As Castas e as Casas de Hogwarts

Spoilers: O artigo traz citações de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, primeiro livro da série, e do epílogo de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, o volume final.

A ideia de Hogwarts é das mais sedutoras. Se o castelo escocês mágico e as aulas de feitiços não fossem suficientes, os banquetes no Grande Salão já seriam convincentes para qualquer um que passou tantos anos em uma daquelas escolas sem graça, com aulas de Física e Gramática – e, ainda por cima, com cantinas que deixavam muito a desejar. Mas existe uma característica de Hogwarts que deixa tudo bem menos interessante: a divisão dos estudantes em casas.

A determinação da casa a que cada estudante pertence é feita logo na primeira noite dos ingressantes e é essencial para a vida em Hogwarts. Segundo a professora Minerva McGonagall,

A seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui sua casa será uma espécie de família em Hogwarts. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão o tempo livre na sala comunal.1

Cada uma das quatro casas de Hogwarts está ligada a um dos quatro fundadores da escola, e o estudante de cada casa possui algumas características que o aproximam da personalidade do fundador. A canção do Chapéu Seletor diz que Grifinória, a casa de Godrico Gryffindor, é habitada pelos “corações indômitos”, que têm “ousadia, sangue-frio e nobreza”. Lufa-Lufa, a casa de Helga Hufflepuff, recebe os “justos e leais”, “pacientes, sinceros, sem medo da dor”. A casa Corvinal, de Rowena Ravenclaw, é a “dos que têm mente sempre alerta”, “homens de grande espírito e saber”. Finalmente, Salazar Slytherin está representado na Sonserina, casa dos “homens de astúcia que usam quaisquer meios para atingir os fins que antes colimaram”.

Se o Chapéu Seletor é o responsável pela distribuição dos alunos nas Casas e é assim que ele as define, é inevitável pensar que esse sistema é um tanto simplista.

Claro que a autora J. K. Rowling sabe muito bem que a personalidade de um indivíduo é mais complexa do que isso – e criou personagens devidamente tridimensionais. A brilhante e curiosa Hermione Granger seria uma ótima representante da casa Corvinal, mas sua inteligência era também ousada e ela foi indicada para a Grifinória. Na superfície, o bonzinho-e-um-pouco-atrapalhado Neville Longbottom poderia se enturmar facilmente com os colegas da Lufa-Lufa, mas ele demonstrou sua coragem de Grifinória em mais de uma ocasião. O mesmo ocorria em outras casas: o proto-vilão Draco Malfoy é um legítimo representante da Sonserina, mas com a mente afiada de um Corvinal. E quem poderia dizer que a avoada Luna Lovegood (Corvinal) ou o herói trágico Cedrico Diggory (Lufa-Lufa) não tinham coragem?

O Chapéu Seletor, criação de Rowling, também admite que somos uma coleção de características diversas formando personalidades não tão óbvias assim. Quando Harry Potter expressa sua aversão à casa Sonserina, o Chapéu retruca:

Sonserina não, hein? Tem certeza? Você poderia ser grande, sabe, está tudo aqui na sua cabeça, e a Sonserina lhe ajudaria a alcançar essa grandeza, sem dúvida nenhuma, não?2

E, em seguida, reconhece que Potter pode caber em outra Casa e destina sua coragem impulsiva à Grifinória – que ele dividiria com seu primeiro melhor amigo, Rony Weasley.

Rony Weasley, aliás, esperou apenas um segundo até que o Chapéu Seletor enviasse mais um membro do clã à Grifinória. O Chapéu mal teve que tocar a cabeça (na expressão utilizada pelo livro) de outro herdeiro de família tradicional, Draco Malfoy, antes de indicá-lo à casa de seus pais, a Sonserina.

O que leva a mais uma preocupação quanto ao sistema de Casas: certas escolhas parecem estar no sangue.

As gêmeas Padma e Parvati Patil foram indicadas a casas diferentes (a primeira é da Corvinal e a segunda é da Grifinória), mas sobram exemplos de famílias que parecem adotar uma Casa. Sirius Black foi o único de seu clã destinado à Grifinória – uma exceção que apenas reforça que todos os outros membros da família pertenciam à Sonserina. Além dos Weasleys e dos Malfoys, os irmãos Creevey também dividiam a mesma Casa (Grifinória). Mesmo Harry Potter é da Grifinória, como os pais com quem ele não cresceu. Harry, aliás, é um jogador de Quadribol talentoso como seu pai James/Tiago e tem o mesmo Patrono que ele.

Esse lado “filho de peixe…” destoa de uma mensagem mais forte da saga – a de que a “pureza” do sangue não significa nada e que origem de cada personagem não é o que o define. Afinal, um bruxo pode nascer em uma família trouxa – e pode ainda tornar-se brilhante, como Hermione Granger e Lily Evans (Potter).

Talvez a concentração de famílias em casas seja apenas uma limitação do método adotado em Hogwarts. O Chapéu Seletor pode ser mágico, mas seria necessário magia das mais negras para enxergar a personalidade que crescerá naquela criança de 11 anos. Assim, o Chapéu poderia supor que as afinidades familiares são suficientes para determinar a Casa – a não ser que a diferença esteja bastante clara.

Também não se pode desconsiderar que compartilhar a mesma sala comunal facilita a vida das famílias bruxas, já que o sucesso de uma Casa significa a derrota de outra. Isso devido a uma implicação desse sistema: a competição. A explicação de McGonagall sobre as Casas de Hogwarts, citada anteriormente, continua assim:

Enquanto estiverem em Hogwarts os seus acertos renderão pontos para sua casa, enquanto os erros a farão perder. No fim do ano, a casa com o maior numero de pontos receberá a Taça da Casa, uma grande honra.3

Consequentemente, o ano letivo de Hogwarts é marcado por um dá-e-tira-pontos por qualquer um que tenha autoridade para tal (professores e monitores). O sucesso acadêmico de um aluno rende pontos para a Casa e a ajuda a superar as rivais na competição anual; comportamentos considerados negativos – atrasos, insubordinações, brigas – são punidos com a perda de pontos da Casa. O clima de competição afeta estudantes e professores.

Como a história é contada pelo lado grifinoriano de Harry, Rony e Hermione, parece ser mais óbvia a parcialidade do professor de poções Severo Snape. Chefe da casa Sonserina, Snape favorece os pupilos de sua própria casa e tira pontos de Potter até por levar um livro da biblioteca “para fora da escola”.

Mas a respeitável Minerva McGonagall, professora de Transfiguração, também usou uma medida diferente para a casa Grifinória, chefiada por ela. Quando Harry Potter voa sem supervisão, de forma perigosa e contra as ordens expressas de Madame Hooch, McGonagall vai buscá-lo na aula não para dar uma bronca, mas para apresentá-lo a Olívio Wood, o capitão do time de Quadribol da Grifinória. Ela havia, afinal, encontrado um talentoso apanhador para seu time. O “jeitinho” não parou por aí: McGonagall teve que pedir a Dumbledore para “contornar o regulamento” que proibia alunos do primeiro ano nos times (eles sequer podem ter uma vassoura própria). O espírito competitivo da professora fica ainda mais claro na mesma conversa com Wood:

Deus sabe que precisamos de um time melhor do que o do ano passado. Esmagado naquele último jogo contra os sonserinos. Mal consegui encarar Severo Snape no rosto durante semanas…4

Nem mesmo Albus Dumbledore consegue ser completamente justo quando se trata da Taça da Casa. Ao final de “Harry Potter e a Pedra Filosofal” – talvez o último momento em que o mago pôde se preocupar com algo tão trivial! –, Dumbledore inventa 160 pontos (50 para Harry, 50 para Rony, 50 para Hermione e 10 para Neville) na última hora, concedendo à Grifinória o título daquele ano. A manobra pode ter sido uma recompensa pequena para os serviços prestados pelo trio na batalha contra Voldemort e o lado negro da Mágica, mas não deixa de ser um tanto injusta aos estudantes de Sonserina, que eram os campeões até aquele momento.

Além dos escorregões éticos do corpo docente, é lamentável também a situação dos próprios estudantes. Temendo que a Casa perca pontos, eles se policiam e reprovam colegas que sofram punições, sem questionar os motivos.

O famoso ato de coragem de Neville do primeiro ano de Hogwarts (recompensado por Dumbledore com os 10 pontos) foi uma tentativa de impedir que Harry, Rony e Hermione saíssem da Casa fora do horário permitido para proteger a Pedra Filosofal:

Vocês não podem sair. Vocês vão ser pegos outra vez. Grifinória vai ficar ainda mais enrolada.5

Os três colegas tentaram argumentar que o motivo era importante e justificava a indisciplina (e os pontos que ela poderia custar), mas Neville estava pronto para brigar para evitar que a Grifinória perdesse mais pontos com a infração ao regulamento da escola.

Dessa forma, a competição e os pontos transforma os estudantes em seus próprios bedéis, estimulando o conformismo às regras e a rivalidade entre Casas. Rivalidade que impede a unidade em Hogwarts e gera preconceito em toda a escola.

O preconceito entre Casas, como qualquer outro preconceito, pode muito bem vir da família. Em seu primeiro encontro com Harry Potter, na loja Madame Malkin, Draco Malfoy completa sua certeza de que seria selecionado para a Sonserina declarando:

Imagine ficar na Lufa-Lufa, acho que eu saia da escola, você não?6

Mas é ingenuidade acreditar que preconceito é um problema restrito a uma Casa. Durante a Cerimônia de Seleção, quando conhecia quase nada sobre Hogwarts e seus novos colegas, Harry Potter pediu que o Chapéu não o enviasse à Sonserina e já achou que os estudantes daquela Casa “formavam um grupo de aparência desagradável”. O mesmo Harry, tentando animar seu companheiro de Grifinória Neville Longbottom, argumentou que

O Chapéu Seletor escolheu você para Grifinória, não foi? E onde está Draco? Naquela Sonserina nojenta.7

A Sonserina, afinal, foi a Casa de Voldemort. Era a Casa dos Malfoys, assim como de vários herdeiros de Comensais da Morte (famílias como Crabble, Goyle e Nott). Mas a Sonserina era também a Casa de Severo Snape, um bruxo que provou sua nobreza e lealdade realizando os trabalhos mais difíceis e sob a desconfiança de todos.

A tendência da Sonserina como Casa de futuros Comensais da Morte, aliás, não deixa de ser uma consequência do próprio sistema de Casas. Seus moradores receberam os mesmos discursos de seus pais e eram confinados às mesmas aulas e à mesma sala comunal. Não havia espaço para outro tipo de perspectiva. Não foram oferecidas condições para um debate e, portanto, para uma mudança de pensamento.

Mas as batalhas, afinal, permitem mudanças de pensamento. Se existe mérito na existência do tão criticado epílogo, ele está em encontrar um Harry Potter que começou a enxergar além do sistema de Casas. Ao perceber o receio de seu filho Albus Severus, que temia ser destacado à Sonserina, Harry finalmente explica:

Você tem o nome de dois diretores de Hogwarts. Um deles era da Sonserina e provavelmente o homem mais corajoso que já conheci. (…) A Casa de Sonserina ganhará um excelente aluno, não é? Isso não é importante para nós, Al.8

Ao menos um dos estudantes chegará bem informado ao castelo.

  1. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 7, página 101 []
  2. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 7, página 107 []
  3. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 7, página 102 []
  4. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 9, página 133 []
  5. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 16, página 233 []
  6. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 5, página 71 []
  7. “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, capítulo 13, página 188 []
  8. “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, epílogo, página 589 []
Edição: Vol. 1 Nº 1 (fev/2011)
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Publicado em 21/02/2011, às 7:02.


Sobre Lhys

Lhys lê e-mails compulsivamente e não conhece o significado de TMI. É formada em jornalismo e tem mestrado em Ciências da Comunicação. Mas não se iluda com o título: sua principal função é assistir TV e defender a arte esquecida das boybands. De vez em quando, assina como Luciana Silveira.

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Um comentário sobre As Castas e as Casas de Hogwarts

  1. José

    Seu artigo é bom, mas tem algumas coisas das quais discordo.

    A questão da Sonserina ser ou não ser uma casa nojenta não é tanto um preconceito, mas um conceito formado a partir da reputação de seu fundador, um ASSASSINO que de forma premeditada colocou um monstro na escola com o objetivo de matar sangue-ruins. E de fato chegou a MATAR uma aluna. Claro que isso só é revelado no 2º livro, mas o naipe da maioria dos estudantes já indicava isso (“a obsessão com a pureza do sangue”). mas os professores e Hagrid já sabiam da história da Câmara. Céus! Se eu fosse o diretor teria chutado essa Casa da escola, e permanecido com as outras 3. Ou então excluido o critério do sangue e permanecido só com os outros atributons de fato positivos (ambição, inteligência, persuasão) valorizados por Slytherin.

    A questão é que no fim das contas o chapéu respeita, em última instância, a vontade do aluno. O que fez de Harry ser o que ele se tornou foi o fato de ele ter rejeitado desde o princípio a casa que mais gerou bruxos das trevas (e olha que ele nunca teve propensão à arte das trevas, mesmo compartilhando a alma com o maior bruxo das trevas que já existiu).

    Apesar que considero que o autêntico representante “inofensivo” da casa de Sonserina é Horácio Slughorn, que preza o fato da pessoa ser famosa ou não, se é bem relacionada ou não, e se surpreende que uma aluno pudesse ser tão boa mesmo sendo nascida-trouxa. Claro que daí a ser um comensal vai uma boa distância.

    Em relação à Snape, o fato de ele poder segurar a espada da grifinória prova que no final das contas, em termos de valores, ele estava (ou se tornou) muito mais um grifinório do que um sonserino. Mas quando criança/adolescente tinha aquela obsessão com a pureza do sangue, mesmo sendo apaixonado por uma “sangue-ruim”, tanto que num momento de fúria extravasa inadvertidamente seu preconceito. “É assim que você chama todos que nasceram como eu. Por que eu seria diferente?”, diria mais tarde, Lílian.

    No entanto, seu arrependimento e suas ações futuras mostram a mudança de valores.

    J.K. Rowling afirmou que a Sonserina deixou de ser bastião dos sangue-puros, embora sua reputação sombria permancesse. Também… é o mesmo que tentar reformar um partido fundado por Hitler, tentando salvar os itens programaticos minimamente decentes (se algum). Ou tentar convencer as pessoas de que a suástica NÃO é um símbolo de opressão. Originalmente, podia não ser, mas Hitler cuidou para que o significado do símbolo fosse irremediavelmente pervertido. Alguém teria coragem de sair com uma suástica sob a alegação de que acha esteticamente bonito? Só um doido. Aliás, esse foi bem o caso do símbolo das relíquias e a confusão estabelecida pela associação com Grindewald… mas estou perdendo o foco… voltando…

    O que eu concordo com seu artigo é que talvez as coisas seriam muito, muito diferentes se não houvesse a Seleção e os alunos estudassem todos juntos… ou a seleção poderia se dar mais à frente… de fato esse é um daqueles lances simplificadores… que nem a história da Taça Tribuxo como juiz imparcial, que parece tirada meio do éter…