Sobre o poder do amor e outros refrões: o que (não) mudou em 20 anos de sucessos

Durante a década iniciada em 1991, a indústria fonográfica vinha muito bem, obrigada, graças às vendas de música na forma de CD. O formato ajudava: era confiável como o disco, portátil como a fita cassete e, ainda por cima, tinha a vantagem de ser digital e facilitar imensamente a procura de uma faixa específica. A economia também ajudava – diversão só ganha orçamento quando o básico está garantido –, e sobrava vontade de “atualizar” toda a coleção de discos com recém-lançadas discografias remasterizadas. Até que, em 1999, um software chamado Napster começou a febre da troca de arquivos entre usuários da internet e mudou a música para sempre1.

Bom, mais ou menos.

A troca de arquivos mudou a forma como consumimos música. A importância do Napster não foi apenas a ideia de “música de graça” (ainda que ilegal), mas a ideia de que você precisa apenas de um arquivo digital feito de 0s e 1s. Você não precisa mais de um disco prateado dentro de uma caixinha com um encarte bacana dentro. E se você não precisa mais do CD, pode comprar a discografia digital do seu artista preferido em uma loja igualmente digital como o iTunes (fundado apenas dois anos depois do Napster2). Foi como se toda faixa virasse um single em potencial, e todas elas poderiam ser ouvidas ou compradas quando você quisesse.

Mas essas mudanças não afetaram tanto o tipo de música que consumimos. As músicas mais populares desses últimos 10 anos são músicas de trabalho de artistas distribuídos por grandes empresas fonográficas. E elas ainda falam muito de amor. E fazem bastante sucesso nas rádios de R&B, como na década de 1990.

Do que estamos falando
Os dados apresentados são classificações das 10 músicas mais bem colocadas em ranking anual publicado pela Billboard norte-americana, que compila suas listas utilizando dados de vendas (nos formatos físico e digital) e execução em rádios3. As listas da revista são autoridade na medição de popularidade de músicas nos EUA.

O ranking anual (“year-end charts”) é mais significativo para representar o ano porque soma dados do período todo. Um exemplo simples é o caso de duas músicas da cantora Kelly Clarkson: “Since U Been Gone”, seu maior hit, nunca chegou ao topo da parada semanal norte-americana, mas sua força e popularidade fez dela o quarto maior sucesso de 2005. Já “My Life Would Suck Without You” escalou o número 1 da lista semanal Billboard Hot 100 em sua segunda semana após o lançamento, mas ficou apenas na 23ª posição do ranking de 2009.

A preferência pelo mercado norte-americano se deu devido a seu tamanho: para ser “big in Japan”4, é preciso vender 100 mil cópias de um disco (quantidade exigida para o disco de ouro da RIAJ); já o disco de ouro da RIAA só é concedido a álbuns que movimentam 500 mil unidades nos EUA. Além disso, os Estados Unidos são grande exportadores de ídolos para todo o mundo.

Foram selecionadas o top 10 anual de 20 anos, entre 1991 e 20105: no meio do caminho está o surgimento da distribuição digital de música.

Cada canção dessas 20 listas foi caracterizada de acordo com o gênero (sexo) do(s) vocalista(s) (masculino, feminino, misto), com o tipo de formação (solo, grupo ou duo, parceria), com o gênero musical.6

Esta última classificação se limitou a famílias principais (pop, rock, R&B, rap/hip-hop, blues, country, latino, dance e reggae), sem se preocupar com sub-gêneros (como “eurodance” ou “indie rock”). É bem verdade que muitas canções são híbridas – nesses casos, se deu preferência a sua classificação usual em premiações ou rankings. O artista da canção também cria expectativas prévias sobre o gênero musical. Mas algumas classificações são resolvidas apenas em feeling7.

Muitas parcerias são encontros de artistas de gêneros bastante distintos, e o produto mostra essa diversidade. Para ilustrar a forma de classificação, a música “Magic”, de BoB e Rivers Cuomo, seria enquadrada como “rap/hip-hop” por dois motivos: 1) BoB é o artista principal (enquanto Cuomo é o convidado) e 2) o rap forma estrofes com versos distintos com o “conteúdo” da música, enquanto Cuomo canta um único refrão.

O que (ainda) não mudou
Ai flores, ai flores do verde ramo! Cantar sobre amor parece ser um hábito sem prazo de validade, e ainda queremos saber novas do nosso amado.

As canções sobre amor e relacionamos afetivos representaram nada menos que 126 ocorrências8 em 200: 63% do total. Em 19 dos 20 anos, ao menos cinco das músicas do top 10 (50%) se preocupavam em pedir uma (a primeira, a segunda, a terceira…) chance à musa, cantar as virtudes do parceiro, chorar as rejeições ou criticar o ex.

O segundo assunto preferido dos fãs de música é sexo. Essas temáticas se distanciam das canções sobre amor e relacionamentos porque são mais descritivas ou menos preocupadas com um laço mais permanente (a análise se limita às letras, e não à intenção real do autor).

Um exemplo de música sobre amor e relacionamentos é “Dreamlover”, em que Mariah Carey procura um amor para sempre

I need someone to hold on to
The kind of love that won’t fly away
I just want someone to belong to
Everyday of my life9

A mesma Mariah Carey entra para a estatística de músicas sobre sexo com o sucesso “Fantasy”:

And my heart beats faster
When you take me over
Time and time and time again10

A temática do sexo representa 16% das músicas analisadas no período. Mas não pense que ela é uma invenção desses tempos modernos: como as Marílias das Arcádias bem entendem, músicas sobre sexo já apareciam em 1991 (e bem antes disso) e participaram de forma estável durante esses 20 anos.

O que se encontrou não foi uma tendência, mas uma anomalia: no ano de 2006, o sexo (5 canções) substituiu o amor (1 canção). Justin Timberlake bem disse que estava trazendo o sexy de volta… mas não por muito tempo! No ano seguinte, Beyoncé, Fergie e Carrie Underwood voltaram a discutir o relacionamento – cada uma chutando o ex à sua maneira.

Tampouco se verificou qualquer tendência significativa relativa aos outros temas. Drogas e rebeldia encontram pouco espaço no top 10. Músicas dedicadas a festas são um pouco mais frequentes, mas não mostraram nenhum padrão de ocorrência. O mesmo vale para canções inpiradoras – mesmo os ataques do 11 de setembro de 2001 ou o furacão Katrina (2005) não são representados nas primeiras posições dos rankings daqueles anos11. E as canções de luto/tributo, afinal, se relacionam com a morte que as inspirou.

Nossa única e eterna moda é mesmo o amor.

Gráfico: Variação de temáticas abordadas (1991–2010)

O que mudou – um pouco
A classificação de gêneros musicais também tem seu vencedor. O R&B é o sabor de 71 dos sucessos do período – ou 35,5%. Esse é também o único gênero presente em todos os 20 anos, mesmo que com apenas um representante nos anos de 2006 e 2009.

Mas, durante a segunda década analisada, percebou-se um acirramento da disputa entre pop e rock. Somadas, as duas categorias representam 38% do conjunto de músicas analisadas. A representatividade dessa dupla em cada década cresceu discretamente: 35 canções em 1991–2000 e 41 em 2001–2010. Mas a relação entre elas se modificou: se entre 1991 e 2000 o pop registrou mais que o dobro das ocorrências do rock (26 a 9), no período seguinte o rock avançou sobre a fatia do pop e quase empatou o jogo: 21 a 20.

Talvez o que esteja fazendo a diferença seja o que chamamos de rock. O começo da década de 1990 tinha o resto de metal-farofa e o meio da década teve o grunge. Mas o rock de sucesso da primeira década do século 21 é aquele que pode ser tocado em qualquer rádio de “adulto contemporâneo”: matchbox twenty, Maroon 5, Train, OneRepublic, James Blunt, Plain White T’s e Hoobastank dispensam guitarras virtuosas, couro e grandes solos de bateria. Aquela classificação genérica de “pop rock” nunca fez tanto sentido…

Gráfico: Variação de gêneros musicais (1991–2010)

O que está mudando
Não cabe tentar encontrar o motivo neste artigo, mas vocais masculinos são mais constantes na preferência popular dos últimos 20 anos: foram 97 ocorrências (48,5%) no período – 48 na primeira década e 49 na segunda.

Mas percebe-se um aumento claro na ocorrência de músicas com vocais mistos no top 10. De apenas cinco do período 1991–2000, o número saltou para 23 na década seguinte. E, se o vocais masculinos não mostraram alteração significativa, isso significa que o vocal estritamente feminino está em queda.

O que também aumentou no mesmo período foram as parcerias – os famosos “featuring”: de 5 nos primeiros 10 anos analisados para 34 entre 2001 e 2010. Combinando essas duas tendências, verificamos que 19 dos sucessos com vocal misto nesse segundo período são parcerias12. E 13 delas são músicas de artistas femininas com um convidado masculino – como Jay-Z gravando uma participação especial de “Umbrella”, de Rihanna.

O aumento das parcerias parece avançar sobre a fatia que era ocupada por grupos/bandas e duplas, que caiu para a metade de uma década para a outra: eram 42 em 1991–2000, e 21 em 2001–2010. Novamente, não cabe tentar encontrar os motivos de nosso culto à personalidade aqui – mas é interessante perceber que ainda sobra vontade de fazer música acompanhado.

Gráfico: Variação de vocais masculinos, femininos e mistos (1991–2010), com sobreposição da ocorrência de parcerias

  1. Uma revisão rápida comparando o mercado fonográfico nas décadas de 1990 e 2000 pode ser encontrada no artigo “Music’s lost decade: Sales cut in half” (CNN Money, 2010). []
  2. Já o Napster foi transformado em serviço legal de venda de música digital em 2003. []
  3. A metodologia da Billboard recebe adaptações com o desenvolvimento do mercado fonográfico. []
  4. A expressão “Big in Japan” se refere a artistas que nunca estouraram em mercados ocidentais – particularmente no norte-americano – e têm seu sucesso restrito ao Japão. Também é usada de forma pouco respeitosa para ironizar a falta de popularidade. []
  5. Não existe em nosso calendário um ano “zero”; portanto, a primeira década Anno Domini foi do ano 1 ao ano 10. Nessa lógica, as duas décadas completas mais recentes são 1991–2000 e 2001–2010. O mesmo vale para séculos e milênios: o ano 2000 foi o último do século 20, e o século 21 (e o segundo milênio) se iniciaram em 1º de janeiro de 2001. []
  6. Também foram considerados o idioma das letras e a origem dos artistas. A planilha completa está disponível para visualização. []
  7. No livro “Your brain on music: The science of a human obsession”, Daniel J. Levitin explica a dificuldade de se tentar usar a definição de heavy metal para se classificar uma música. []
  8. Uma das canções, “How do I Live” (LeAnn Rimes) figurou em listas de dois anos e foi contabilizada duas vezes. []
  9. “Eu preciso de alguém em quem me apegar / O tipo de amor que não irá embora / Só quero alguém a quem pertencer / Todos os dias de minha vida” []
  10. “E meu coração bate mais rápido / Quando você me possui / De novo e de novo e de novo” []
  11. O especial beneficente do Katrina ficou mais conhecido pela declaração de Kanye West: “George Bush doesn’t care about black people”. []
  12. As exceções são três músicas do grupo misto Black Eyed Peas, o sucesso do trio country Lady Antebellum e a música “Right Round”, de Flo Rida – que não foi vendida como dueto, embora tenha vocais de Ke$ha no refrão. []
Edição: Vol. 1 Nº 8 (mai/2011)
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Publicado em 30/05/2011, às 11:17.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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