers”… []
Edição: Vol. 1 Nº 18 (out/2011)
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Publicado em 17/10/2011, às 11:15.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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4 comentários sobre A disputa mais difícil da televisão

  1. Excelente matéria.

    Confesso que ainda não entendo o cancelamento de The Chicago Code e The Event. E pelo andar da carruagem, acho que Fringe não passa desta temporada.

    Sds.

    • Olha… insisti nos 22 episódios de “The Event”, mas achei que o cancelamento foi praticamente um tiro de misericórdia. (Já “Fringe” seria uma pena.)

      • E das atuais? Já descartou quantas? Ringer não passou nem do segundo episódio aqui.

        Ps: Achei esta matéria tão interessante que coloquei um link no meu blog com os devidos créditos, ok?

        • Estou indo com muita calma com as novas. Desisti de “New girl”, continuo com “Two broke girls”. E “Suburgatory” — pelo menos até “Awkward” voltar. Tem “The Secret Circle”, e a espera por “Grimm” e “Once upon a time” (que podem ser muito ruins). Insisto em “Ringer” por conta da SMG — e de Guy and Dolls. Também insisto em “Hart of Dixie”, sem nenhum motivo aceitável. Honestamente, a que eu espero com mais ansiedade entre as novas é a improvável “Revenge”.
          Tem mais umas três que eu não comecei porque o tempo livre acaba e ainda estou esperando “Awake”, “Touch”, “Alcatraz”, “House of lies”, “Apartment 23”…