“Eu gostaria de ser uma stalker”

– Eu sempre te amarei, Charlie.
Mas esse é o melhor para nós dois.

E com esta singela e lúcida declaração, Rose despede-se de seu amado Charlie Harper na véspera de sua mudança para Londres, depositando, com o beijo despretencioso em sua face, a certeza do que é irremediavelmente intangível.

Aos desavisados, não há qualquer réstia de sentimentalismo em tal cena. E, para os eventuais leitores – sobretudo, a audiência da série “Two and a Half Men” (no Brasil, pelo canal Warner) – não se trata de uma tentativa de esquadrinhar questões de gênero ou comportamentais, através da desconstrução analítica do tipo de relação (freak) ou tensão travada entre tais personagens. Portanto, não aguardem uma discussão entrecortada por brados feministas ou notas de renomados pensadores como Lacan, Foucault, Freud, Simone de Beauvoir. Não há sequer uma vírgula de elaboração “para-acadêmica” ou a remota tentativa de intelectualizar o produto televisivo em questão.

O que lhes apresentamos aqui possui uma meta mais modesta, precisamente, um diálogo intimista e quase um ode à Rose, na tentativa de buscar perspectivas além do aparente clichê de seu personagem. Tal como a rosa (a flor), a qual somos facilmente tentados a descrever a partir da qualificação unânime que se encerra sobre ela mesma, qual seja, a sua notável beleza, Rose também pode ser facilmente encerrada como a caricatura exarcebada de uma mulher imatura que faz da paixão por um homem a única significação de sua vida.

E, na seara ficcional, Rose talvez não será lembrada com o mesmo louvor dramático que atribuímos a uma agente em missão governamental ou a desertora de uma organização secreta. Mas, Rose é também obstinada como essas heroínas e se faz de sua paixão uma sagrada missão (uma espécie de dever cívico a ela mesma), concebe e executa seus planos e ações com a maestria de ser invasiva ou invisível, tornando-se mais onipresente que a própria sombra de Charlie, o que lhe rendeu o apelido de stalker.

Não há barreiras físicas, policiais e legais (mesmo uma restraining order) que a detenham. Escala o terraço da casa de Charlie, aparece em seu carro, em seus encontros, nos bares, frequenta o seu sono, o seu banho e o cesto de suas roupas sujas. Contudo, não caiam em tentação de compará-la a Alex Forrest (célebre personagem de Glenn Close, em “Atração Fatal”), pois a maior densidade emocional e profissional de Rose não a permite cometer arroubos “terrorísticos”, tornando-a assustadoramente vulgar e odiosa.

O seu vasto currículo acadêmico, que inclui pós-graduação em Psicologia Comportamental, não a qualifica, necessariamente, como uma pessoa consciente de sua condição e da capacidade de se auto-medicar, mas a torna detentora de recursos teóricos manipulados em seu benefício, ou seja, Charlie é sua satisfação pessoal e locus privilegiado de sua práxis. Ela não precisa pegar em armas, tecnologia high-tech ou ferir para ser temida, basta compreender os temores, os apetites e as neuroses de Charlie. E, antes que essas últimas linhas sejam exemplarmente vistas como um elogio patológico, atenham-se à expressão “quase”, que foi utilizada antes do “ode” em passagem anterior. Mas, sobretudo, peço que aqueles que se sentem confortáveis com seus ideais, sua vida, profissão e com o mundo não prossigam com a leitura.

A obsessão, partindo de seu aspecto construtivista e conceitual, é o que notabiliza a elaboração de Rose, mas é também o que produziu e produz as pessoas que costumamos prestar atenção. Perseguir um fim, que nunca se encerra satisfatoriamente sobre si mesmo ou que talvez não seja efetivamente tocado, é uma missão privilegiada para poucos. E compramos este tipo de saga, consumimos ‘cases’ sobre histórias de estrondoso sucesso de profissionais ou imigrantes que iniciaram de ruínas, admiramos os ‘outsiders’, quando poderiam levar uma confortável vida emocional burguesa, cultuamos líderes que falharam ao tentar mudar o mundo. Ou, para tornar a narrativa mais concreta, nos surpreendemos com tamanha paixão que um escritor, jornalista, fotógrafo, criador pode nos despertar, porque suas paixões e objetivos são constantemente mobilizados e publicizados.

O resto apenas vive e sobrevive ou, sofregamente, sublima. Seria uma espécie de predestinação ser “auto-obsessivo”, ignorar ou cegar-se diante de barreiras reais ou imaginárias e perseguir um fim que nunca ensejará a satisfação total? Um caminho que poderá causar danos, constrangimentos e renúncias aos olhares dos outros? Nem mesmo Rose teria a ilusão de que a conquista de Charlie significaria sua estabilidade, pois qualquer que seja o objetivo perseguido, o seu alcance obedece à dinâmica do devir.
Trata-se de um traço inerente a uma personalidade tenaz ou simplesmente a sorte daqueles que sempre souberam o que queriam perseguir? Ambos conjugados, talvez, com a prática de cultuar a insatisfação feliz permanente? Sem recorrer ao raciocínio mais preguiçoso, que subsumiria o fenômeno como decorrência das raízes materiais de classe, nivelando, consequentemente, todos os esforços, suor e trabalho sob uma única e homogênea medida causal, há, inquestionavelmente, um vácuo interrogativo.

Rose pode ser uma caricatura, mas, certamente, não linear, porque empresta sua obstinação profissional (de tempos em tempos, reflexiva) e humor aos que se questionam – dolorosamente ou não, conscientemente ou não – sobre a perda ou ausência de suas existências como ‘stalkers’.

Edição: Vol. 1 Nº 3 (mar/2011)
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Publicado em 21/03/2011, às 13:48.


Sobre Regina Ikezaki

Regina possui duas graduações das quais não tem nada a declarar. Mora numa grande metrópole que prefere ficar anônima, e escreve textos tendo a certeza de que jamais serão lidos por quem quer que seja.

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2 comentários sobre “Eu gostaria de ser uma stalker”

  1. monica costa netto

    Eu adorei! Embora nada saiba sobre essa série, além de saber que ela existe, muito menos sobre Rose… O texto está não só muito bem escrito, como o pensamento é dos mais interessantes. Parabéns, mesmo. Quando puder virei aqui ler outros textos seus, desta vez foi puro acaso virtual…