A invenção de Lady Gaga e Jedward

À primeira vista, colocar Lady Gaga e Jedward na mesma frase pode parecer sacrilégio – poderia até existir uma regra sobre isso no tal Gagaísmo, se Jedward fosse um pouco mais conhecido.

De um lado, Lady Gaga é uma consagrada artista nova-iorquina com passagem pela Escola de Artes da Universidade de Nova York, ambições filosóficas, carreira de compositora, reconhecimento da crítica muito sucesso de público. Do outro, John e Edward Grimes são irmãos gêmeos irlandeses que usaram um reality-show para cruzar a fronteira entre tietagem e fama, lançando um disco pouco memorável de covers que foi alvo de chacota da crítica e percebido por uma fatia bastante limitada do público.

O próximo passo de Gaga é um aguardado segundo álbum de inéditas; o próximo passo de Jedward pode ser algum outro reality-show ou simplesmente o esquecimento.

Mas Lady Gada e Jedward têm mais em comum do que uma parceria com ex-famosos (New Kids on the Block, no caso da cantora, e Vanilla Ice, para a dupla). Apesar de toda a diferença de estatura, Gaga e os irmãos Grimes são representantes claros do cenário pop no final da primeira década do século 21: os dois artistas tiveram que virar construções para conquistarem o sucesso.

Madonna era Madonna, Britney era Britney, mas Lady Gaga teve que deixar Stefani Joanne Angelina Germanotta para trás para virar popstar. Jedward também é uma criação: nos testes do X Factor britânico, os irmãos chegaram como “John & Edward”. A entidade “Jedward” surgiu entre os fãs e na imprensa durante a temporada – uma aglutinação usada costumeiramente para casais (de Bennifer a Brangelina) – e virou o nome do produto final.

“Lady Gaga” e “Jedward” são diferentes da Sasha Fierce que Beyoncé apresentou como seu alter ego mais dançante e agressivo. Beyoncé já era Beyoncé, cantora famosa, antes de tentar se dividir. Mais do que isso: Beyoncé já era percebida como sexy pelo público, e a tal Sasha Fierce acabou sendo desnecessária.

Já Lady Gaga é uma colagem de figurinos sem calças, roupas feitas de carne, clipes elaborados e discursos explosivos. Stefani Germanotta não existia antes, e continua sem existir. E Jedward é o topete exagerado, as calças justas com tênis coloridos, as apresentações espalhafatosas e, principalmente, a visão dupla dos gêmeos idênticos. Identificar qual é o John e qual é o Edward simplesmente não é importante – o rótulo siamelizou os gêmeos.

Antes de conseguir lançar seu álbum de estreia, Gaga compunha e gravava vocais da apoio para outros artistas. Seu talento de cantora e compositora não era ignorado, mas ela simplesmente não era bonitinha como uma Britney Spears ou uma Katy Perry. Como Stefani Germanotta, ela era apenas mais uma entre tantas garotas querendo ser famosa; como Lady Gaga, ela é marcante.

O problema de John e Edward Grimes era o oposto: o produtor Louis Walsh (que apadrinhou a dupla no X Factor) reconheceu nos dois o visual de popstars, mas em nenhuma semana de programa os irmãos mostraram algum talento vocal convincente. As apresentações lembram uma versão musical e desastrosa de nado sincronizado: eles cantam os mesmos versos (mais ou menos) juntos, sem tentar variações ou alternar os vocais. Se não fossem gêmeos dispostos a levantar o topete a alturas inacreditáveis, não teriam qualquer chance contra aspirantes mais talentosos (e muitos o são).

Gaga e Jedward simbolizam sua época porque são popstars improváveis, que só existem por não serem mais as pessoas originais.

É claro que construção de imagem sempre foi importante no universo pop, do cabelo dos Beatles à presença (e às pernas) de Tina Turner, no estilo cuidadoso de qualquer boyband ou girlband. Mas também era importante a superação (ou tentativa de superação) dessa imagem, quando a fama já estava consolidada. Como uma atriz bonita que decide ficar feia para um papel que pode lhe render um Oscar.

Mais de uma década antes de Gaga e Jedward, as Spice Girls foram montadas peça a peça em testes e seleções que tentavam preencher todas as opções de aparência e estilo. Os apelidos – Ginger Spice, Scary Spice, Baby Spice, Sporty Spice, Posh Spice – foram inventados na imprensa britânica e rapidamente adotados pelo grupo – ganhando status “oficial” no segundo álbum do grupo, com direito a menção na faixa “The Lady is a Vamp”. Fazia sentido – os apelidos destacavam a personalidade que cada uma deveria ostentar, reforçando a imagem que o grupo deveria ter.

Mas mesmo as Spice Girls superaram essa embalagem. Quando partiu para sua carreira solo, Emma Bunton queria amadurecer a imagem de Baby Spice; Melanie Chisholm se livrou do rabo de cavalo da Sporty Spice. A passagem mais simbólica foi a de Geri Halliwell: a cantora trocou os cabelos ruivos pelo louro e enterrou a Ginger Spice no videoclipe de seu primeiro single solo, “Look at Me”.

O que une Lady Gaga e Jedward e os separa de seus antecessores é uma irônica falta de ambição: em vez de tentar provar que sua música transcende o rótulo, os dois artistas se mostram mais interessados em reforçar as características mais conhecidas do pacote.

Essa decisão talvez reconheça a força da embalagem – afinal, as mesmas Spice Girls entraram e declínio quando os estereótipos foram deixados de lado. Ou talvez reflita a necessidade de sobreviver com uma única imagem forte – mais forte que os outros estímulos que tentam ganhar a atenção dos fãs.

Mas é possível que o apego de Stefani, John e Edward a seus personagens seja apenas uma tentativa de não ser comum. Ser comum, como se sabe, é o primeiro sintoma da doença do anonimato.

Edição: Vol. 1 Nº 2 (mar/2011)
Tags:
Publicado em 4/03/2011, às 21:49.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

O que você achou?

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>