Como fazer músicas de sucesso e influenciar pessoas

Sentada com as pernas dobradas, você aguarda sua irmã mais velha liberar o chuveiro. Com a toalha na cabeça, um roupão que podia jurar que pertencia a sua mãe e uma cortina de vapor acompanhando-a do banheiro até o quarto, ela canta os versos da “melhor música do mundo”, girando enquanto se encara no espelho de corpo inteiro na porta aberta do armário. Ela vai sair e está obviamente animada. Você, que ainda não tem idade para acompanhá-la na noitada, se junta a ela dividindo a escova de cabelos atuando como microfone. Pelo quarto, ecoa o ritmo dançante de Ace of Base (“a melhor banda do mundo”), que sua irmã canta verso por verso.

Seguindo a deixa dada pelas estrelas suecas do pop, o clima muda enquanto vestidos são escolhidos e chega a vez dos americanos do Extreme entoarem o romance piegas de “More Than Words”. Talvez a noite seja mágica para sua irmã, talvez aquelas músicas toquem no carro ou na boate, talvez ela te deixaria ir na próxima…

Depois da dispensa, você volta para o seu quarto. Reclamar com seu pai não adiantaria, então você liga o som bem alto e deixa que a voz de Paula Abdul domine sua noite solitária de sexta. Sua irmã não queria você com ela na noitada – “muito nova pra isso”, disse ela enquanto batia a porta. Tudo bem, hoje ficaria em casa, mas quando fosse mais velha seria você a pessoa convidada para todos os clubes e discotecas. Quem sabe… você seria a estrela da noite, uma celebridade do mundo musical cantando os versos da sua própria “Rush Rush” – você canta bem e sabe disso! No futuro você teria seu próprio hit, seria como a Paula Abdul, o mundo se tornaria seu palco e…

Vinte anos depois, de volta à realidade!

Preparados para entrar na segunda década dos anos 2000, talvez ainda não sejamos as estrelas que um dia prometemos para nós mesmos que seríamos, ainda assim, o Matéria Obscura acredita que nunca é tarde para deixar de sonhar. Num trabalho de aproximadamente duas semanas, reunimos as duzentas músicas que dominaram a parada da Billboard nos últimos vinte anos na tentativa de elaborar um guia simples para a produção daquele seu hit, aquele que você queria cantar, do qual tiraria seu sustento e que faria história dominando as paradas de sucesso internacionais.

O que constitui um hit? O que é mais vantajoso: estar num grupo ou ser um artista solo? Em que idioma tenho que cantar? Qual o mais bem sucedido estilo musical? E o principal: sobre o que devo cantar e quais palavras não podem faltar na minha música?

Antes que entremos na receita para o sucesso, precisamos responder algumas questões importantes:

1) O que é a Billboard? Por que partir dela para fazermos essa análise?

A Billboard é uma revista semanal norte-americana especializada em informações sobre a indústria musical. Fundada em 1894, ela tinha como foco o mercado publicitário, mas passou a tratar apenas de música a partir dos anos 1950. Famosa por seus rankings musicais, a revista permanece ainda hoje como uma referência em listas de músicas e artistas.

Apesar da Billboard possuir diversas versões espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil, não estamos filiados a nenhuma delas. A escolha desse veículo se deu primeiramente por sua representatividade na indústria internacional (fruto de uma primazia histórica), mas também pela facilidade disponibilizada pela própria publicação no que se refere ao seu arquivo de charts (listas) dos últimos 65 anos.

Graças ao seu banco de dados online que armazena as músicas mais tocadas de cada ano, pudemos formalizar uma metodologia de análise e apuração de resultados. Através do monitoramento de mais de 1000 estações de rádio dentro e fora do mercado americano, os charts da Billboard são calculados tendo como base fórmulas personalizadas1 que somam números de vendas e audiência bruta de transmissões de rádio, fornecidas pela firma de pesquisa especializada em mídia, Arbitron2.

2) Por que escolhemos as 10 músicas mais tocadas de cada ano? E por que especificamente nas últimas duas décadas?

Unindo estilos distintos e artistas variados, a lista das 10 músicas mais tocadas de cada ano nos oferece um grau de variedade sem descaracterizar novos e velhos hits ou focar exclusivamente em um único meio de distribuição.

Divididas pela mudança de milênio, as décadas de 1990 e 2000 foram escolhidas por terem sido marcadas por importantes mudanças na forma e velocidade de divulgação e compartilhamento. Além disso, representam o repertório comum desta geração.

E andemos para a análise!

Foram ao todo 168 artistas e 200 hits considerados para essa análise. Dessa somatória de artistas, dois deles conseguiram reproduzir seus sucessos em anos subsequentes (Elton John e LeeAnn Rimes, paradas de 1997 e 1998) e dois deles conseguiram emplacar singles duplos na mesma posição da Billboard (Toni Braxton em 1996 e Jewel em 1997). Para facilitar a mensuração dos dados, consideramos os duplos hits como uma única faixa, por possuírem a mesma natureza temática, e levamos em consideração que as posições ocupadas por, respectivamente, “Candle In The Wind” e “How Do I Live” merecem ser consideradas de forma independente. A lista completa de músicas avaliadas pode ser consultada aqui.

Tendo isso como ponto de partida, qual seria o caminho que o faria desbancar as estrelas da sua adolescência rumo às paradas de sucesso?

a) Formação

Ser um artista solo ou membro de uma banda? Fazer participação especial com um conjunto popular ou uma breve parceria que duraria os três minutos de uma única música? Seja nos anos 1990 ou durante essa primeira década dos anos 2000, o caminho é ser um performer solo.

Com 49% dos sucessos contra os 31,5% das bandas/grupos musicais, ser solitário pode muito bem levar você ao topo com larga vantagem. Entretanto, a tendência dos últimos 10 anos foi manter o status solo, mas reforçar o número de parcerias. O número de “featurings” subiu de 5% nos anos 1990 para 34% na década seguinte.

b) Vocal

Ainda dá tempo de se tornar um soprano? Talvez sim, mas isso não necessariamente significará sucesso no seu hit. Dominando as estatísticas estão os 48,5% de vocais masculinos (incluindo ainda grupos, bandas e artistas solo) que superam os 37,5% de vocais femininos. Pelo menos nos últimos 20 anos de paradas Billboard, as mulheres podem parecer em desvantagem. O aumento no número de parcerias fez a diferença entre performances masculinas (de 48% para 47%) ou femininas (47% para 28%) aumentar de forma sensível, enquanto o número de vocais mistos ascendeu de 5% para 23%.

c) Estilo Musical

Em 1975, Joan Jett declarou seu amor pelo Rock’n Roll e em 2002, a princesinha do pop Britney Spears decidiu fazer o mesmo numa não tão bem recebida, mas ainda assim bem sucedida empreitada. Entretanto, se figurar entre as 10 músicas mais tocadas do ano ou as 100 mais reproduzidas da década é seu objetivo, nem pop e nem rock farão a cabeça do público. Com a liderança considerável de 35,5% no conjunto de músicas observadas, o Rhythm & Blues é o estilo musical3 mais frequente entre as duzentas canções aqui analisadas.

Mesmo tendo como concorrentes o Blues, o Country, o Dance (Eletrônica), o Rap/Hip-Hop, o Latin, o Pop, o Reggae e o Rock, o R&B continua a fazer história nas paradas musicais tendo o Pop em seu encalço com 23,5% de adesão. Ainda que o Rock (14,5%) e o Rap / Hip-Hop (14%) consigam quase sempre garantir lugar na lista dos 10 maiores sucessos anuais, a supremacia do gênero nascido nos anos 1940, dominado pelos afro-americanos e que mantém ainda hoje uma complexa fusão entre o rock, o blues e o soul permanece inquestionável.

d) Nacionalidade / Idioma

Lembra quando você ficou em dúvida entre aulas de inglês ou ficar em casa assistindo Sessão da Tarde? Sim, Sessão da Tarde podia até ser uma opção tentadora (especialmente nos anos 1990), mas ter aprendido inglês ajudaria em muito sua escalada rumo ao sucesso. Não é surpresa dizer que 98% das faixas analisadas são cantadas exclusivamente em inglês. Os meros 2% de versos em espanhol (muitas vezes intercalados com o inglês) não garantem a presença nos 10 singles mais reproduzidos todos os anos.

Apesar disso, nada irá impedir alguém não nascido num país cujo idioma oficial é o inglês de chegar a essa lista. Ignore os 82% de americanos e podemos enxergar onze outros países, espalhados por três continentes (cinco seria mais interessante, mas infelizmente Ásia e África ficaram de fora) sendo os mais representativos deles a Inglaterra (6,5%) e o Canadá (5%). Certo, esses países também têm o inglês como língua oficial, mas nem toda a esperança está perdida, basta seguir o exemplo da colombiana Shakira e… Você devia ter frequentado aquelas aulas de inglês, infelizmente não existe saída nesse ponto.

e) Temática

Existem bases nas quais poderíamos ter fundamentado o mais subjetivo dos critérios nesse levantamento. Se nosso foco fosse o Rock, a pesquisa do professor Paul Friedlander da Universidade de Oregon expressa em seu livro, “Rock and Roll: uma História Social” (2002), teria sido nosso elemento norteador. Através da metodologia nomeada “janela do rock”, Friedlander é capaz de delimitar os elementos constitutivos mais marcantes de uma canção e destacamos aqui sua segmentação analítica no que se refere a tematização lírica:

Identificar o tema ou temas principais da canção. Use estas classificações tópicas como forma de começar a sua organização do material: (1) o amor romântico, (2) sexo, (3) alienação (4) justiça / injustiça (5), a introspecção, (6) rock and roll, (7) outros. Utilize as letras da música para esclarecer sua escolha temática.4

De forma mais abrangente, o pesquisador Daniel Levitin em seu livro “O Mundo em Seis Canções” (2008), classificou e subdividiu as canções em seis categorias distintas (que poderiam ser sobrepor): amizade, alegria, conforto, religiosa, amor e conhecimento. Cruciais para o desenvolvimento do cérebro e para a evolução da própria identidade humana, as categorizações podem servir de base para entendermos como funciona nossa relação visceral com a música que escutamos.

Entretanto, procurando atingir um maior grau de pragmatismo e praticidade (redundância?), utilizaremos nessa análise categorizações temáticas extraídas da impressão imediata que as letras observadas evocam. Dentro dessa simplificação estabelecemos oito classificações: celebração (relacionada a festas e comemorações), drogas (com foco tanto nos efeitos imediatos quanto no impacto social), luto (também enquadramos aqui canções que prestam homenagem), rebeldia (especificamente relacionados a inconformidade), relacionamentos (canções que envolvem não apenas romance, mas as gradações e percalços amorosos), self (faixas biográficas ou que se referem especificamente ao eu-lírico), sexo (precisa que desenhemos?) e superação (músicas capazes de inspirar o ouvinte).

Não é surpresa para ninguém que ser menor de idade e não poder invadir a balada da irmã seja um dos temas mais bem sucedidos da música. Por outro lado, independente da sua idade, cantar sobre um relacionamento impossível, idealizado ou mal sucedido pode ser o fator definitivo do sucesso. Dominando o gráfico com 63%, as músicas focadas em relacionamentos amorosos são o grande instrumento para se entender como funciona a indústria musical hoje.

Se você já é maior de idade e não quer perder tempo lamentando o romance que não deu certo, falar diretamente sobre sexo talvez seja uma alternativa razoável. Com 16%, as canções que “mandam ver” são ainda mais presentes nas paradas do que as faixas que se referem a tal balada que você não podia frequentar aos 12 anos. As músicas de celebração ficam em terceiro lugar com 7% de presença, deixando de escanteio as demais temáticas listadas. Se nenhum dos três assuntos é capaz de provocar uma reação genuína, sempre é tempo de criar um novo hino de rebeldia ou superação. Quem sabe se uma parceria com o Green Day num futuro não muito distante não seja tudo aquilo que o mundo aguardou nesses últimos 20 anos? Ou talvez não…

f) Palavras-chave

Agora que sabemos que solos são mais bem sucedidos do que bandas, vocais mistos podem vir a dominar os próximos 10 anos de paradas e tanto o R&B quanto o inglês são essenciais para um caminho fácil até o topo, resta saber: quais palavras devem constar na minha música sobre aquele namoro que me deixou chorando no chão da cozinha? Pois nós temos a resposta para essa questão logo aqui.

Utilizando a mágica do wordle5, combinamos as letras das 100 músicas listadas pela Billboard nos anos 1990 e as 100 listadas nessa primeira década dos anos 2000. Como resultado obtivemos dois gráficos esclarecedores sobre o índice de repetição de certas palavras-chave contidas nas referidas faixas.

Enquanto nos anos 1990 a precedência lírica recaiu sobre o vocativo “Baby”, nos anos 2000 o verbo “Know” (saber, conhecer) expandiu seu domínio iniciado já na década anterior e superou os demais companheiros sendo ao lado de “like” (também um verbo, “gostar”), o mais destacado verbete entre as canções analisadas. Não muito atrás dos termos em evidência, “love” (tanto na forma verbal “amar” quanto como substantivo) permaneceu invariável no quesito relevância à listagem.

Correndo por fora, as contrações verbais de “want” (querer), “wanna”, e “go” (ir), “gonna”, se provaram igualmente importantes, garantindo seu lugar entre os termos notoriamente mais reproduzidos em ambas as décadas. Dentre as discrepâncias, destacamos aqui a proeminência discreta do substantivo “heart” (coração) durante os anos 1990, sendo veladamente acompanhado de “head” (cabeça) na década decorrente.

Presente durante os vinte anos analisados, a interjeição “oh”, comumente usada como uma expressão de surpresa, dor ou desaprovação (entre outros significados), manteve um crescente domínio sobre as letras nos últimos anos.

Levando em conta que esse critério específico de avaliação não pode ignorar o contexto das palavras em destaque, reforçamos que não bastaria formular um verso genérico para obter o reconhecimento devido. “I wanna go to your heart. Oh” (traduzido ao pé da letra como “Eu quero ir até seu coração. Oh”) talvez não seja o refrão milionário que mudará a vida de algum jovem talento, mas é importante ressaltar que as repetições estão aí para nos fazer pensar sobre o peso que determinadas palavras têm em nossa rotina musical.

E agora, o que? Tem como tirar uma lição disso tudo?

Se uma escola de música soa possível e debruçar-se sobre as próprias experiências para transformá-las em letras e notas parece razoável, o rumo a seguir é o mesmo dos 168 artistas aqui citados. Em algum ponto de suas vidas, seja durante a infância ou durante a participação em um reality-show, essas pessoas decidiram que cantar até o sucesso deveria sua principal meta na vida.

Desafiando as dificuldades de se prosperar no competitivo meio musical, elas se arriscaram
na luta contra o anônimato e receberam sua parcela dos louros ao atingirem o sucesso. Estejam ou não as estatísticas ao seu lado, saiba desde já que é na combinação de fatores previsíveis com o talento intrínseco que se forma o verdadeiro potencial explosivo de uma canção. E aparentemente, nunca é cedo para começar e nem tarde demais para tentar.

  1. Texto introdutório e charts disponibilidados parcialmente em: http://www.billboard.com/#/charts-year-end []
  2. Saiba mais em: http://www.arbitron.com/ []
  3. Temos que ter em mente aqui que as classificações de ‘estilo musical’ seguem não apenas os critérios da própria Billboard, como denominações de mercado. O que constitui uma faixa verdadeiramente Pop? Quais os limites que separam o Rap do Hip Hop e o que demônios faz do Latin um gênero independente? Essas são questões sérias que infelizmente não encontrarão respostas durante esse artigo. []
  4. FRIEDLANDER, Paul – Rock and Roll: uma História Social, 2002. []
  5. Saiba mais sobre ele visitando: http://www.wordle.net/ []
Edição: Vol. 1 Nº 8 (mai/2011)
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Publicado em 30/05/2011, às 11:18.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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7 comentários sobre Como fazer músicas de sucesso e influenciar pessoas

  1. Joao Paulo

    Caramba vc tá me ajudando bastante! Parabéns!

  2. Francisco Bonifacio

    Em primeiro lugar eu sempre leio o que há de melhor, desde livros a revista independente do preço, e digo com toda certeza que o que acabei de ler realmente compraria uma revista por causa desta matéria, pra alguns essa matéria não terá serventia mais para os músicos ou os que pretendem produzir realmente esta matéria é um presente.
    É isso, um abraço a todos, e lembrem, pessoas excelêntes leem livros e matérias excelêntes !

  3. Genial !!! Estudo raro com metodologia interessante, parabéns!

  4. Thiago

    Muito bom, tem bastante propriedade e sabe o que está falando!
    Muito bom mesmo!

  5. ANDREIR

    caracas.. este estudo pode virar uma tese de mestrado em musica ou um livro, muito bom curti d+

  6. Fernando

    Sensacional, podia rolar esse mesmo estudo focado no mercado nacional, afinal aqui tem algumas peculiaridades diferentes do mercado americano.

    Parabéns pelo estudo

    Att

    Fernando

  7. luiz b

    Caramba… Esse final foi um soco em mim… Eu queria(quero) muito ser cantor e “começar” o estilo Pop no Brasil, mas é tão dificil… Parece que seguir o destino de fazer uma faculdade é mais fácil, além de que eu não sei por onde começar uma “carreira” de cantor… Eu não sei…