Aquilo que esquecemos que somos

Spoilers: Este artigo descreve elementos do enredo do filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.

“Dê uma chance para drogas que alteram a memória”, pede Adam Kolber1. O professor de Direito usou suas duas páginas da Nature para argumentar que o medo da possível manipulação não-autorizada da memória está prejudicando os milhões reais de pessoas que já sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (PTSD). Afinal as terapias utilizadas para tratar pacientes com PTSD são longas, difíceis e têm eficácia limitada2.

Mas o artigo parece não ter sido muito convincente. A mesma edição da Nature destacava na capa uma pesquisa sobre partículas suspensas em líquidos, e também divulgava descobertas sobre bolhas de Lyman-? e glaciologia – e nada recebeu tanta atenção quanto o comentário de Kolber. Talvez porque nossa memória seja mais preciosa para nós do que toalhas manchadas de café ou plataformas de gelo da Antártida.

É em nossa memória que guardamos quem somos. Supostamente3, pelo menos.

Tanto é que manipulação da memória divide com “clonagem” e “seleção genética” a galeria de avanços científicos que inevitavelmente nos levarão ao apocalipse. A robótica é ambígua: podemos ser destruídos pela Matrix (1999) ou pela Skynet (“O exterminador do futuro”, 1984), mas também podemos contar com vidas mais confortáveis ao estilo Jetsons. O mesmo vale pra viajar no tempo e conhecer o futuro: até existe algum perigo, mas os envolvidos costumam conquistar a nossa simpatia. E o carro voador é uma unanimidade – ou alguém levaria a sério um filme sobre os perigos do congestionamento nas alturas? Mas não tente acabar com a única certeza que temos: nós pensamos, nós lembramos, e nós existimos.

Quem sou eu?
Nos casos mais radicais da ficção, o herói precisa redescobrir sua identidade após ter sua memória apagada. Em situações mais realistas, o desmemoriado seria orientado por sua família e amigos, pelas informações que existem no “sistema”. E aí haja terapia para conciliar o que sobrou – o que ele ainda é – com o que existia – aquilo que ele costumava ser.

Mas esse cenário é, por falta de palavra melhor, chato. Falta uma perseguição em alta velocidade, falta um atentado a balas, falta uma viagem a Marte4. Falta thriller.

Felizmente (ou seria infelizmente?), nem todos podemos ser Jason Bourne (“A identidade Bourne”, 2002). Ser apagado da própria memória, da memória coletiva e, principalmente, da memória institucional seria uma façanha digna de uma coleção inteira de conspirações5. Os Pretorians podem ter conseguido se infiltrar nos sistemas do governo para alterar a identidade de Angela Bennett em “A Rede” (1995), mas será possível eliminar todas as pegadas de um indivíduo em tantas redes colaborativas?6

Amnésia sob medida
Os paralelos com a ficção inspirados pelo artigo de Kolber usaram, em sua maioria, o filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004). Afinal, estamos falando de apagar lembranças específicas, e não todo o hard-drive.

Para quem esqueceu da história de “Brilho eterno…” – e para quem esqueceu de assistir –, o filme é protagonizado por um cara um tanto normal que se submete aos serviços de uma clínica especializada em esquecimento após ter sido deletado da memória de sua ex.

É claro que apenas manipular a mente não é suficiente: se a clínica Rekall se incumbia de providenciar souvenirs que comprovassem uma memória implantada, a clínica Lacuna7 recolhe diários, fotografias e objetos relacionados à memória apagada e ainda envia cartas explicando a situação e pedindo a colaboração dos amigos e familiares.

O problema é que manipular a mente e os objetos continuam insuficientes. Em “Brilho eterno…”, a resistência de Joel não consegue evitar que as memórias de seu relacionamento com Clem sejam apagadas. Não há dúvidas: o serviço foi tão meticuloso que ele até mesmo se esqueceu da música “Oh my darling Clementine”. Mas Joel e Clem replicam seu encontro e os primeiros passos de seu antigo relacionamento mesmo assim8.

A mensagem recorrente na ficção é de que aquilo que sentimos não se encontra encapsulado em nosso cérebro. Mas nem mesmo “Feitiço do Coração” (2000) teve a coragem de defender que nossos sentimentos são transplantados junto com o coração. Assim, somos um todo maior do que a soma de nossas partes – pelo menos na ficção.

Não se esqueça de se esquecer
Na vida real, no entanto, somos menos do que a soma de nossas histórias. Nossa capacidade de articular presente e futuro não seria possível se não deixássemos o passado, bem, no passado9.

Nossos relacionamentos dependem do que escolhemos lembrar e do que escolhemos esquecer sobre cada pessoa – é o lembrar e esquecer de episódios específicos que fazem com que uma pessoa seja vista como gentil ou como irritante. Em “Brilho eterno…”, Joel encontra em suas memórias uma visão de Clem, e não a Clem verdadeira.

De forma coletiva, ter memória é não repetir erros. Vale para o holocausto (esperamos), vale para a bomba atômica (ou deveria). Isso também pode ser aplicado a um indivíduo: Mary, a recepcionista da Lacuna, também precisou ter conhecimento de seu passado apagado para começar a superar sua admiração (e paixonite) pelo Dr. Howard Mierzwiak.

Mas Joel e Clem é um erro que queremos ver repetido. A mesma Mary terá que esquecer mais uma decepção se quiser tentar um novo relacionamento. Assim como uma pesquisa sobre energia nuclear precisar superar os traumas da bomba, embora mantendo a experiência do perigo.

Talvez recordar seja ter vivido, e esquecer seja viver.

  1. Kolber, Adam. Neuroethics: Give memory-altering drugs a chance. In: Nature 476 (2011), 275–276. []
  2. Conway relata o caso de um motorista traumatizado por um acidente no qual ele não estava dirigindo. Mesmo após terapia cognitivo-comportamental (CBT), que exige que ele reviva o momento do trauma, o paciente não só não foi capaz de voltar a sua profissão como também precisou de mais terapia para conseguir entrar em um carro (Conway, Martin A. “Memory and the self”. In: Journal of Memory and Language, 53 (2005) 594–628). []
  3. Kihlstrom, John F.; Beer, Jennifer S.; Klein Stanley B. “Self and Identity as Memory”. In: Leary, M. R.; Tangney, J. P. (ed) Handbook of Self and Identity. Guilford Press, New York, 2005. []
  4. Apenas a provocação de “We Can Remember It for You Wholesale”, de Philip K. Dick, não foi suficiente para o blockbuster “O vingador do futuro” (1990), que precisou rechear a história com cenas de ação. []
  5. As séries “Um homem sem passado” (1995–1996) e “John Doe” (2002–2003) também abusaram de conspirações para que o protagonista não apenas não tivesse memória de quem era, mas para que ninguém mais tivesse memória deles. Nenhuma das duas conseguiu terminar de contar a história e, assim, resgatar o passado e a identidade dos personagens. []
  6. Viktor Mayer-Schönberger até tenta inventar mecanismos de esquecimento em Delete: the virtue of forgetting in the digital age (Princeton University Press 2009). []
  7. O problema embutido na argumentação de Kelber é que algumas drogas aprovadas já têm efeito na memória, enquanto o veto à manipulação farmacêutica tem como consequência a falta de regulamentação. Não regulamentar a manipulação da memória é confiar em uma clínica que vende um serviço executado por técnicos um tanto suspeitos após uma consulta superficial com o médico. []
  8. Assim como Sierra e Victor sempre se encontrariam em “Dollhouse” (2009–2010), não importa quantas vezes novas memórias fossem implantadas e apagadas. []
  9. A dificuldade do não-esquecer têm espaço na não-fição com a autobiografia de Jill Price (The woman who can’t forget: the extraordinary story of living with the lost remarkable memory known to science, 2008) e na ficção (com o conto de Jorge Luis Borges “Funes el memorioso”, 1944). []
Edição: Vol. 1 Nº 15 (set/2011)
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Publicado em 5/09/2011, às 9:35.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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