(Começam os Jogos.) Fica o vazio

Spoilers: O artigo não traz detalhes sobre a trama, mas apresenta características de personagens e dá indicações sobre o desenvolvimento da história na trilogia.

Faltavam alguns minutos para a meia-noite e eu andava perdida pela casa. Havia acabado de terminar mais um capítulo de algum dos livros da trilogia “The Hunger Games”, de Suzanne Collins. Final de capítulo, em geral, é um marco simples para interromper uma leitura que já avança além dos limites das horas de um dia de trabalho. Final de capítulo também serve para dar mais vontade de ler o seguinte, dando continuidade ao último cliffhanger. Mas este final de capítulo foi diferente – ele terminou com a certeza de que eu não conseguiria continuar lendo, não naquele momento. Eu não estava preparada para qualquer resposta que esperava por mim no capítulo seguinte. Como Joey Tribbiani, eu queria colocar aquele livro no freezer.

Mas esse livro não foi para o freezer. Ele ficou na estante, olhando para a cama enquanto eu tentava dormir.

Só que eu não conseguia dormir. Eu não conseguia ler mais – naquele momento, pelo menos –, mas tampouco conseguia dormir. O máximo que dava para fazer era controlar uma crise de choro – daquelas com soluço – e ficar só em um choro mais ou menos digno. E por “digno”, entendam “que não chama muita atenção”.

Porque uma coisa é ter um acesso de choro no meio do capítulo, enquanto as pessoas ao redor têm a decência de fingir que não estão vendo. O terror, a fome, a morte acontecem no tempo da leitura. Mas como explicar aquela insônia e aquela choradeira quando as palavras estavam bem escondidas entre as capas duras?

Eu conheço bem as explosões emotivas da ficção – aquela lágrima perfeitamente não-constrangedora de quem está vendo as cenas finais de “Sunshine” (2007) ou aquele desespero claramente aceitável de quando se deixa de ser uma folha ao vento. Mas “The Hunger Games” era diferente.

Existem duas categorias principais do choro de ficção: o da identificação (de sentir o que o personagem sente) e o da amizade delirante (de sentir a perda daquele personagem quando ele é morto ou quando a aventura acaba). Mas nenhuma se aplica a “The Hunger Games”.

Por mais que você queira se identificar com Katniss Everdeen ou com Peeta Mellark, é bastante improvável que você encontre dentro de si mesmo tanta coragem ou tanto amor. Mesmo que eu tentasse fingir que em uma situação igualmente extrema eu seria capaz de me oferecer para proteger com minha vida (e sanidade mental) qualquer outra pessoa, eu não poderia fingir o mesmo instinto e habilidades de sobrevivência de nenhum dos dois.

Não, eu não sou Katniss, e não sou Peeta. Não sou bondosa e adorável como Primrose Everdeen, ou como Rue. Não sou forte como Haymitch Abernathy, Finnick Odair e Johanna Mason, cada um à sua maneira.

E, não sendo Katniss ou Peeta, não sou capaz de criar amizades naquela batalha por sobrevivência. Talvez ainda não pense como uma jogadora, já antevendo o momento em que teria que descartar aliados na hora de ser a última sobrevivente. Mas eu já os conhecia esperando o momento de dizer adeus – como poderia investir muito nessas “amizades”?

Tinha um pouco da terceira categoria – uma admiração tão grande que você inevitavelmente lamenta a perda, por mais que tentasse erguer muros fictícios de proteção.

Mas “The Hunger Games” inaugurou uma quarta categoria do choro da ficção. Eu não estava chorando por Katniss, Peeta, Prim, Gale, Haymitch, Cinna ou Madge – eu estava chorando (e com soluços) por mim mesma.

Enquanto a identificação com Katniss é inviável, existe uma relação muito mais fácil e assustadora. Não, eu não sou a liderança sinistra de Snow ou de Coin. Eu sou algo muito pior: eu sou uma cidadã de Capitol. Talvez não uma que participe de banquetes no estilo romano, daqueles em que você vomita para continuar provando todos os pratos daquele cardápio interminável. Definitivamente, não uma que negocie um caso com o cobiçado vencedor do Distrito 4. Possivelmente uma que tenha uma daquelas casas idênticas, talvez mesmo aquela mais barata, com um banheiro a menos e que serve de acesso para quem trabalha nas redes de água, esgoto e energia. Eu sou uma cidadã de Capitol.

E é por isso que o choro persiste, e persistiria mesmo que o livro estivesse no freezer. As páginas podem estar escondidas entre as capas do livro preso na estante, mas a cidadã de Capitol está sempre comigo.

Até “The Hunger Games”, o vazio chegava depois da última página. Acaba a Copa do Mundo, fica o vazio (na agenda). Acaba “Harry Potter”, fica o vazio (afetivo). Mas, desta vez, o vazio começou bem antes da última página. Não na primeira, quando eu ainda não tinha consciência do que era Panem, mas no momento em que Capitol e seus habitantes me foram apresentados, antes mesmo que os jogos começassem.

Durante a leitura, enquanto metade do meu cérebro se ocupava com Katniss escapando da morte nas mãos de tributos e armadilhas, a outra metade se preocupava com meu duplo papel de leitora de “The Hunger Games”, o livro, e observadora dos Jogos Vorazes, a competição. E mesmo se todo o meu cérebro se dedicasse à tarefa, não seria capaz de tornar os Jogos Vorazes aceitáveis se disputados apenas pelos carreiristas.

Mas os cidadãos de Capitol não passam por provações, pelo menos até que a saga estivesse bem avançada. Até que a situação política já precária de Panem se tornasse insustentável, a vida se preenchia com concursos televisivos (e sua versão “All Stars”) e com uma reclamação ou outra sobre o preço da picanha ou do iPad, digo, sobre a falta de camarão e chips de música na hora de organizar uma festa de aniversário. Então de onde vem aquele choro de auto-piedade?

É aqui que fica claro que esse choro de ficção não pertence à categoria de identificação. Eu não estava me emocionando por causa da situação dos cidadãos de Capitol – eu chorava por compreender que sou um deles.

Mesmo em capacidade plena meu cérebro não consegue disfarçar que esta cidadã de Capitol assistiu o resgate de mineradores ao vivo pela televisão e até se emocionou com suas histórias, mas não se preocupa com minas nos demais dias do ano e não tem planos de fazer qualquer coisa a respeito disso.

Uma revolução é suja, bagunçada, violenta, sangrenta e simplesmente perigosa demais. Você apenas estoca comida e se protege em sua casa, pelo menos até que ela chegue às suas portas e você precise se esconder em outro lugar.

A revolução pertence aos Distritos.

Edição: Vol. 1 Nº 12 (jul/2011)
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Publicado em 25/07/2011, às 8:10.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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