O julgamento do monstro – identidade e estigmas no Buffyverso

Atento, o mocinho percorre túneis escuros. Um monstro está à solta, e dos mais violentos. O mocinho então encontra uma grávida assustada. “Está tudo bem”, diz ele. Até que o monstro chega, e o mocinho se posiciona entre ele e a jovem.
O confronto é feroz e duro, até que o mocinho finalmente consegue uma vantagem e quebra o pescoço do monstro.
“Está tudo bem, ele está morto”, diz ele à grávida. A mulher, em uma mistura de medo e raiva, acaricia o rosto do monstro: “O que você fez?”, pergunta.
O mocinho finalmente percebe: a jovem grávida ainda está em apuros, e o monstro a estava protegendo.

Esta cena pertence ao episódio “Judgment” (“Angel”, 2-1), que abriu a segunda temporada do seriado. O mocinho está longe de ser um herói típico: ele é um vampiro, ainda que seja um vampiro com alma.

A trajetória de Angel começa na forma de um jovem irlandês chamado Liam que gostava um pouco demais de bebidas, brigas e mulheres. O destino – ou melhor, a vampira Darla – transforma Liam em Angelus, um vampiro cruel que lidera massacres ao redor do mundo durante séculos. Mas o destino – desta vez, na forma de um cigano que teve a filha vitimada por Angelus – mudou as regras do jogo novamente e devolveu a alma (carregada de culpa) ao vampiro.

Durante séculos, Angelus foi incapaz de se reintegrar à sociedade de humanos. Como vampiro, ele ainda tem sede de sangue – mas sua alma impede que ele ataque novas vítimas. A transformação de Angelus em Angel acontece somente em 1996, quando ele é convencido a ajudar Buffy Summers, a nova caça-vampiros.

A força que move o personagem em sua origem, na série “Buffy the Vampire Slayer”, é muito ligada a culpa e responsabilidade – ele luta contra demônios para proteger a humanidade e compensar todo o mal cometido em seus anos como Angelus.

Quando Angel troca Sunnydale por Los Angeles e passa a protagonizar sua própria série, suas ações passam a ser movidas também por uma promessa de redenção: de acordo com uma profecia, ele será transformado em mortal (humano) se cumprir sua missão – embora a missão não seja lá muito clara. Assim, ele intensifica sua atuação no combate aos demônios em Los Angeles.

As primeiras cenas do episódio revelam justamente esse novo ânimo da agência de investigações Angel, com seus três integrantes (Angel, Cordelia e Wesley) marchando a caminho de um grupo de demônios Carnyss, que preparavam um sacrifício em uma academia. Em seguida, eles estão listando em uma lousa todos os casos (ou demônios) enfrentados por eles desde então. Esse novo ânimo do próprio Angel é evidenciado com suas preocupações em entrar para uma academia. “Você não precisa malhar, você é eterno”, lembra Cordelia. Angel a corrige, já imaginando seu futuro como mortal: “Não serei sempre assim”.

Demônios e estigmas
Na mitologia do Buffyverso, demônios são os herdeiros impuros e enfraquecidos dos demônios puros e poderosos conhecidos como “Old Ones”, que dominavam a Terra em sua origem. Séculos e séculos se passaram, e os “Old Ones” acabariam aprisionados ou enviados para outras dimensões. Este mundo passou a ser dominado pela humanidade, mas habitado também por demônios.

O grupo de demônios inclui um grande número de “espécies”, cada uma com características e costumes próprios. Os demônios são considerados descendentes dos “Old Ones”, miscigenados com humanos e outros animais.

Por não possuírem almas humanas, demônios são costumeiramente considerados ameaças. Não importa se o demônio Clem é tão inofensivo que fugiu da cidade de Sunnydale com todos os outros habitantes em meio ao pré-apocalipse da sétima temporada. Não importa se o mestiço Doyle é um dos primeiros a ajudar Angel quando ele começa a combater o mal em Los Angeles. Não importa se o demônio está apenas vivendo anonimamente, cuidando de sua própria vida e cantando em karaokês. O demônio é culpado até que se prove inocente.

O humano Riley não conseguiu esconder sua desaprovação ao descobrir que Oz, o ex-namorado de Willow, era um lobisomem:

Riley: Não pensei que Willow fosse esse tipo de garota.
Buffy: Que tipo de garota?
Riley: Que gosta de caras perigosos. Ela parece ser esperta demais para isso.
Buffy: Oz não é perigoso. Aconteceu uma coisa com ele que não era culpa dele. Nossa, não sabia que você era tão preconceituoso.1

Mas a agência de investigações Angel é, afinal, mais esclarecida que um humano participante de um projeto militar. Para começar, seus membros sabem que existem várias espécies de demônios.

Por isso, quando Cordelia vê um demônio em sua premonição, descreve sua “cara de mau” para que Wesley consiga identificá-lo na literatura. O demônio é um Prio Motu, uma espécie conhecida como assassina. Imediatamente, o trio de heróis assume que é necessário encontrar o Prio Motu e derrotá-lo.

Com a ajuda de um informante, Angel logo encontra o demônio – e é atacado por ele ao se aproximar de uma jovem grávida. Mas nosso herói consegue vencer a luta, matando o “perigoso” Prio Motu. Angel só percebe que cometeu um erro quando a jovem grávida lamenta a morte do demônio:

Angel: Está tudo bem. Ele está morto.
Grávida: O que você fez? Oh meu Deus! O que você fez?
Angel: Eu não… Eu pensei que ele fosse machucá-la!
Grávida: Ele era meu protetor. (…) Eu tinha um amigo, e você o matou.2

O episódio revela que o preconceito contra demônios está mais enraizado do que Angel, Wesley e Cordelia gostariam de acreditar. Com o leite derramado, os três tentam racionalizar a falha:

Angel: Ele era um demônio. Eu apenas supus…
Wesley: E por que não o faria? Cordelia disse que ele era um demônio mau.
Cordelia: Bem, ele parecia mau. Eu não disse que ele era um assassino, você disse!3

Quando Riley reprovou o relacionamento entre Willow e um lobisomem, considerou todos os demônios “caras perigosos”. Wesley, utilizando seus conhecimentos do sobrenatural, tentou ser mais específico – ou mesmo mais “científico”: sua autoridade para determinar o grau de ameaça do demônio se baseia na identificação da espécie. Se a espécie é sanguinária, assim serão todos os indivíduos que pertencem a ela. Mesmo depois de saber que o demônio em questão estava protegendo uma jovem grávida, Wesley ainda repete “Eles caçam. Eles matam”.

O estigma à figura do demônio pode até ter sua explicação no conceito de que os demônios foram formados a partir da miscigenação dos “Old Ones” com reles mortais. O problema é que os demônios até trazem os traços malignos dos “Old Ones”, mas também carregam a humanidade presente na mistura.

O lobisomem Oz, por exemplo, não virou um vilão simplesmente por ter sido transformado. Seu lado humano escolheu controlar os instintos do lobisomem e não ferir outras pessoas. A estudante Harmony, após ser transformada em vampira, manteve o mesmo comportamento de sua adolescência loura, embora seu papel como vilã tenha sido mais cômico do que perigoso.

Identidade e dualidade
Encontrar preconceito entre pessoas esclarecidas (como Wesley) e pessoas menos esclarecidas (como Riley) não chega a ser surpreendente. Inventamos nossos próprios demônios fora do Buffyverso e reagimos a eles da forma mais irracional possível.

Mas a surpresa de “Judgment” está no lapso de Angel, o vampiro.

Vampiros são um tipo particular de demônios. O primeiro vampiro teria surgido com a mistura de sangues do último Old One a deixar esta dimensão e de um humano atacado por ele. Segundo a explicação dos guardiões, o demônio substituiu a alma do humano.

Foram os vampiros que motivaram a criação da linhagem de caçadoras por um grupo de xamãs primitivos. As caçadoras eram garotas com poderes (como força sobre-humana, alta capacidade de regeneração e premonições) conferidos pela essência demoníaca – e que, por isso, acabavam sendo temidas pelos humanos que protegiam.

Angel, como se sabe, é diferente. Ele era um vampiro como outro qualquer – ou, talvez, mais sanguinário do que os outros – até que a maldição de um cigano lhe devolveu sua alma. Com a força sobrenatural e a alma humana, mudou de lado e passou a proteger a humanidade.

A ironia da situação de Angel após matar o Prio Motu aparece na tagarelice perplexa de Wesley:

Wesley: Deveríamos pensar que uma criatura como aquela pode de repente mudar seu modus operandi da noite para o dia? Virar um nobre protetor e… defensor dos… oh meu Deus.4

Wesley e Cordelia estavam devidamente familiarizados com a condição particular de Angel, mas não foram capazes de estendê-la a outro demônio – principalmente um com cara de mau. E o próprio Angel não foi capaz de conceber que o Prio Motu poderia ser “como ele” – algo que ele vem a perceber somente após matá-lo. Esse lapso denuncia um ponto muito importante sobre a identidade de Angel: ele não se vê como um vampiro.

Angel recebeu sua alma humana de volta, mas o demônio continua dentro dele. Ele é Angel e também é Angelus. Como um alcoólatra em recuperação, ele tenta se redimir de erros passados, mas continua vulnerável a recaídas.

Angelus e Angel compartilham o mesmo corpo e as mesmas memórias, mas também possuem um senso de distanciamento (e aversão) um do outro. Quando está dominado pela personalidade Angelus, o vampiro se afasta de seus aliados habituais – atacando-os, aliás – e volta a criar conexões no mundo dos demônios. Quando tem a posse de sua alma e consciência, Angel ainda é um vampiro – mas, incapaz de se comportar como tal, ele também se torna incapaz de se identificar como um deles.

Ao mesmo tempo em que identifica a responsabilidade dos crimes de Angelus como sua, Angel não está tão convicto sobre seu papel nesses mesmos crimes. No episódio “Amends” (“Buffy”, 3-10), Angel está sendo atormentado por uma entidade conhecida como o Primeiro Mal. Parte da tortura exercida sobre ele são sonhos lembrando-o de suas vítimas – as vítimas de Angelus. Em certo momento, Angel responde: “Não fui eu” – distanciando-se do vampiro.

Dono de uma alma e de uma missão, Angel passa a se identificar com a luta da caça-vampiros, e não com o vampiro.

A expectativa de Angel de conquistar a redenção (e a mortalidade, como ficou explicitado em seus planos de se associar a uma academia) foi um fator decisivo para sua ação precipitada no caso do Prio Motu. A produtividade da agência de investigações Angels é consequência de sua motivação de derrotar todos os demônios dos quais toma conhecimento, em um jogo em preto-e-branco.

Mas o Buffyverso é, acima de tudo, um lugar cinzento. Demônios podem ser aliados, como Lorne. Humanos podem ser vilões, como Warren. Demônios e humanos podem ser bons e maus, como mostraram Angel e Willow. Todos nós somos versões menos contrastantes da dualidade de Glory/Ben.

Quando Angel encontra o lar do Prio Motu, o demônio deixa de ser apenas um rosto assustador de uma espécie assassina e torna-se um indivíduo: Kamal, o Prio Motu budista.

O caminho da redenção de Angel ganha mais uma parada na morte de Kamal: não apenas ele agora é o campeão que deve proteger a grávida, mas também ele agora deixa de lado seu quadro de casos e adota uma nova filosofia. O erro de julgamento gera um novo sentimento de culpa em Angel – e, desta vez, o crime não foi cometido pelo demônio Angelus, mas pelo lado mais humano de Angel.

  1. “New Moon Rising” (“Buffy”, 4-19) []
  2. “Judgment” (“Angel”, 2-1) []
  3. “Judgment” (“Angel”, 2-1) []
  4. “Judgment” (“Angel”, 2-1) []
Edição: Vol. 1 Nº 3 (mar/2011)
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Publicado em 21/03/2011, às 7:09.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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