O curioso caso de Elizabeth Lemon

– Sabe, não sei se você percebeu, mas você é uma Liz Lemon de calças.
– Eu tenho quase certeza que Liz Lemon usa calças…

Há mais ou menos dois anos esse foi o diálogo que antecedeu um infeliz término de namoro na minha vida. Não que o fato de ser classificado como uma versão masculina da Liz Lemon tenha sido o ponto de ruptura, mas certamente a comparação não foi fortuita na hora de estabelecer um relacionamento duradouro. Passando a acreditar piamente no preceito estabelecido antes de receber o tal fora, acabei me deixando levar pela ilusão de que talvez a ficção se aplicasse mesmo ao meu caso.

Entretanto, antes de sequer entrar na questão como eu – ou se – “Liz Lemonizei” minha vida, fez-se necessário dar uma boa olhada nos fatos sobre Liz. A personagem interpretada por Tina Fey na série que já dura cinco temporadas é uma bem sucedida roteirista de um programa de comédia, se declara uma feminista moderna e acredita não ter sorte no amor, possivelmente por ser uma combinação explosiva de controvérsias – tal como qualquer outra pessoa – que incluem um complexo deturpado de auto-imagem, um conjunto de opiniões sobre quaisquer assuntos e uma adoração incompreendida por “Star Wars” e pratos de queijos.

Por trás dessa coleção de informações específicas, Lemon está cercada por personagens de moral deturpada, que acumulam fobias e maneirismos sociais capazes de fazer a alegria de uma ala psiquiátrica inteira. Se por um lado a roteirista-chefe do The Girlie Show (TGS) tem que lidar com atores e suas exigências absurdas, por outro Liz é forçada a contra-balancear a própria vida pessoal com a rotina de trabalho, simulando ali mesmo uma relação de amizade com seus colegas e, principalmente, com o chefe, Jack Donaghy. Entre queixas de seus subordinados e a dificuldade de lidar com as idiossincrasias do mundo corporativo que cerca a NBC – sua emissora –, Lemon conseguiu ao longo dos últimos anos estabelecer algumas das mais estapafúrdias relações amorosas já vividas na ficção.

Divididos pelas temporadas, os namoros da personagem entram em conflito com sua assumida essência feminista – ou pós-feminista – que não será destrinchada nesse artigo, mas que você pode tentar compreender lendo “13 Ways of Looking at Liz Lemon” escrito pela excelente Sady Doyle que debate a suspeita falta de verdadeiras amizades femininas em “30 Rock”. O objetivo do texto que eu lhe apresento abaixo é, na verdade, compreender, ou pelo menos tentar, os meandros do “Lemonismo” no que se refere a relacionamentos difíceis, mas que foram potencialmente arruinados não pela incapacidade do mundo de lidar com nossa protagonista, mas pelas próprias controvérsias de Liz enquanto uma dúbia construção de Tina Fey:

O caso de Dennis Duffy

Dennis: (…) Se dependesse de mim, ficaríamos juntos para sempre. Mas há uma coisa nova chamada “libertação da mulher”, que dá às mulheres o direito de escolher, você escolheu me abortar e eu preciso viver com isso. Portanto, esta noite, quando você chegar em casa, eu terei ido embora.1

O primeiro namorado que conhecemos de Liz – não o primeiro com quem ela perdeu a virgindade, nos fundos de uma escola de palhaços aos 25 anos – foi Dennis Duffy (Dean Winters), o vendedor de pagers que possuía uma tendência incomensurável de se constranger em programas jornalísticos de televisão. Quando o conhecemos, fica claro que, pela ótica de Liz, Dennis é o estereótipo do perdedor americano. Sem um trabalho promissor, sem um teto para morar e sem quaisquer perspectivas de fidelidade, o namorado de Liz tinha como único atrativo – se descontarmos sua aparência; existe gosto para tudo – ser um igual a ela no quesito senso de humor. Juntos, Liz e Dennis eram imbatíveis na hora de humilhar aqueles ao seu redor. A combinação de acidez e sarcasmo dava a liga suficiente para que ambos transmitissem a ideia de que pertenciam um ao outro.

Entendendo as necessidades de Liz – que gostava de ser recebida com sanduíches ao chegar em casa após um longo dia de trabalho – Dennis Duffy estabeleceu a regra dos futuros relacionamentos fugidios que marcariam a vida da personagem e cometeu o deslize final ao ter uma de suas traições filmadas e transmitidas pela televisão. Expulsando o namorado de sua vida, Liz Lemon estabeleceu para si que a infidelidade seria a gota d’água num relacionamento já fadado ao insucesso.

Entretanto, nos poucos episódios em que vimos Dennis fazer parte de sua rotina, jamais vimos de Liz uma real preocupação com o destino do namorado. Com um pé dentro e outro fora do relacionamento, nossa primeira visão dela enquanto par romântico já começou sob a ótica da desconfiança. Declaradamente contra as convenções sociais, Liz cedeu facilmente às impressões gerais dos mais próximos, passando a negar Dennis como namorado já que ele não atenderia os padrões de uma relação promissora mesmo antes de qualquer traição. Criada como contraponto para que a mitologia de “30 Rock” pudesse estabelecer Liz como alguém diferente da heroína romântica tradição, a relação com Dennis Duffy acabou por servir de embuste não apenas para estabelecer as bases de uma personagem alegadamente independente, mas para contrapô-la com os clichês que constituíam homens sem ambição.

O caso de Floyd DeBarber

Floyd: Como você está solteira, Liz? Tem tantos caras por aí que você pode controlar e envenenar.2

A próxima etapa no estabelecimento de uma rica – ou quase isso – vida amorosa para Liz Lemon veio na forma de um advogado chamado Floyd (Jason Sudeikis). Fruto de um engano, o encontro entre o casal se deu por culpa de uma entrega equivocada de flores no Dia dos Namorados, feriado repudiado pela protagonista em parte por suas convicções morais e em parte pelo despeito de estar solteira durante a data. Namorando Liz Lemler, do Departamento de Contabilidade da NBC, Floyd nos foi apresentado como um cara pacato, com doses certas de ambição e um passado um pouco melhor construído do que o de Dennis Duffy. Alcóolatra em recuperação, Floyd teve uma de suas reuniões do AA invadidas por Liz que, imediatamente apaixonada, decidiu se passar por viciada para facilitar a aproximação.

Conforme descíamos os degraus da intimidade entre os dois e éramos conduzidos a torcer por um final feliz para o casal, aprendemos a enxergar o lado potencialmente perigoso de Liz. Projetar uma outra persona para atrair Floyd pode ser considerado o mais leve dos delitos de caráter quando descobrimos que, com o poder de cortar funcionários da emissora em tempos de crises, Lemon foi responsável pela demissão de Liz Lemler, a atual e esperançosa namorada de Floyd. Após os eventuais desencontros, o casal finalmente iniciou seu promissor namoro.

Adaptado à vida de Liz, Floyd não se desenvolveu além do que já sabíamos desde o ínicio até que a perda de uma oportunidade de trabalho dentro da própria NBC o forçou a procurar uma alternativa melhor em Cleveland. Numa das melhores sequências de “30 Rock” até então, Liz é apresentada a uma cidade de sonho, onde não só a população é gentil, como suas chances de um emprego dos sonhos são possíveis e – pasme – a própria Liz é confundida com uma modelo nas ruas. Ao apresentar sua proposta de se mudar para a cidade, Floyd inadvertidamente rompe com o ciclo de calmaria na vida de Lemon, forçando-a a tomar uma decisão pelo término. O que motivava Liz a ficar mesmo em Nova York? O que faria do TGS um lugar pelo qual ela deveria lutar em detrimento de uma suposta vaga como apresentadora de um programa de culinária em Cleveland?

Sem responder a nenhuma dessas perguntas, Liz espera que a distância encerre o relacionamento, que acaba por receber seu ponto final quando uma desconhecida voz feminina atende o telefone de Floyd. Solteira mais uma vez, a roteirista do TGS não hesita em comprar um vestido de noiva para si mesma, vitimizando-se como alguém incapaz de encontrar “o homem ideal”.

O caso de Dr. Drew Baird

Liz: Você não pode colocar Gatorade sobre o salmão.
Drew: Sim, posso – a bonitona italiana da Food Network que me disse isso.
Liz: Ela disse isso na TV?
Drew: Não, ela disse para mim quando ela saltou escadas rolantes para tentar conversar … oh.3

Após mais alguns fugazes fracassos em sua vida amorosa, Liz Lemon reencontrou a chance de um relacionamento sério nos braços do vizinho interpretado por Jon Hamm, Dr. Drew Baird. Emulando as exatas estratégias que utilizou com Floyd, Liz altera marcadamente sua personalidade chegando a inventar um cachorro perdido para atrair a atenção do inocente doutor. Após uma série de desencontros e um acelerado processo de aproximação, Liz e Drew encontram o caminho até um relacionamento estável que já havia começado em uma base de incerteza ilógica: a de que Liz Lemon não estaria à altura de Drew. Noção constantemente reforçada desde que conhecemos a personagem.4

Apesar de ser uma bem sucedida funcionária da NBC, responsável pelo próprio show e ter uma confortável vida em Nova York, Liz é assolada pela ideia de que sua beleza está abaixo da média. Notadamente, por trás dos óculos e dos trejeitos masculinizados, Liz Lemon é uma bela mulher balzaquiana que, insegura de sua própria feminilidade, projeta uma deturpada auto-imagem diante de todos os relacionamentos que estabelece. No entanto, se a insegurança é a característica que faria de Lemon uma amante retraída [e eu tenho calafrios escrevendo essa expressão, assim como Liz teria], seus atos mostram o exato oposto na relação com Drew. Ciente de que o médico extrapolava todos os critérios da beleza, Liz não demora a perceber que havia algo faltando em Drew.

Quando apresentada ao conceito da “bolha” por Jack,

Jack: Pessoas bonitas são tratadas diferentemente das moderadamente … pessoas de aparência agradável. É verdade. Eles vivem em uma bolha. Uma bolha de bebidas de graça, gentilezas e sexo ao ar livre.5

Liz percebeu que o tanto de beleza era inversamente proporcional à inteligência de Drew; logo, sua atração por ele sofreu uma imediata queda. A frase “Tão bonito, tão tão estúpido” encerrou o relacionamento com base na incompatibilidade de gênios – ou na ausência completa de genialidade. Superficialmente, Liz dá fim ao romance de forma unilateral e distante, descartando qualquer possibilidade de uma retomada mesmo quando revê Drew algum tempo depois, ele agora uma vítima de sua própria ‘burrice’.

O caso de Carol Burnett

Dave: Talvez este seja um daqueles momentos em que ambos devem contar até três e dizerem juntos, “Eu estava errado”.
Carol: [ao mesmo tempo em que Liz] Um, dois, três, NUNCA!
Liz: [ao mesmo tempo em que Carol] Um, dois, três, NUNCA!
Kate: Como vocês dois estão namorando!? Vocês são muito parecidos!6

Depois de um traumático encontro com Wesley Snipes, o cidadão inglês que deveria ser sua “alma gêmea conformada”, Liz Lemon decidiu racionalmente abandonar sua crença no amor e no estereótipo que criara para si do homem perfeito, o Astronauta Mike Dexter. Apesar de lutar contra a idealização de romance desde a primeira temporada, a personagem jamais hesitou em se entregar a um possível relacionamento, constantemente anulando – sem sucesso – sua personalidade para atrair aqueles por quem se interessava. Quando Carol, o piloto interpretado por Matt Damon, surgiu no final da quarta temporada, Liz mais uma vez usou do disfarce para se aproximar da figura que muito bem poderia ser o astronauta de sua imaginação.

Entretanto, seu embuste durou poucos minutos já que, prejudicada por sua própria ansiedade, Lemon acabou por se expor na frente de Carol durante seu primeiro pseudo-encontro. O que parecia ser uma versão relâmpago de alguns de seus relacionamentos anteriores, acabou se tornando um dos mais duradouros – na escala de Liz – namoros da série até então. Similar a Liz em quase todos os sentidos, Carol constituia-se num namorado perfeito com o qual Lemon poderia ser ela própria até certo ponto.

Preocupada com a possível descoberta de incompatibilidades que levariam a um término, Liz tentou por diversas vezes sabotar seu relacionamento com base em traumas sexuais ou salientando a dificuldade – até então nunca vista – de mergulhar plenamente em suas próprias emoções e de fato desenvolver intimidade com o namorado. Levada a conhecer o lado sensível de Carol graças a uma armadilha de Jack, Lemon não soube lidar com as inseguranças alheias e o choro infantil do piloto que deixava o pedestal do astronauta e descia à Terra para o abraço da namorada.

Mais uma vez, apesar de estar com os pés fincados na noção de um feminismo moderno que transmite a imagem de independência, Liz parece ter dificuldades claras em lidar com características historicamente – para bem e para mal – atribuídas às mulheres, tais como sensibilidade e instrospecção. Apesar do abrupto término com Carol ter se fundamentado na noção de que ambos “eram muito parecidos”, a verdade é que Liz não conseguiu se assemelhar ao possível conjugue quando ele se viu forçado a precisar de sua compreensão.

Optando por terminar ao se ver na mira literal de uma arma, ela retomou rapidamente o discurso de independência mesclado com o auto-abandono dos cuidados consigo no episódio seguinte. Fato que reforçou momentaneamente a noção de que para mulheres como ela – na lógica interna de “30 Rock” – a busca por um relacionamento estável é, por diversas vezes, complicada, já que seus pares raramente se encaixam no conjunto de preceitos pré-estabelecidos.

Seria esse o retrato do feminismo que Liz Lemon pretendia evocar quando Tina Fey a idealizou ou seria o comportamento de Liz, como demonstrado no decorrer desta explanação, uma subversão dos clichês que permeiam o ideário das comédias românticas das últimas décadas? Ainda que seus namorados sejam infiéis, ambiciosos, pouco inteligentes ou emocionalmente exigentes, Lemon raramente representou em suas vidas o que eles representaram na dela. Todos eles, antes de apresentarem seus derradeiros defeitos, procuraram na personagem algo com o qual se conectar, algo que fosse além das histrionices de uma mulher no fim de seus trinta anos que tem dificuldades em diferenciar a necessidade de estar acompanhada com a noção de que ser independente ultrapassa o simplismo de se estar sozinha.

  1. “30 Rock: The Break-Up (#1.8)” []
  2. “30 Rock: Floyd (#4.16)” []
  3. “30 Rock: The Bubble (#3.15)” []
  4. Vale aqui lembrar que esse pensamento foi primeiramente estabelecido no episódio “The Head and the Hair”,  #1.11 []
  5. idem 3 []
  6. “30 Rock: Double-Edged Sword (#5.14)” []
Edição: Vol. 1 Nº 2 (mar/2011)
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Publicado em 6/03/2011, às 14:15.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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