River Tam não traz ordem ao caos

Um rabino, um padre e um monge entram em um bar. No balcão, River Tam permanece paralisada encarando os monitores por meros 30 segundos. Antes que qualquer um dos presentes possa pedir sua bebida e completar o que possivelmente seria o cenário de uma piada moderadamente engraçada, River os nocauteia sem razão. No centro do bar, nos confins do espaço, a jovem de aparência frágil permanece desarmada e vitoriosa no meio de uma luta que ninguém, além dela própria, provocou.

No universo de “Firefly”, série criada por Joss Whedon em 2002, River Tam não tem oponentes à altura em nenhuma parte do cosmos. Interpretada por Summer Glau, a perturbada adolescente a bordo da nave Serenity passou por poucas e boas nas mãos da Aliança dos Planetas Unidos. Separada de seu irmão mais velho Simon, River foi conduzida até uma das mais prestigiosas Academias da galáxia na esperança de ser educada pelos mestres mais sábios que a fortuna de sua família poderia comprar. Entretanto, a pequena River teve sua liberdade cerceada silenciosamente, sendo forçada a crescer sob a intervenção de médicos e cientistas que, além de experimentarem com seu corpo e mente, foram os responsáveis por mutilarem seu cérebro, deixando-a sem controle de suas próprias memórias e emoções.

Desprovida de um conduíte psicológico que a ligasse à realidade, River Tam não saberia diferenciar figuras religiosas pacíficas de brigões truculentos procurando confusão, já que sua programação inconsciente de defesa e ataque pode ser disparada a qualquer minuto pelos seus antigos captores na forma de uma mensagem subliminar transmitida para os confins do sistema. Exposta, mas nunca indefesa, a mais jovem tripulante da Serenity não pode ser levada na brincadeira.

Nenhum poder no Universo pode detê-la
Levando em conta o que sabemos sobre River, será possível que essa frágil adolescente tenha mesmo os elementos capazes de torná-la a mais perigosa e poderosa lutadora do Universo? Para especularmos coerentemente sobre isso primeiro precisamos saber: o que faz de uma lutadora alguém imbatível?

Assumindo que o que entendemos por “luta” se concentra na ideia de “duelo de forças”, River Tam não parece, à primeira vista, um oponente ameaçador. Sua altura é insuficiente, seus braços parecem frágeis e mesmo com os punhos fechados seus socos talvez não derrubassem opositores fisicamente avantajados.

Entretanto, energia física pode não representar vantagem imediata contra alguém que, como River, sabe utilizar a força do oponente contra ele. Não apenas isso, River conta com um conjunto de técnicas marciais injetado em seu cérebro pelos cientistas da Aliança na tentativa de, possivelmente, transformá-la num supersoldado destinado às linhas de frente nas guerras travadas pelos Planetas Unidos. Entre kung-fu, kickboxing e sua flexibilidade natural, River é possuidora de um conjunto invejável de habilidades corporais que não exigem de seu cérebro concentração ou foco elas se combinam inconscientemente em uma única e impenetrável estratégia de defesa.

Se no combate corpo-a-corpo, a irmã do Dr. Simon é consideravelmente difícil de encarar, o que impede seus adversários de utilizarem meios indiretos para enfrentá-la? Armas de fogo não faltam no universo de “Firefly”, e River não é uma estranha aos disparos inimigos onde quer que ela esteja.

Quando apresentada com a hipótese de se engajar em um duelo de armas de fogo (“War Stories”, 1×10), River foi capaz de acessar mais um terreno inexplorado de sua personalidade fragmentada. Impossibilitada de encarar o conflito com seus próprios olhos, a adolescente teve que fechá-los quando se viu forçada a pegar em armas. Cega, ela foi capaz de disparar apenas tiros certeiros contra seus oponentes, o que lhe garantiu um súbito rompante de confiança.

Como disparar armas de fogo contra alguém que consegue devolver os tiros sem encarar seus alvos diretamente? No pacote de experimentos realizados pela Aliança, River não apenas foi apresentada a um sortilégio de artes marciais, mas também estimulada além dos limites humanos a desenvolver uma espécie de presciência psíquica. Capaz de visualizar seus alvos puramente em seu cérebro, River não precisa usar seus sentidos físicos para disparar armas.

É com a combinação de sua afiada capacidade intelectual à enigmática capacidade de ler mentes que River é capaz de prever movimentos e acertar alvos apenas se concentrando neles.

“Eu posso matá-lo com meu cérebro”
Com o combate corpo-a-corpo e o ataque a distância dificultados, nos resta tentar enxergar limites nas habilidades precognitivas de River Tam. Possivelmente, explorar sua falta de autocontrole talvez fosse o caminho a ser seguido rumo à vitória num confronto com ela. Porém, é devido a esse descontrole emocional que a mente de River pode sintonizar o mundo ao seu redor com tanto apuro. Seu poder sem limites de leitura de mentes se converte habilidosamente na capacidade de não apenas absorver informações do seu entorno, mas prever intenções que podem surgir pelo caminho. A presciência torna-se premonição e se expande de forma incomensurável.

Quando River ameaça Jayne no décimo primeiro episódio de “Firefly” (“Trash”, 1×11) afirmando intimidadoramente que pode matá-lo “somente com seu cérebro”, a fugitiva mais procurada da galáxia não está fazendo referência apenas a um pseudo-poder letal que emulasse a Força dos Jedi ou a telecinese dos mutantes da Marvel. Apesar de “Firefly” não estar imune às possibilidades de tais poderes existirem pelo universo, tudo nos leva a crer que a capacidade letal de River não está na manifestação de tais aptidões, mas no fato de ela ter consciência de que sua mente é talvez a mais perigosa de todas as armas já criadas. Afinal, ao ser capaz de prever as intenções de todos ao seu redor, River também pode se colocar no papel de manipuladora dos eventos, de forma a orientá-los para que cheguem artificialmente a um resultado desejado.

Se voltarmos ao bar, com River parada entre as tais mesas empoeiradas nas quais estranhos entornam garrafas das mais exóticas bebidas conhecidas, e tivermos um grupo de pessoas disposto a confrontá-la, podemos agora pesar o pouco que sabemos para prever o resultado do conflito.

Por exemplo, se no grupo tivermos os mais habilidosos soldados da Aliança, River poderá combinar seu conhecimento inerente de múltiplas artes marciais com o conhecimento trazido psiquicamente pelo conjunto de atacantes, anulando suas tentativas de derrotá-la já de início.

Se atiradores estiverem posicionados na linha de tiro para matá-la, River poderá prever o rumo e a velocidade de disparo com tempo de sobra pra escapar da saraivada da balas. Com um mínimo esforço, ela própria poderá obter uma das armas inimigas e devolver os tiros com a certeza de que todos eles atingiram seus amigos.

E finalmente, se alguém com habilidades que desafiem o convencional surgir para desfechar um inesperado ataque surpresa, River Tam é capaz de não apenas compreender a natureza dos poderes obscuros, como utilizar seu conhecimento das intenções de todos ao seu redor para manipular eventos e probabilidades de forma que seu inimigo especial padeça, possivelmente, em detrimento de suas próprias habilidades sobrenaturais.

Ela pode não ter as habilidades do Batman, a força da Buffy, poderes místicos ou armas de última geração, entretanto, River foi programada para utilizar as vantagens de seus oponentes contra eles próprios.

Criada pela Aliança, mas incapaz de se submeter a ela, River é a arma perfeita que, como toda arma, foi construída para servir ao propósito de seu criador, mas graças às peculiaridades de seu complexo design, ganhou uma espécie de consciência onisciente, capaz de torná-la impossível de ser controlada por quem quer que seja. River Tam transformou-se, portanto, em uma força que está incompreensivelmente a serviço do caos.

Edição: Vol. 1 Nº 14 (ago/2011)
Tags:
Publicado em 22/08/2011, às 9:00.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

O que você achou?

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>