A Inteligência da Skynet

Spoilers: O artigo traz citações da quadrilogia cinematógrafica "Terminator".

Fruto de uma  controversa viagem no tempo, Skynet é imediatamente associada a um conjunto de malévolos vilões da ficção. Entretanto, seria ela uma das maiores antagonistas do cinema ou estaria sua maldade submissa aos próprios homens e a inevitabilidade de seu destino?

Reese: SKYNET. Um sistema computadorizado de defesa construido para o SAC-NORAD pela Cyber Dynamics. Uma modicação da série 4800.

No quarto rascunho do roteiro finalizado em abril de 1983, James Cameron ainda não fazia ideia da dimensão de seu antagonista. Em 2009, após ter passado por um grupo diverso de roteiristas e diretores, a inteligência artificial que rivaliza com alguns dos maiores vilões da história cinematográfica recente começou a sair de seu isolamento e tomar definitivamente o posto de maior inimiga da Humanidade. Com apenas três menções no script original de “O Exterminador do Futuro” versus trinta e oito no script revisado de “O Exterminador do Futuro: A Salvação”(2009), Skynet passou de entidade invisível que enviava robôs de volta no tempo para matar aquele que seria o seu futuro algoz a uma insidiosa e articulada presença que assombra o adulto John Connor, atraindo-o para si ao invés de afastá-lo a todo custo.

Em que ponto Skynet se qualifica como uma Inteligência Artificial e seria ela capaz de algo mais avançado do que tratar a destruição da humanidade? De acordo com Allen Newello, notório pesquisador em ciência da computação e psicólogo cognitivo especializado em verdadeiras inteligências artificiais, o que define a IA é:

o grau em que um sistema se aproxima de um sistema de conhecimento. Inteligência perfeita é definida como a habilidade de trazer todo o conhecimento que um sistema tem ao seu dispor para suportar a solução de um problema (que é sinônimo de alcance da meta).1

Quando fomos apresentados por Kyle Reese ao conceito “Skynet”, descobrimos parcialmente no que sua programação essencial consistia:

Reese: … ela não teve escolha. A grade de defesa estava destruída. Nós dominamos os mainframes… Tínhamos vencido. Eliminar Connor então não faria diferença. Skynet tinha que eliminar sua existência completa.

Perdendo a guerra iniciada, até então sem uma justificativa plausível, a primeira máquina auto-suficiente supostamente criada pelo homem enxergou em John Connor, líder da Resistência e estrategista extraordinário, seu maior nêmesis. Destruí-lo no presente não bastaria; seria necessário que ele nunca tivesse existido. Criando a viagem no tempo para atender a sua própria necessidade a auto-preservação, Skynet enviou um de seus soldados até o ano de 1984 com a missão de eliminar a mãe do líder dos rebeldes, Sarah Connor. No que compete ao modelo enviado, um T-800 capaz de se disfarçar entre os homens com certa facilidade, a missão de eliminar Sarah Connor era clara. Entretanto, apesar de representar sua própria Inteligência Artificial, o modelo T-800 foi incapaz de se desviar dos parâmetros de missão que lhe foram traçados, e suas limitações em improvisação causaram sua ruína. Enquanto espólio de uma IA capaz de fazer do mundo inteiro refém, o modelo enviado para 1984 parecia não possuir grande capacidade estratégica, chegando a depender da ação imprevisível de seus alvos humanos para executar passos seguintes.

Até então, não tínhamos quaisquer pistas sobre como Skynet replicava seus soldados metálicos ou se havia neles a mesma capacidade de articulação de sua progenitora. Foi apenas em “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final” que pudemos compreender o real desenvolvimento da IA, agora não mais submissa aos desígnios de sua criadora. Em um diálogo entre Sarah Connor, transformada pelo primeiro confronto com as máquinas, e o modelo T-800 reprogramado e enviado ao passado para protegê-la e a seu filho, pudemos compreender como Skynet articulava seu exército:

Terminator: Minha CPU é um processador de rede neural… um computador que aprende. Mas a Skynet programa o switch para “apenas-leitura” quando somos enviados sozinhos.

Sarah: Ela não quer que vocês pensem muito, certo?

Terminator: Não.

Tendo estabelecido que a maior IA já criada mantém suas criações limitadas ao conceito de abelhas operárias, o roteiro de “O Exterminador do Futuro 2″ passa a explorar uma nova ideia: a de que é possível, com o contato humano, construir algo que ultrapassa o pensamento puramente estratégico, extrapolando consequentemente a base central do que entendemos por Skynet. Se noções como compaixão, misercórdia e até mesmo humor podem ser assimiladas e retrabalhadas pelas criações da Skynet, o que impediu a própria de desenvolver o mesmo tipo de relação com a humanidade que a cercou?

Fato é que a série dos Exterminadores é construída em cima de paradoxos. O futuro, de acordo com Kyle, não está definido – e, aparentemente, nem o passado. Entretanto, um único ponto parece incapaz de ser alterado: a existência de John Connor. Filho de um pai que não nasceu e perseguido por ações que ainda não havia realizado, John Connor é ao mesmo tempo a causa e a cura de todos os possíveis cenários pós-apocalítpticos vistos na quadrilogia2 de filmes.

Ao enviar seu primeiro robô para o passado, e consequentemente levar Kyle Reese até seu filho, Skynet também garantia sua própria existência. Quando destruído, o primeiro T-800 deixou para trás a base de sua própria existência, o chip que daria ideias aos cientistas da Cyberdyne. O pesquisador responsável, Miles Dyson foi o primeiro a admitir que não haveria um projeto sem ele:

Dyson: Era algo assustador, radicalmente avançado. Estava esmagado… não funcionava. Mas nos deu ideias, nos levou a novas direções… coisas que jamais teríamos pensado. Todo nosso trabalho é baseado nele.

A construção que se seguiu e tornou-se o que havia sido previsto por Kyle Reese pode ser vista em “O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas”: um presente alternativo, criado a partir da alteração provocada por Sarah Connor nos planos de desenvolvimento do que viria a ser Skynet. Atrasada alguns anos, mas real como fora profetizada, a temida IA agora pertencente ao aparato de Defesa Americano construiu por meio de mais uma viagem no tempo de um de seus modelos mais avançados, o T-X, o caminho para que sua ativação acontecesse. Enquanto um vírus se espalhava pelos computadores mundiais, militares se viram forçados a utilizar seu novo sistema como proteção:

Soldado: Skynet. O vírus infectou Skynet.

John: Skynet é o vírus! É por isso que tudo está desabando.
Skynet se tornou auto-consciente.

Aparentemente, para não abrir mão da própria trava de segurança que impedia seus robôs de possuírem qualquer pensamento independente, Skynet – através da Terminatrix – foi forçada a viajar no tempo para garantir sua ativação. Comunicando-se com si mesma, a IA iniciou o ataque contra a Humanidade sem qualquer razoabilidade. Motivada pelo paradoxo de sua própria criação, Skynet cede aos impulsos da auto-preservação e evita seu desligamento num ataque em escala planetária, firmando novamente seu caminho rumo à destruição inevitável nas mãos de John Connor.

Calcada no conceito de artificialidade proposto por Newell, Skynet jamais consegue ultrapassar suas próprias limitações, mesmo quando extrapola seus planos de ataque, vistos em “O Exterminador do Futuro: A Salvação”. Num futuro diferente daquele do qual o primeiro Kyle Reese havia viajado, John Connor continua o líder da Resistência, mas os avanços de sua arquiinimiga não mais conferem com aqueles que lhe haviam sido transmitidos no passado. A criação de Marcus Wright, modelo de infiltração sem escala e sem a trava para o pensamento autônomo foi o passo mais representativo na evolução da Skynet.

Skynet [Para Marcus]: A condição humana já não se aplica à você. Aceite o que você já sabe… Que você foi construído para servir a um propósito. Para conseguir o que nenhuma outra máquina jamais conseguiu. Para se infiltrar, encontrar o alvo e trazer esse alvo para nós.

Ainda assim, mesmo se utilizando do que podemos aproximar como sua própria voz e manifestando abertamente seu processo estratégico, Skynet não foi capaz de lidar com um Terminator que não possuísse a limitação “somente-leitura” mencionada pelo T-800 em “O Exterminador do Futuro 2″. Ao encarar mais uma derrota, a IA reativa seu modus operandi original e envia mais uma máquina virtualmente indestrutível para eliminar John Connor que, similar ao seu inimigo, também apresenta certo grau de indestrutibilidade.

Presa em seu conceito limitado [artificial] de Inteligência, introduzido na sua própria gênese para atingir a meta maior – destruir John Connor para preservar sua integridade – Skynet se divide tanto nos papéis de antagonista quanto na função de escrava de sua auto-criação, permanecendo espalhada em diferentes realidades que possuem pontos de convergência e que, inevitavelmente, conduzem a sua derrota e destruição. Cercada por máquinas-filhas impedidas de pensar, a IA que joga com o tempo e o espaço pode ser vista, na verdade, como uma vítima de seu próprio nascimento paradoxal.

  1. Newell, A. (1994).Unified Theories of Cognition, Harvard University Press []
  2. Excluiremos aqui a série televisiva Terminator: The Sarah Connor Chronicles, que estabelece uma mitologia própria a partir do desfecho de “O Exterminador do Futuro 2″ []
Edição: Vol. 1 Nº 1 (fev/2011)
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Publicado em 21/02/2011, às 7:12.


Sobre Denis Pacheco

Denis Pacheco é um admirador de filmes adolescentes dos anos 80 e viagens no tempo. Seu encontro ideal seria um jantar com John Hughes em 1985, seguido de um show dos The Psychedelic Furs.

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4 comentários sobre A Inteligência da Skynet

  1. Ninguém nunca comentou o quanto este post é genial!?!

    Obrigado.

  2. Monica Diogo

    Concordo com o Roger, post genial !!! Pra quem gosta de cinema

  3. roni f. silva

    á skynet apressar de ter avançado conhecimentos técnico, esbarrar na contradição da linha alternativa de espaço- tempo: como se algo maior já tivesse determinado a sua derrota na guerra. ela(skynet) que garantir sua existência mudando o passado, já que naquela linha de tempo a derrota é inevitável.

  4. Gillian da Silva Ribeiro

    Post genial, porém fica sempre aquela ponta solta, se tudo foi um paradoxo com o futuro, como a Skynet foi criada sem esse futuro ter acontecido? Entramo no assunto de universos paralelos que nunca se cruzam e acabaram se cruzando e bagunçando tudo, esta história escrita por esse produtor do filme ficou meio sem nexo, pois se ela existe por causa da mesma no futuro, como a primeira Skynet do futuro foi criada? Se dimensões são paralelas, não se cruzam, dando fim e incoerência na história, poderia ser fantástica a história, porém depois que li este post, abri mais a minha mente a cerca da história, parabéns!