A morte e o renascimento do toque

“No primeiro toque: vida. No segundo toque, morto – para sempre.” Esse era o dom – e, na melhor tradição do rei Midas1 – a maldição de Ned, o piemaker.

O personagem protagonizou as duas meia-temporadas da série “Pushing Daisies” (2007–2009), que narrava como uma fábula colorida a história do jovem que usava seu dom de despertar os mortos (ainda que temporariamente) para solucionar homicídios e usar o dinheiro da recompensa para salvar sua loja de tortas. Os poderes de Ned vieram sem caixa, manual de instruções ou garantia do fabricante – como explicou o narrador –, mas sim com algumas ressalvas.

A primeira é que a ressurreição tem um custo: se qualquer vivo-novamente2 passar mais do que 60 segundos de volta à vida, alguém que esteja nas proximidades irá morrer. A definição da vítima parece ser aleatória, respeitando apenas um princípio de equivalência: a ressurreição da mãe de Ned custou a vida do pai de Chuck; a de Chuck encerrou a vida do agente funerário; a do cachorro Digby matou um esquilo que simplesmente estava por perto.

A segunda nota de rodapé do dom de Ned era que o segundo toque era o interruptor definitivo da ressurreição. Era com o segundo toque, dado até 60 segundos após o primeiro, que Ned encerrava de uma vez por todas a vida dos vivos-novamente, para evitar a morte aleatória de um inocente. Com os dois vivos-novamente que salvou – seu cachorro Digby e seu amor de infância Charlotte “Chuck” Charles –, Ned precisava ser extremamente cuidadoso para que o segundo e fatal toque jamais ocorresse.

A terceira e não-explorada questão diz respeito ao que acontece com um vivo-novamente. Devido ao custo dessa segunda chance (como a morte do pai de Chuck), Ned dá apenas 60 segundos para que seus ressuscitados digam suas últimas palavras. Até o início da série, apenas o cachorro Digby servia como exemplo – e ele havia passado os 19 anos depois de sua ressurreição sem mostrar sinais de envelhecimento. Apenas o tempo diria o que isso significaria para Chuck.

Mas o poder de Ned não pode ser pensado sem se considerar que a origem do personagem era o seriado “Dead Like Me” (2003–2004). Bryan Fuller, o criador das duas séries, explicou a gênese de “Pushing Daisies” assim:

Seria originamente um spin-off de “Dead Like Me”. O arco da segunda temporada seria assim: George descobriria que alguém estava roubando suas almas, e ela não conseguia evitar. Então ela descobriria que existia esse cara que tocava pessoas mortas e as trazia de volta à vida, e ela teria uma relação romântica e antagônica com ele. Então ele a tocaria e ela voltaria à vida, e voltaria à sua família por alguns episódios. Eventualmente, George perceberia que havia abandonado seu trabalho e que precisava retornar a ele e ser responsável; que ela precisava amadurecer e cumprir seu dever. Então o cara a tocaria novamente e ela voltaria a ser uma ceifadora de almas – e ele teria sua própria série.3

Georgia “George” Lass, a grim reaper (“ceifadora de almas”), é uma garota morta aos 18 anos na queda do assento sanitário da estação espacial Mir. Após sua morte, ela ganha a missão de remover as almas e pessoas que estão prestes a morrer, e então levá-las para a próxima estação (seja ela qual for – isso não é solucionado na série).

Em “Dead Like Me”, os ceifadores continuam vivendo com novos rostos, mas com os mesmos problemas cotidianos de antes: precisam dar um jeito para comer e morar, seja por meio de empregos tradicionais (em dupla jornada com suas responsabilidades de ceifadores) ou pequenos golpes.

Pouco antes de sua morte, George era uma garota que havia abandonado a faculdade e morava com os pais e sua irmã mais nova. Forçada pela mãe, consegue um emprego temporário por meio de uma agência – sua morte ocorre no intervalo de almoço de seu primeiro dia no trabalho. Em seu pós-morte, George assume o nome de “Millie Hagen” e passa a trabalhar na agência de empregos temporários Happy Time.

Existem várias coisas em comum entre “Dead Like Me” e “Pushing Daisies”. As duas séries foram encerradas antes de desenvolverem suas histórias. As duas tinha de garotas com apelidos masculinos (George e Chuck). As duas garotas só passaram a viver depois de suas mortes – George havia passado sua adolescência retraída, mas é forçada a reconhecer o valor de sua vida quando a perde4; já Chuck cresceu presa às neuroses de suas tias, mas finalmente pôde viver as aventuras sobre as quais lia quando passou a trabalhar ao lado de Ned e Emerson. E as duas séries falam bastante sobre vida e morte (e morte das mais bizarras, já que George está na equipe especializada em “influências externas”, como assassinatos, suicídios e acidentes, e Ned ajuda em investigações de assassinatos).

Um tema menos visitado talvez seja a relação dos protagonistas Ned e George com outras pessoas, principalmente no toque físico – já que esse é método empregado para libertar almas ou manipular vida e morte.

A função e o efeito do toque tem sua própria prateleira na pesquisa científica5, mas a personagem Chuck faz um belo resumo ao falar sobre abraços:

Chuck: “É como uma versão emocional da manobra de Heimlich. Alguém coloca seus braços e torno de você e lhe dá um apertão, e todo o seu medo e ansiedade saem da sua boca como um chumaço grande e molhado, e você pode voltar a respirar.”6

Ned e George parecem ter passado por desenvolvimento normal nas primeiras fases de suas infâncias. Crescendo com sua mãe, Ned brincava alegremente com seu cachorro de estimação e sua amiga Chuck7. George tinha um afetuoso relacionamento com seu pai8 e mostrava-se capaz de empatia e solidariade com outras garotas de sua idade9. Mas alguma coisa deu errado com cada um deles, e os episódios pilotos das duas séries são marcados por uma severa economia de contato físico. Adulto, Ned evita os avanços de Olive Snook, tocando apenas os mortos cujas mortes investiga. Até ter sua alma coletada, George apenas encosta uma vez em sua irmã – e para retirá-la de seu quarto.

Para sua mãe Joy, um dos motivos do isolamento de George na infância foi seu amadurecimento e inteligência em comparação às crianças de sua idade10. Alguns flashbacks também apontam que George se ressentiu com seus pais por ciúmes, após o nascimento de sua irmã Reggie. Refletindo sobre o que mudou em sua relação com sua família, George simplifica: “Eu apenas havia virado uma adolescente”11

Mas existia algo de diferente em George, mesmo quando criança. Afinal, ela era capaz de ver gravelings12 mesmo antes de tornar-se ceifadora13.

Não existe uma explicação sobre como esse estranho contato com a morte se transformou em apatia. A única explicação de George é que demonstrar interesse leva a expectativas, e expectativas levam a desapontamentos14.

No caso de Ned, os motivos parecem mais claros. A trágica morte (e re-morte) de sua mãe e a rejeição de seu pai levou Ned a um colégio interno, onde foi rejeitado pelos outros meninos – até mesmo pelo outsider Eugene Mulchandani15. Mas, principalmente, Ned temia seus poderes, após o episódio envolvendo as mortes de sua mãe e do pai de Chuck. Como explica o narrador:

Após a morte de sua mãe, Ned evitou ligações sociais, temendo o que faria se alguém mais que ele amasse morresse.16

Sua falta de traquejo social é tão grande que ele é pego de surpresa quando uma viva-novamente toca o seu rosto e morre antes que pudesse ser interrogada. Na verdade, Ned simplesmente parece não sentir a falta de contatos sociais – físicos ou não.

É apenas quando reencontra Chuck que Ned começa a mudar – seja nos toques intermediados por tecidos e plásticos, ou numa breve tristeza ao perceber que Chuck podia abraçar Digby, mas ele não poderia tocar nenhum dos dois17, ou mesmo em sua capacidade de desenvolver um relacionamento mais próximo com Olive Snook e Emerson Cod.

O caráter de Ned nunca foi colocado em questão. Ele, afinal, sempre mostrou respeito com os vivos-novamente. Mas sua capacidade de empatia havia sido limitada por tantos anos de desligamento social. Até que a viva-novamente Chuck, envolvendo-se no trabalho de Ned e Emerson Cod, inicia o interrogatório de um vivo-novamente perguntando sobre últimas mensagens ou desejos18.

Da mesma forma, George é forçada a se envolver com as almas que coleta ao morrer e ser transformada em ceifadora. Mesmo que Mason aconselhe que é melhor saber pouco sobre os mortos, sempre há um detalhe inquietante. Pode ser a idade do morto, podem ser uns poucos minutos de convivência. No caso de George, pode ser o resto da revolta por sua própria morte prematura. Como não se envolver se a coleta de almas é o único alívio na traumática morte daqueles nomes escritos no post-it?

O gesto de George é um único e breve toque. Ele não salva vidas, mas, como o experiente ceifador Rube explica, esse toque torna o processo mais fácil para quem está prestes a morrer. “Pode não parecer muito, mas é bastante”19.

  1. Uma investigação sobre o Midas mitológico e o Midas histórico pode ser encontrada em “The Legend of Midas”, artigo publicado em 1983 por Lynn E. Roller (Classical Antiquity, Vol. 2, No. 2 (Oct., 1983), pp. 299-313). []
  2. No episódio “Pie-lette” (“Pushing Daisies”, 1-01), Ned rejeita nomes sugeridos por Emerson Cod, como “zumbi” e “morto-vivo” e sugere chamar seus “clientes” de “vivos-novamente”. []
  3. Entrevista para Ed Martin. http://www.jackmyers.com/mediavillage/tvshows/pushing-daisies/9970626.html. []
  4. Em “Dead girl walking” (“Dead Like Me”, 1–02), Rube diz que gosta de coisas como spaghetti e jogos de tabuleiro, que só pode continuar experimentando porque continua com sua existência, ainda que como grim reaper. George então reconhece que não estava pronta para deixar de gostar ou de não gostar, resolvendo então aceitar sua condição. []
  5. Um levantamento sobre as pesquisas já realizadas sobre o toque pode ser encontrado em “The communicative functions of touch in humans, nonhuman primates, and rats: a review and synthesis of the empirical research”, de Hertenstein, Verkamp, Kerestes e Holmes (Genetic, Social, and General Psychology Monographs, Vol. 132, No. 1. (2006), pp. 5-94). []
  6. “Pie-lette” (“Pushing Daisies”, 1-01) []
  7. “Pie-lette” (“Pushing Daisies”, 1-01) []
  8. “Sunday Mornings” (“Dead Like Me”, 1-09) []
  9. “The shallow end” (“Dead Like Me”, 2-04) []
  10. Ellen Muth, que interpreta George na série, é membro de organizações para pessoas com QI acima da média. http://www.washingtonpost.com/ac2/wp-dyn/A9716-2004Aug17 []
  11. “Sunday Mornings” (“Dead Like Me”, 1-09) []
  12. Gravelings são criaturas que ajudam a provocar os acidentes fatais de “Dead Like Me”. Eles são virtualmente imperceptíveis para os vivos, mas um jovem esquizofrênico era capaz de vê-los em “Reaper Madness” (“Dead Like Me”, 1–07). []
  13. Como mostrado em flashbacks nos episódios “The shallow end” (“Dead Like Me”, 2-04) e “Haunted” (“Dead Like Me”, 2-15). []
  14. “Pilot” (“Dead Like Me”, 1-01) []
  15. No episódio “Bitter Sweets” (“Pushing Daisies”, 1-08), Ned assusta Eugene quando acidentalmente transformou uma pilha de folhas secas em verdes, durante uma brincadeira. []
  16. “Pie-lette” (“Pushing Daisies”, 1-01) []
  17. “Bitches” (“Pushing Daisies”, 1-06) []
  18. “Pie-lette” (“Pushing Daisies”, 1-01) []
  19. “Dead girl walking” (“Dead Like Me”, 1-02) []
Edição: Vol. 1 Nº 7 (mai/2011)
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Publicado em 16/05/2011, às 8:58.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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